Apple: a maçã virou uma vaca?

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a influência que o megainvestidor americano Warren Buffett tem no mercado de ações, bastaria olhar para a cotação da Apple na segunda feira 16. O mero anúncio de que o fundo de investimentos de Buffett, o Berkshire Hathaway, comprou este ano 9,8 milhões de ações da companhia fez o valor da Apple subir quase 4%, para 515 bilhões de dólares.

Trocando em graúdos: Buffett comprou 1 bilhão dólares, e a Apple passou a valer mais 19 bilhões.

O que não significa que tenha sido bom negócio, pelo menos no curto prazo. Desde abril, as ações da Apple haviam perdido 13% de seu valor, logo após seu relatório trimestral apontar a primeira queda na venda de iPhones em 13 anos.

E Buffett não é o único investidor com influência no mercado. No final de abril, Carl Icahn, conhecido por seu ativismo nas empresas em que aposta, anunciou que havia vendido todos os 45 milhões de ações que mantinha da Apple – e a cotação caiu mais de 3%.

O impacto da saída de Icahn é compreensível. Nos últimos três anos, ele vinha sendo um dos maiores propagandistas da empresa. Em carta aberta a seu executivo-chefe, Tim Cook, em maio do ano passado, afirmou que as ações da Apple valiam 240 dólares, quase o dobro da sua cotação na bolsa na época.

Como uma namorada elegante que diz que a culpa não é sua, é ela que não está enxergando futuro na relação, Icahn reiterou que a Apple era uma empresa fantástica, que nem sequer requeria que ele exercesse seu ativismo porque “tem uma grande gestão”. O motivo do abandono, disse, era a China.

Sua preocupação não era com a queda das vendas na China, o maior mercado para iPhones fora dos Estados Unidos, mas com a falta de previsibilidade do governo chinês. Em Abril, o país proibiu a venda de filmes pelo iTunes e de livros pelo iBooks, após ter lançado novas regras de controle de conteúdo online. (Não à toa, Cook está visitando a China por estes dias, e anunciou investimento de US$ 1 bilhão na empresa Didi, uma rival chinesa do Uber.)

Mudou Buffett ou mudou a Apple?

No mesmo dia em que a Berkshire Hathaway informou ao órgão regulador americano que comprara ações da Apple, outro investidor influente, o bilionário David Tepper, informava que vendeu todas as suas ações da empresa.

À primeira vista, esse vaivém é o ritmo natural da bolsa de valores: uns compram, outros vendem. Mas é possível que os dois movimentos sejam complementares, em vez de antagônicos.

O investimento de Buffett na Apple pode ser interpretado de duas maneiras. A primeira explicação, oferecida pelo Wall Street Journal, é que a compra não parece ser uma atitude que Buffett tomaria… porque de fato não é.

Buffett é conhecido como um investidor conservador, avesso a empresas de tecnologia. Há quatro anos, ele especificamente afirmou que não investiria na Apple nem no Google, porque não sabe como avaliá-las. Mas ele está com 86 anos, e há algum tempo vem incentivando potenciais sucessores para liderar o portfólio de 129 bilhões de dólares da Berkshire Hathaway.

Por isso trouxe, em 2011 e 2012, dois gestores de fundos, Todd Combs e Ted Weschler, e tem lhes dado alguma liberdade para escolher apostas. Teriam sido eles, ou um deles, segundo o WSJ, o responsável pelo investimento na Apple, assim como em outras empresas de tecnologia (a Berkshire elevou sua posição na IBM e supostamente apoia um consórcio que tenta comprar o Yahoo).

A segunda explicação é que a Berkshire não mudou absolutamente nada de sua visão de investimentos. O que mudou foi a Apple.

De estrela a vaca leiteira

Buffett gosta de empresas que tenham boa gestão e perspectivas de receita constante durante um longo prazo, com risco baixo. Várias vezes ele declarou que prefere uma grande chance de ter uma pequena valorização do que uma pequena chance de ter uma valorização enorme.

