Groenlândia: território autônomo do Reino da Dinamarca voltou ao centro do debate geopolítico após declarações e postagens ligadas ao governo dos EUA (Karl Petersen/Reuters)
Redação Exame
Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 16h55.
Última atualização em 4 de janeiro de 2026 às 20h18.
O bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro voltaram a acender alertas na Europa sobre possíveis ambições territoriais americanas, desta vez em relação à Groenlândia. A ofensiva militar em território sul-americano foi seguida por manifestações de integrantes do movimento Maga, ligado ao presidente Donald Trump, que passaram a fazer referências explícitas ao território dinamarquês no Ártico.
Segundo o The Guardian, poucas horas após a operação militar na Venezuela, a podcaster conservadora Katie Miller publicou na rede social X uma imagem da Groenlândia coberta pela bandeira dos Estados Unidos, acompanhada da palavra “Soon” (“em breve”). Miller é casada com Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump para políticas internas.
O próprio Trump reforçou o discurso ao afirmar à revista The Atlantic que os Estados Unidos “precisam absolutamente da Groenlândia”.
A publicação gerou reação imediata de autoridades da Dinamarca e da própria Groenlândia. O primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, classificou a postagem como “desrespeitosa”. Em mensagem publicada no X, afirmou que as relações entre países devem se basear no respeito mútuo e no direito internacional, e não em gestos simbólicos que ignoram a soberania e os direitos do território.
Nielsen, no entanto, buscou afastar um clima de alarme. “Não há motivo para pânico ou preocupação. Nosso país não está à venda, e nosso futuro não é decidido por postagens em redes sociais”, escreveu.
O embaixador da Dinamarca em Washington, Jesper Møller Sørensen, também reagiu ao episódio. Ele republicou no X a imagem com um “lembrete amigável” sobre os laços históricos de defesa entre os dois países. “Somos aliados próximos e devemos continuar trabalhando dessa forma. A segurança dos Estados Unidos também é a segurança da Groenlândia e da Dinamarca”, afirmou.
O diplomata destacou ainda que o governo dinamarquês ampliou seus gastos com defesa em 2025, com um compromisso de US$ 13,7 bilhões voltados à segurança no Ártico e no Atlântico Norte. “Levamos nossa segurança conjunta a sério”, disse, acrescentando que Copenhague espera “pleno respeito à integridade territorial do Reino da Dinamarca”.
A preocupação aumentou após Trump nomear recentemente o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial para a Groenlândia. Segundo a AFP, ao agradecer a nomeação em dezembro, Landry afirmou ser “uma honra” contribuir para que o território “se torne parte dos Estados Unidos”.
No sábado, Landry celebrou publicamente a derrubada de Maduro. Em postagem no X, afirmou que a ação dos EUA representava um avanço no combate ao narcotráfico e agradeceu a Trump por “responsabilizar líderes como Maduro”.
Desde que voltou ao poder, há cerca de um ano, Trump tem causado desconforto entre aliados europeus ao reiterar seu interesse pela Groenlândia, considerada estratégica tanto do ponto de vista militar quanto por seu potencial mineral. A ilha abriga a base militar americana mais ao norte do mundo, em Pituffik, visitada em março pelo vice-presidente JD Vance.
Ainda segundo a AFP, Trump se recusou a descartar o uso da força para assumir o controle do território, em um momento de crescente disputa geopolítica no Ártico envolvendo Estados Unidos, China e Rússia. Em entrevista à emissora NBC, em maio, afirmou que não exclui nenhuma possibilidade. “Precisamos muito da Groenlândia para a segurança internacional”, disse.
As declarações provocaram reações duras das lideranças locais. No mês passado, o serviço de inteligência da defesa dinamarquesa passou a classificar os Estados Unidos como um risco à segurança, em uma mudança significativa no relacionamento transatlântico.
À época, os primeiros-ministros da Dinamarca, Mette Frederiksen, e da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, divulgaram uma nota conjunta reafirmando que fronteiras nacionais e soberania estão amparadas pelo direito internacional. “Não se pode anexar outros países”, afirmaram.
Embora a maioria dos cerca de 57 mil habitantes da Groenlândia defenda a independência em relação à Dinamarca, pesquisas indicam que não há apoio para uma eventual incorporação aos Estados Unidos. O território tem o direito formal de declarar independência desde 2009.
Para Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do think tank Defense Priorities, o tom de Trump em relação à Groenlândia deixou de parecer apenas retórico. “Antes eu descartava esse tipo de ameaça. Agora, não tenho tanta certeza”, afirmou à AFP. Segundo ela, uma presença militar americana no território poderia ser implementada rapidamente, sem que fique claro quem teria condições de reagir.