Repórter
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 11h51.
As negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra chegaram a um novo impasse, e o presidente americano, Donald Trump, passou a pressionar também Omã, país que atua como intermediário entre Washington e Teerã.
Na segunda-feira, 17, Trump ameaçou bombardear o país caso ele “se interponha” nas negociações sobre o Estreito de Ormuz.
A ameaça ocorreu no mesmo dia em que venceu o prazo de 60 dias estabelecido por Estados Unidos e Irã para avançar em um acordo de paz. O memorando de entendimento assinado em 17 de junho previa o fim das operações militares, a reabertura de Ormuz e negociações sobre o programa nuclear iraniano e as sanções contra Teerã.
O prazo terminou sem um acordo definitivo. Nesta terça-feira, 18, Trump afirmou que não há conversas ou negociações em curso ou previstas com o Irã e disse que o bloqueio naval americano continua em vigor. O presidente também afirmou que o Estreito de Ormuz está “aberto e operando”.
A declaração contrasta com a posição de Teerã. O presidente do Parlamento iraniano e chefe negociador do país, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o estreito continuará fechado até que os Estados Unidos cumpram as condições estabelecidas no memorando de junho.
Omã está no centro das tentativas de encontrar uma saída para o impasse porque mantém relações com o Irã e atua há anos como intermediário entre Teerã e Washington. O país negocia diretamente com os iranianos uma forma de permitir a retomada do tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz.
Trump, porém, quer a reabertura completa da passagem e rejeita um acordo que possa ampliar o controle iraniano sobre a rota. O Irã e Omã discutem uma declaração conjunta sobre a navegação e um modelo para administrar o tráfego pelo estreito.
Em entrevista à Fox News, Trump afirmou que, se Omã atrapalhar um acordo com o Irã, os Estados Unidos poderão bombardear o país. Em declaração no Salão Oval, o presidente também disse que os omanenses “não se comportaram muito bem” e que os Estados Unidos poderiam lidar com o país facilmente.
A ameaça coloca sob pressão justamente um dos principais canais diplomáticos entre Washington e Teerã. Dentro do governo americano, há divergências sobre o papel de Omã: alguns assessores consideram que o país favorece o Irã, enquanto outros avaliam que seus vínculos com Teerã são importantes para uma eventual negociação.
O governo iraniano condiciona a reabertura do estreito ao cumprimento de uma série de exigências por parte dos Estados Unidos. Entre elas estão o fim do bloqueio aos portos iranianos, a suspensão das sanções sobre o petróleo, a liberação de ativos congelados e o encerramento das operações militares.
Ghalibaf afirmou nesta terça-feira que Teerã se fortaleceu militarmente durante as semanas de trégua e está preparado para impor uma derrota ainda maior aos Estados Unidos caso o confronto seja retomado.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, também afirmou que o prazo de 60 dias perdeu validade diante das “violações” cometidas por Washington. Segundo ele, as negociações previstas no memorando não chegaram a começar.
Enquanto o impasse diplomático aumenta, a tensão no Estreito de Ormuz continua. Nesta terça-feira, um navio foi atingido por um “projétil não identificado” enquanto atravessava a passagem, segundo a agência marítima britânica UKMTO.
O impacto danificou a casa de máquinas e deixou uma vítima entre a tripulação. Os demais integrantes foram atendidos pela Guarda Costeira de Omã.
O incidente ocorre em um momento em que o tráfego pelo estreito está muito abaixo do nível anterior à guerra. A passagem entre o Irã e Omã é uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo e gás e se tornou o principal ponto de disputa entre Washington e Teerã.
Além da ameaça a Omã, Trump elevou novamente o tom sobre o controle da passagem. Nesta terça-feira, o presidente publicou na Truth Social uma fotografia de um mapa do Estreito de Ormuz com a inscrição “NOVO território dos Estados Unidos”.
Na última sexta-feira, Trump já havia afirmado que pretendia incorporar o estreito como território americano depois de derrotar o Irã. Dias antes, também havia dito que os Estados Unidos tinham “controle total” da passagem e que pretendiam “ficar com ela”.
O governo iraniano rejeita a afirmação de que Washington tenha controle da rota. Para Teerã, a abertura do estreito depende de um acordo que contemple o fim do bloqueio americano e das sanções.
O fim do prazo de 60 dias não significa necessariamente uma retomada imediata das negociações. Para o Eurasia Group, o cenário mais provável é que Estados Unidos e Irã mantenham o impasse por mais algum tempo antes de chegar a um acordo limitado sobre o Estreito de Ormuz.
A consultoria atribui 55% de probabilidade a um acordo limitado até o fim de 2026, que permitiria a recuperação parcial do tráfego pela passagem. Há 20% de chance de o confronto continuar no formato atual pelo restante do ano e 25% de risco de uma escalada significativa.
Um dos fatores que permitem a Washington esperar é o comportamento do mercado de petróleo. Apesar de as cotações permanecerem elevadas, o impacto do bloqueio foi parcialmente absorvido pela capacidade de redirecionar parte dos fluxos de petróleo e pela adaptação da economia mundial à redução do tráfego em Ormuz.
Para o Eurasia Group, o cenário reduz a urgência de Trump em fechar um acordo. Com os preços em um nível elevado, mas ainda administrável, o presidente americano pode manter a estratégia de “máxima pressão”, baseada em sanções e no bloqueio das exportações de petróleo iraniano, enquanto espera que a pressão econômica force Teerã a ceder.
Apesar da crise econômica, o Irã não deve necessariamente capitular. O país enfrenta queda da atividade econômica, desemprego elevado, inflação acima de 75%, desvalorização da moeda, escassez de produtos e dificuldades para exportar petróleo.
Na avaliação do Eurasia Group, o regime iraniano tende a priorizar a resistência à pressão externa. A piora das condições econômicas aumenta o risco de protestos, mas o governo continua disposto a reprimir movimentos de contestação.
Teerã também tem espaço para aumentar a pressão militar. O país poderia atacar bases e navios americanos ou alvos nos países do Golfo. Uma ofensiva desse tipo provocaria uma resposta dos Estados Unidos e elevaria o risco de uma escalada significativa.
Para a consultoria, porém, é mais provável que o Irã mantenha uma estratégia de desgaste e espere que a pressão econômica e política leve Washington a aceitar um acordo mais favorável a Teerã.