Pois é esse tipo de empresa que a Apple pode ter se tornado. Quando Steve Jobs morreu, em 2011, muitos analistas expressaram dúvidas sobre a capacidade de a empresa manter seu impressionante histórico de inovações revolucionárias – e extremamente lucrativas. Tim Cook, seu sucessor, era o sujeito que cuidava da eficiência das operações, não da criação de produtos.

Enquanto as vendas de iPads e, principalmente, de iPhones cresciam, a falta de um produto “matador” podia ser tolerada. Mas já em 2014 se descobriu que a curva de adesão aos tablets não seria tão acentuada como a dos iPhones, e desde o ano passado o aumento das vendas destes últimos se estabilizou, para finalmente cair no último trimestre.

A Apple teve uma valorização estrondosa desde que Steve Jobs voltou à companhia, em 1997. Com um hit atrás do outro, ela se tornou a empresa mais valiosa do setor de tecnologia em 2010, quando ultrapassou a Microsoft, cotada em 220 bilhões de dólares. Dois anos depois, ultrapassou a Exxon e se tornou a empresa mais valiosa do mundo, de qualquer setor.

Mas nos últimos três meses essa posição foi momentaneamente ocupada pelo Google por duas vezes, no decorrer do dia, para ser depois recuperada. Tudo leva a crer que o reinado da Apple está no fim.

O iPhone é um sucesso tremendo, com 231 milhões de aparelhos vendidos no ano passado. Mas até por isso suas perspectivas de crescimento são diminutas. E a Apple depende do iPhone. A receita que ele proporciona (154 bilhões de dólares, em 2015) é duas vezes maior que a de todos os outros produtos da empresa juntos.

A não ser que esteja preparando alguma baita surpresa, a Apple está se tornando, pelo menos aos olhos do mercado financeiro, uma vaca leiteira – definição que se dá a empresas que dão muito dinheiro, mas cujo crescimento é lento, nulo ou até negativo.

Um índice crucial para avaliar uma companhia é a relação entre o preço de suas ações e o lucro anual (P/L). Se a taxa é alta, é sinal de que Wall Street está pagando um prêmio pelas ações – porque acredita que a empresa vai crescer. Se a taxa é baixa, sinaliza que os investidores acreditam que os lucros vão estagnar ou diminuir.

A relação P/L da Apple é na casa dos 10. Os lucros do Google não chegam a um terço dos da Apple, mas seu valor de mercado está muito próximo da rival, porque sua P/L está na casa dos 30.

Os investidores parecem ter adorado a estratégia do Google de criar uma holding, Alphabet, na prática isolando o Google das iniciativas mais ousadas, de longo prazo, deficitárias, de seus fundadores. E o Google ainda demonstra vigor inusitado: depois de seu bem-sucedido serviço de buscas, responsável por 90% do faturamento em anúncios, lançou o Google Maps, o sistema operacional Android, o navegador Chrome. Recentemente, passou a apostar em serviços de nuvem, com que espera ter receitas tão gigantescas quanto as de publicidade.

É só uma fase?

Obviamente, Tim Cook não concorda com essa visão do mercado. Segundo ele, os resultados aquém do esperado se deveram a “um trimestre desafiador”, com alta do dólar, crise na China (seu mercado mais promissor) e uma base de comparação muito alta (as vendas extraordinárias de 2015). Além disso, foi um período sem atualização de aparelhos. “É uma barra alta para transpor”, disse ao WSJ. “Mas isso não muda nosso caminho. O futuro é brilhante.”

Isso é verdade mesmo se a Apple tiver se tornado uma vaca leiteira. Porque a quantidade de leite dessa vaca é fantástica. No primeiro trimestre do ano, a empresa apresentou uma receita de 50 bilhões de dólares e lucro líquido de 10 bilhões. Entende-se a decepção de Wall Street porque a receita no mesmo trimestre de 2015 foi de 58 bilhões de dólares e o lucro, 13,6 bilhões. Mas é dinheiro à beça.

E a Apple tem um caixa de 216 bilhões de dólares. Embora a maior parte disso seja na forma de títulos de longo prazo e esteja fora dos Estados Unidos (para trazê-los para casa a empresa teria de pagar altos impostos), é dinheiro suficiente para bancar várias e várias apostas. Alguma delas podem até fazer a vaca voar.

(David Cohen)

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