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Do homem mais rico da Ásia à prisão perpétua: quem é o fundador da Evergrande

Nascido no dia 9 de outubro de 1958, Hui, aos 68 anos de idade, declarou-se culpado em abril, após três anos sob detenção

Xu Jiayin, fundador da gigante imobiliária Evergrande, durante julgamento em tribunal em Shenzhen, na China. (Shenzhen Intermediate People's Court/AFP)

Xu Jiayin, fundador da gigante imobiliária Evergrande, durante julgamento em tribunal em Shenzhen, na China. (Shenzhen Intermediate People's Court/AFP)

Publicado em 20 de agosto de 2026 às 11h54.

Última atualização em 20 de agosto de 2026 às 11h55.

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Hui Ka Yan, fundador da Evergrande, passou de técnico em uma siderúrgica criado em uma vila rural da China a um dos homens mais ricos da Ásia, antes de ver sua fortuna e sua empresa desmoronarem em meio à crise imobiliária chinesa.

Nascido no dia 9 de outubro de 1958, Hui, aos 68 anos de idade, declarou-se culpado em abril, após três anos sob detenção, por oito acusações, incluindo uso indevido de recursos, fraude na captação de recursos e recebimento ilegal de depósitos públicos, o que resultou em sua prisão perpétua.

Nesta quinta-feira,20, um tribunal de Shenzhen determinou ainda o confisco de todo o seu patrimônio pessoal.

A trajetória de Hui começou em uma aldeia rural na província de Henan, no centro da China, onde foi criado pela avó. Formado durante o período de reformas econômicas do país, ele iniciou a carreira como técnico em uma empresa siderúrgica antes de migrar para o setor imobiliário.

Foi nesse mercado que Hui construiu sua fortuna, apostando na venda de imóveis de baixo custo e em uma estratégia de expansão acelerada.

A Evergrande comprava grandes áreas de terreno com dinheiro emprestado e vendia imóveis com margens menores, buscando transformar rapidamente esses ativos em receita.

A estratégia levou a empresa a uma expansão vertiginosa nas décadas seguintes. Em 2020, a Evergrande havia alcançado cerca de 700 bilhões de yuans, ou aproximadamente US$ 100 bilhões (cerca de R$ 515,6 bilhões na época), em vendas anuais, tornando-se uma das maiores incorporadoras da China.

O crescimento também transformou Hui em uma celebridade do mundo empresarial. Em 2017, sua fortuna chegou a US$ 45,3 bilhões, segundo a Forbes, fazendo dele o homem mais rico da Ásia naquele momento. Seis anos depois, seu patrimônio havia encolhido para cerca de US$ 3 bilhões.

Conhecido por trabalhar longas horas e manter um perfil público relativamente discreto, Hui também exigia que seus funcionários acompanhassem seu ritmo, segundo relatos de três ex-funcionários à Reuters.

Na fase de maior expansão da Evergrande, ele estabelecia metas ambiciosas e defendia publicamente o modelo altamente alavancado da companhia.

Hui argumentava que a rápida circulação dos ativos e o valor dos imóveis eram suficientes para sustentar as dívidas acumuladas pelos produtos financeiros da empresa. O modelo, porém, dependia da continuidade do crédito, da valorização dos terrenos e da capacidade da incorporadora de vender novos imóveis.

Investidor

Fora do mercado imobiliário, Hui também investiu em setores associados às prioridades econômicas e políticas da China, como carros elétricos e até mesmo o futebol. As duas áreas estavam entre as paixões e os objetivos promovidos pelo presidente Xi Jinping durante a transformação da economia chinesa.

Em Hong Kong, Hui também se aproximou de empresários bilionários e passou a integrar um círculo conhecido como "clube do pôquer", composto por investidores que mantinham relações sociais e realizavam negócios em conjunto. Segundo pessoas familiarizadas com o grupo, sua postura nas partidas ajudou a conquistar a confiança de integrantes influentes.

Entre eles estava Cheng Yu Tung, fundador do grupo New World Development, que teria investido US$ 150 milhões na Evergrande um ano antes da abertura de capital da empresa em Hong Kong, em 2009. O aporte ajudou a incorporadora a superar dificuldades decorrentes da expansão agressiva e da crise financeira global.

A queda dos fortes

O crescimento baseado em dívidas, contudo, passou a preocupar cada vez mais os reguladores chineses. As autoridades alertavam que a situação financeira da Evergrande precisava ser corrigida diante do risco de que problemas na empresa se espalhassem pelo sistema financeiro e pelo restante do setor imobiliário.

A crise veio à tona quando a Evergrande deixou de cumprir suas obrigações no exterior, meses depois de Hui participar das celebrações do Partido Comunista em Pequim. A empresa posteriormente entrou em processo de liquidação em Hong Kong, e seu colapso se tornou um dos principais símbolos da crise imobiliária que continua pressionando a economia chinesa.

A imagem pública construída ao longo dos anos de prosperidade também começou a ruir. Em 2018, ao receber, pela oitava vez consecutiva, um prêmio de caridade do governo chinês, Hui destacou os impostos pagos e as doações realizadas pela Evergrande, além de enfatizar sua relação com as políticas do país.

Na ocasião, Hui atribuiu sua ascensão às políticas de reforma e abertura da China, afirmando que a educação e uma bolsa mensal de 14 yuans haviam permitido que ele deixasse a vila onde cresceu.

Segundo ele, tudo o que havia conquistado junto com a Evergrande era resultado das políticas do Partido, do Estado e da sociedade.

Anos depois, a trajetória que Hui apresentava como resultado da transformação econômica chinesa terminou em uma das maiores quedas empresariais do país.

Com a Evergrande em liquidação, a fortuna perdida e seus bens confiscados, a história do empresário passou a representar também os riscos do modelo de crescimento imobiliário baseado em dívida que ajudou a impulsionar a economia chinesa por décadas.

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