Acordo UE-Mercosul: agroindústria argentina se beneficia com política (Stockbyte/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 16h05.
O setor agroindustrial da Argentina será um dos maiores beneficiados pelo acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que será assinado nos próximos dias, mas ainda precisa passar pela ratificação parlamentar para entrar em vigor.
Negociado há 25 anos entre a UE e o bloco fundado em 1991 por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, o pacto será assinado em 17 de janeiro, em Assunção, criando um mercado de cerca de 700 milhões de pessoas, com 30% do PIB mundial e 35% do comércio global, segundo dados dos Vinte e Sete.
"Na Argentina, o setor mais beneficiado será o agropecuário, os derivados da soja e toda a indústria alimentícia. Vai ser espetacular para o campo, para poder crescer nas exportações. Isso vai incentivar muito os investimentos e gerar um efeito positivo em toda a atividade econômica", disse à EFE Leonardo Piazza, diretor da consultoria econômica LP Consulting.
O acordo prevê o comércio de todos os bens e serviços, mas na agricultura 99% das trocas serão liberadas, com a eliminação imediata de tarifas para produtos do Mercosul como farinha e grão de soja, óleos, frutas, legumes, amendoim, café, mate, chá, bebidas e vários produtos pesqueiros.
Além disso, a UE concederá ao Mercosul maiores cotas para carne bovina e de frango, milho e etanol, e reconhecerá 220 indicações geográficas do bloco, incluindo 104 argentinas, principalmente de vinhos e produtos regionais.
O cenário que se abrirá quando o tratado entrar em vigor anima o setor agropecuário da Argentina, um dos maiores produtores e exportadores mundiais de grãos e derivados e de carne bovina.
Ao anunciar a assinatura do acordo na sexta-feira passada, a Sociedade Rural Argentina (SRA) destacou que a UE é um dos mercados mais relevantes globalmente, com 450 milhões de consumidores e importações agroindustriais anuais de 220 bilhões de dólares.
"A Argentina hoje representa apenas 3% dessas importações. Dado que 6 de cada 10 dólares exportados pela Argentina vêm do agro, o acordo abre uma oportunidade concreta de escala, diversificação e maior valor agregado", afirmou a SRA, que ainda ressaltou que o acordo abrangerá "praticamente todo o complexo agroindustrial" argentino.
Outro fator que anima o setor é que, como parte do acordo com a UE, a Argentina se compromete a eliminar os direitos de exportação — ou reduzi-los em produtos como a soja — um antigo pedido dos agricultores do país sul-americano.
Para Lisandro Mogliati, consultor em negócios internacionais e professor universitário de comércio exterior, o entendimento com a UE não beneficiará apenas os exportadores argentinos de carne, soja e derivados, mas também "os complexos agroindustriais de menor porte, que têm enorme potencial com este acordo".
"Além disso, a eliminação de tarifas para importar da UE equipamentos, máquinas e insumos representa uma oportunidade para que o setor agropecuário argentino adote tecnologia a menor custo e ganhe assim maior eficiência e competitividade", disse Mogliati à EFE.
O especialista alertou, porém, que os exportadores argentinos "deverão se alinhar à política sanitária europeia, que funciona como uma barreira não tarifária e pode limitar o setor com maior potencial no Mercosul, que é a agroindústria".
Ele também lembrou que, mesmo após a assinatura, será necessária a ratificação pelo Parlamento Europeu e pelos legislativos de cada país do Mercosul, "e o que se observa é que há países europeus com forte oposição ao acordo, como França, Polônia e Irlanda, que resistem à sua implementação".