Guerra do Irã pode causar danos irreversíveis a países adjacentes ao conflito, prejudicando suas principais indústrias e infligindo danos duradouros em suas economias (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter
Publicado em 17 de maio de 2026 às 08h01.
Apesar de um cessar-fogo que já atinge sua sexta semana, a frágil trégua que resfriou o conflito entre os EUA e Israel contra o Irã no Oriente Médio trouxe pouco alívio aos países adjacentes no Golfo Pérsico, cujas economias enfrentam prospectos sombrios caso um retorno à normalidade esteja fora do alcance.
Conforme as negociações de paz igualmente tênues continuam, os países do Golfo se preparam para a possibilidade desse limbo – uma trégua nas hostilidades, mas uma situação longe de ser favorável às suas economias – se prolongar indefinidamente.
As monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que incluem o Bahrein, o Kuwait, o Omã, o Catar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU), já investiram dezenas de bilhões de dólares para manter suas economias longe de um colapso total.
As autoridades desses países ainda se dizem confiantes para aguentar um pouco mais de incertezas e conseguir retomar as atividades normalmente quando o imbróglio acabar, mas, conforme mais tempo passa, o risco de danos permanentes cresce. É fácil imaginar os problemas que o conflito trouxe aos EUA e ao Irã; todavia, quantificar os danos causados às monarquias que se orgulham de sua imagem como polos de estabilidade e buscam projetar uma imagem de normalidade é mais difícil.
Mesmo assim, é possível imaginar uma situação precária. A indústria mais afetada pelo conflito, de longe, foi a do petróleo – de importância vital, representando por si só cerca de um quarto de todo o PIB da região e a maioria de seus lucros de exportação – as exportações de petróleo da Arábia Saudita caíram cerca de 33%, enquanto as dos EAU caíram pela metade.
E essas são as principais potências petroleiras na região; para o Bahrein, o Kuwait e o Catar, as cifras de exportação são basicamente nulas. Ilustrando isso, o primeiro cargueiro do Omã a passar por Ormuz desde o começo da guerra só completou a passagem no final de semana dos dias 9 e 10 de maio. Por mais que a embarcação tenha passado por uma rota nas águas territoriais do Irã, onde o país busca implementar um sistema de pedágio, fontes familiares com o assunto dizem à revista britânica The Economist que a passagem se deu devido a um acordo diplomático entre o Irã e o Paquistão, que era o destino do navio.
“Se o comércio e o transporte marítimo continuarem paralisados por mais de algumas semanas a partir de hoje, prevemos que a interrupção no fornecimento persistirá e que o mercado só se normalizará em 2027”, disse a repórteres Amin Nasser, presidente da Saudi Aramco, a grande petrolífera estatal da Arábia Saudita, em 10 de maio.
As preocupações, todavia, vão além do petróleo e das exportações. O setor do turismo, por exemplo, que representava mais de 11% do PIB do Golfo antes da guerra – e números ainda maiores, especialmente nos EAU – também sofre com o conflito. Por mais que as linhas aéreas da região, um importante polo de escala, continuem surpreendentemente ativas — com a Emirates, a principal do Golfo, transportando um total de 4,7 milhões de passageiros em março e abril —, a situação fora dos aeroportos é preocupante.
Hotéis veem tão pouco tráfego que estão chamando os hóspedes recém-chegados pelo nome, já que registram apenas um ou dois check-ins por dia. No Bahrein, os gastos em hotéis com cartões de crédito caíram 64% em março em comparação com o mês anterior.
Dados da empresa de avaliação de hotelaria Moody estimam que a ocupação de hotéis em Dubai nesse trimestre será de apenas 10%, uma redução dos 80% de fevereiro. Além disso, dezenas de milhares de trabalhadores perderam seus empregos no setor de serviços na cidade.
A única coisa que mantém as lojas abastecidas é uma linha vital da Arábia Saudita, que ainda consegue importar produtos pelos seus portos no Mar Vermelho, que são subsequentemente transportados por terra firme para outros países do Golfo. Mesmo assim, os custos são altos, inclusive para varejistas e pequenos empresários: “[as autoridades] nos disseram para gastar o que for necessário para evitar prateleiras vazias”, diz à Economist um vendedor anônimo da região.
Apesar da resiliência econômica, muitos executivos e políticos apontam para o fim do verão no Hemisfério Norte, em meados de setembro, como um prazo final. Em setembro, trabalhadores, estudantes e executivos que moram no Golfo já devem retornar das férias, e as empresas se preparam para receber milhões de turistas e participantes de conferências, à medida que a economia acelera. Se os Estados Unidos e o Irã não chegarem a um acordo que reabra o estreito e traga um fim definitivo ao conflito, diz a Economist, um problema temporário poderá se transformar em algo muito mais sério.