Repórter
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 07h09.
O uso de criptoativos para movimentar dinheiro do crime organizado levou policiais de seis países a discutir novas formas de rastrear e apreender esses recursos em um encontro realizado nesta semana em Santiago, no Chile.
O evento reuniu agentes de Brasil, Estados Unidos, Austrália, Espanha, Estônia e Coreia do Sul, além de especialistas chilenos e representantes das Forças Armadas. A Polícia de Investigações do Chile (PDI) colocou no centro das discussões o rastreamento de ativos digitais.
"Dimensionamos um fenômeno que não é menor, aquilo que mantém no tempo estas organizações, sua visão empresarial e capacidade de lucrar. Seus investimentos, seus patrimônios, as estruturas que os encobrem e defendem, isso é o que devemos perseguir", afirmou Eduardo Cerna, diretor-geral da PDI.
As operações contra organizações criminosas passaram a exigir que investigadores procurem, além de documentos, dinheiro e armas, celulares e outros dispositivos capazes de revelar movimentações financeiras.
O objetivo é reconstruir a trajetória dos ativos e identificar os responsáveis por sua movimentação. As autoridades discutiram ferramentas de análise e softwares forenses para aumentar a capacidade de rastrear e apreender criptoativos.
"O método dos criptoativos foi incorporado por um sem-fim de organizações para mover recursos e dificultar seu rastreamento", disse à EFE Johnny Fica, responsável pela área de combate ao crime organizado da PDI.
Fica afirmou, porém, que o uso de ativos digitais não substituiu os métodos tradicionais de lavagem de dinheiro. Segundo ele, a escolha das ferramentas depende do tamanho, do território e dos objetivos de cada grupo.
Investigações sobre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho (CV), as duas maiores organizações criminosas do Brasil, identificaram uso de ferramentas de criptoativos em operações que chegaram a US$ 1,1 bilhão, segundo informações apresentadas pela EFE no encontro.
A cifra se soma a outros sinais de avanço do crime organizado sobre o mercado de ativos digitais. A Chainalysis apontou em junho que redes de lavagem de dinheiro operadas em língua chinesa, evasores de sanções russos e traficantes de drogas representaram mais de 50% dos fluxos ilícitos identificados em exchanges brasileiras em 2025.
No Brasil, o governo também passou a incluir os criptoativos entre os setores vulneráveis à infiltração de organizações criminosas. O Programa Brasil contra o Crime Organizado prevê ações de inteligência financeira, rastreamento de fluxos suspeitos e bloqueio de patrimônio ligado a facções.
O inspetor-chefe da Polícia Nacional da Espanha, Marcos Alvar, afirmou que as organizações criminosas abandonaram estruturas exclusivamente verticais e passaram a operar de forma mais distribuída, com possibilidade de contratar serviços especializados.
Para Alvar, esse modelo transforma as facções em "multinacionais do crime", com profissionais e recursos tecnológicos integrados às estruturas financeiras.
A cooperação internacional se torna necessária porque os recursos podem atravessar diferentes jurisdições em pouco tempo. Alvar destacou ainda a necessidade de atuação conjunta entre policiais, promotores e juízes para rastrear ativos em diferentes países.
Além do Brasil, investigações no Chile, na Colômbia, na Espanha e no México identificaram o uso de plataformas de criptomoedas por organizações criminosas para movimentar recursos provenientes do narcotráfico, da exploração sexual e de outros mercados ilegais.
*Com EFE