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Berlusconi renunciará, encerrando era 'bunga bunga' na Itália

Crise econômica derrubou o primeiro-ministro que fez coleção de escândalos - de sexuais a fiscais - desde que assumiu o poder pela primeira vez, há 17 anos

São Paulo - A crise econômica que está afundando a Itália e a União Europeia fez o que nenhum dos inúmeros escândalos - principalmente sexuais - de Silvio Berlusconi conseguiu: tirou o primeiro-ministro do poder e colocou um ponto final na era do 'bunga bunga'.

O presidente Giorgio Napolitano informou nesta terça-feira que o premiê vai entregar o cargo assim que as reformas econômicas forem aprovadas pela Câmara Baixa. O Executivo pretende apresentar a emenda ao Senado nesta quarta-feira. Seguindo o trâmite habitual, ela pode ser votada pelo plenário da Câmara alta do Parlamento já na próxima semana. O anúncio foi feito após Berlusconi perder a maioria em uma importante votação no Parlamento italiano.

A expressão exótica e de origem ignorada foi agregada ao vocabulário italiano em novembro de 2010, depois que a imigrante marroquina Karima El Mahroug (conhecida como Ruby) contou como terminavam as grandes festas promovidas pelo premiê em suas mansões, com mulheres nuas fazendo trenzinho com os convidados.

Mas logo o termo passou a representar também o jeito fanfarrão de Berlusconi, o político sem freio que sempre se gabou de ser rico, poderoso e ter uma vida sexual (extremamente) ativa. Suas farras com frequência o punham em saias-justas - e ele parecia não se importar. Na verdade, quanto mais justas as saias e mais novas novas as pernas, mais a seu gosto. "Gostar de garotas é melhor do que ser gay" é uma de suas pérolas mais famosas (Veja outras pérolas na página 3).


Berlusconi foi eleito premiê pela primeira vez há 17 anos e está em seu terceiro mandato (1994-1995, 2001-2006, 2008-2011). Mesmo envolvido em diversas polêmicas ao longo de todo esse tempo, nunca teve seu poder realmente abalado no país. Nenhuma das pelo menos 17 acusações feitas contra ele resultou em condenações - além dos escândalos sexuais, casos de corrupção, alegações de desfalque, fraude fiscal e suborno.

Sempre negando qualquer irregularidade, o primeiro-ministro passou com sucesso por todos os votos de confiança aos quais o Parlamento o submeteu, mesmo nos piores contextos. Recentemente, porém, a coalizão política de Berlusconi desceu tão fundo quanto sua reputação. Na última votação da Câmara Baixa sobre o plano orçamentário para reduzir o déficit em 2012, ele conseguiu ter sua proposta aprovada, mas perdeu a maioria absoluta dos 316 deputados do plenário - e o cargo ficou por um fio.

No mesmo dia, seu principal aliado, Umberto Bossi, pediu abertamente sua renúncia, seguindo outros deputados de seu próprio partido, o Povo da Liberdade (PDL). Berlusconi taxou os "rebeldes" de seu partido como traidores de toda a Itália, e considerava já ser suficiente o fato de ter prometido não concorrer à reeleição nem à Presidência nas próximas eleições. Para os italianos, não era: a popularidade do premiê caiu a seu mínimo histórico, de 22%, segundo a pesquisa mais recente divulgada. Em janeiro, quase metade dos italianos já gostaria que o chefe de governo renunciasse, conforme um levantamento publicado pelo jornal Corriere della Sera.

Vida pessoal - Da série de baixarias produzidas pelo premiê, o caso Rubygate finalmente o levou ao banco de réus. Ruby Rubacuori (rouba-corações, em italiano) é o nome artístico da imigrante marroquina Karima El Mahroug, hoje com 19 anos. Ela contou à polícia que quando tinha 17 anos recebeu dinheiro para participar das festinhas 'bunga bunga'. A imprensa do mundo todo já publicou dezenas de fotos de noitadas nas mansões de Berlusconi e reproduziu gravações que revelam detalhes íntimos de sua vida íntima: múltiplas acompanhantes na cama, um encarregado de encontrar garotas bonitas e uma caixa de joias para suas jovens favoritas. Um extrato bancário divulgado no fim de outubro revelou que o premiê italiano de 75 anos gastou nada menos que 2,7 milhões de euros (6,5 milhões de reais) com presentes para garotas que ele cortejava - só joias teriam custado 337.000 euros (mais de 800.000 reais). Em fevereiro passado, milhares de mulheres organizaram protestos em diversas cidades do país, acusando-o de denegrir a reputação feminina. Nada com que ele se importe. "Sempre tentei agir de forma que cada mulher se sentisse especial." 


Dez pérolas do premiê mulherengo

"Tentarei não decepcioná-lo e lhe prometo dois meses e meio de completa abstinência sexual."
(Em janeiro de 2006, fazendo promessa a um padre até as eleições seguintes)

"A primazia feminina é dentro das paredes domésticas, mas fora de casa é discutível."
(Em abril de 2008)

"Não acharia ruim ser ressuscitado por você."
(Em abril de 2009, a uma médica ruiva de olhos azuis que atendia vítimas de uma terremoto)

"Nunca paguei por uma mulher. Nunca entendi que outra satisfação pode haver senão a de conquistar."
(Em junho de 2009, em entrevista à revista semanal Chi)

"Não sou santo."
(Em julho de 2009, ao falar pela primeira vez em público sobre conversas com uma prostituta)

"Meninas, procurem maridos ricos, como eu."
(Em setembro de 2010, às jovens italianas)

"Vivo uma vida terrível. Se uma vez ou outra preciso de uma noite para relaxar, ninguém tem nada com isso."
(Em novembro de 2010, ao comentar o caso com Ruby, a marroquina menor de idade com quem se envolveu)


"Gostar de belas garotas é melhor do que ser gay."
(Em novembro de 2010, complementando a declaração acima)

"De acordo com uma pesquisa, quando perguntado se elas teriam feito sexo comigo, 30% das mulheres disseram 'sim', enquanto as outras 70% responderam 'mas de novo?'"
(Em março de 2011, após o surgimento de mais um escândalo sexual)

"Todos nós somos 25% gay. Eu também tenho essa parcela, só que após um atento exame descobri que a minha é lésbica."
(Em abril de 2011)

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