Diamantes brutos recém-extraídos ainda cobertos de terra, antes do processo de lapidação (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 11h46.
A indústria global de diamantes vive uma disputa que ganhou força nos últimos cinco anos e ainda não tem um vencedor definido. De um lado estão as pedras extraídas da terra, formadas ao longo de bilhões de anos sob pressão e calor extremos. Do outro, os diamantes sintéticos, produzidos em laboratório em poucos dias e vendidos por uma fração do preço. Essa disputa reorganizou preços, margens e discursos de marca em todo o setor.
Diante do avanço dos sintéticos, executivos da De Beers, controlada pela britânica Anglo American e com participação de 15% do governo de Botsuana, passaram a se reunir com associações do setor, governos africanos e redes varejistas como a Signet Jewelers, dona das marcas Jared, Kay e Zales, em busca de uma narrativa capaz de diferenciar as pedras minadas das sintéticas, hoje chamadas pelo mercado de "naturais" para reforçar a origem geológica do produto.
O avanço dos sintéticos se acelerou durante a pandemia, quando marcas como Aether, Brilliant Earth e Lusix passaram a vender pedras cultivadas em laboratório por preços bem mais baixos, impulsionadas pelo comércio online e pelo tempo maior em videochamadas. O preço médio de varejo de um diamante sintético de 1 quilate caiu cerca de 75% entre 2020 e 2023, de aproximadamente R$ 17.340 (US$ 3.400) para cerca de R$ 6.120 (US$ 1.200), segundo a Tenoris. No mesmo período, o índice DIAMINDX, da Bloomberg, mostrou queda de mais de 25% no preço dos diamantes minerados.
O mercado de anéis de noivado, avaliado em cerca de R$ 61,2 bilhões (US$ 12 bilhões) nos Estados Unidos, também sentiu o impacto. A fatia da receita de diamantes naturais vinda desse segmento caiu de um terço para cerca de um quarto do total, e o valor médio gasto em um anel recuou de uma faixa entre R$ 25.500 e R$ 51.000 (US$ 5 mil a US$ 10 mil) para algo entre R$ 10.200 e R$ 15.300 (US$ 2 mil a US$ 3 mil).
O DiamondPlus, scanner da De Beers vendido a joalherias por cerca de R$ 28.050 (US$ 5.500), identifica diamantes sintéticos em poucos segundos (Divulgação)
Para reduzir a confusão entre os dois tipos de pedra dentro das lojas, a De Beers desenvolveu o DiamondProof, scanner vendido a joalherias por cerca de R$ 28.050 (US$ 5.500) e capaz de identificar diamantes sintéticos em segundos. O CEO Al Cook afirma que a falta de clareza abriu espaço para práticas abusivas, já que diamantes cultivados podem ser comprados em bruto por cerca de R$ 76,50 (US$ 15) o quilate.
A origem também é um ponto sensível para as pedras minadas, ligado historicamente aos chamados diamantes de sangue, extraídos em zonas de conflito nos anos 1990. O Processo Kimberley segue como principal mecanismo de controle do setor, complementado por plataformas de rastreamento como o Tracr, sistema de blockchain da De Beers com a GIA.
Parte da resposta do setor passou por reposicionar produtos com pouco apelo comercial até então. A linha Desert Diamonds, da De Beers, com pedras em tons de marrom e âmbar do sudoeste da África, teve vendas ampliadas em quase 20% no primeiro trimestre de 2026, após aparições em looks de celebridades como Rihanna, Rose Byrne e Taylor Swift. As vendas de diamantes minerados incolores de até 1 quilate, por outro lado, caíram 7% no mesmo período. No segmento cultivado, empresas como a americana Eterneva transformam cinzas de pessoas ou animais de estimação em diamantes personalizados, com preços a partir de R$ 17.850 (US$ 3.500), e vendem mais de mil pedras por ano.
Para o analista Edahn Golan, da Tenoris, a valorização de pedras maiores é reflexo do avanço dos sintéticos, já que o tamanho médio dos diamantes vendidos hoje é de 2 quilates, acima dos padrões de anos atrás. O valor de revenda de um diamante natural gira em torno de 70% do preço original, ante cerca de 90% em 2020, enquanto pedras sintéticas costumam ser revendidas por 10% ou menos do valor pago inicialmente.