Relatório HR Futures Intelligence reúne discussões sobre o futuro do trabalho diante do avanço da inteligência artificial nas empresas (WeAre/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 12 de maio de 2026 às 17h32.
Última atualização em 13 de maio de 2026 às 11h26.
A inteligência artificial já ocupa organogramas corporativos, acelera ciclos de decisão e pressiona empresas a rever modelos de gestão, liderança e cultura organizacional. Em meio a esse cenário, a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil) e a Flash reuniram mais de 2 mil profissionais em um webinar nacional para discutir como o RH pode assumir protagonismo na transformação tecnológica sem perder a dimensão humana das relações de trabalho.
Com o tema “Redesenhando o futuro do trabalho: os insights do SXSW que todo RH precisa aplicar agora”, o encontro marcou o lançamento do relatório “HR Futures Intelligence” (veja aqui), desenvolvido a partir da imersão da ABRH Brasil no South by Southwest (SXSW) 2026, em Austin (EUA). A EXAME foi parceira de mídia.
O material consolida análises sobre os impactos da inteligência artificial no ambiente corporativo, frameworks de gestão e ferramentas voltadas à adoção prática da tecnologia nas empresas.
Na abertura institucional, a presidente da ABRH Brasil, Leyla Nascimento, destacou o papel da entidade como elo entre o cenário global e a atuação local. “Estamos sendo chamados a atuar como profissionais globais, absorvendo tendências e traduzindo-as para a realidade brasileira”, afirmou.
Entre os destaques estão a “bússola dos 6 Cs” — contexto, cultura, cuidado, capacidade, coordenação e coragem —, um checklist de prontidão para adoção de IA e um guia para ajudar lideranças a definir quais atividades devem ser automatizadas, ampliadas ou preservadas sob gestão humana.
O relatório também inclui um GPT copiloto treinado a partir da curadoria das 20 principais palestras do SXSW. “O material foi concebido para uso prático. Não é para ficar parado, a ideia é levá-lo para a equipe, discutir com lideranças e gerar mudanças reais”, disse Mari Poli, gerente de conteúdo da Flash.
Um dos principais nomes do webinar foi Sandy Carter, autora do livro “AI First, Human Always”, que concentrou a discussão em um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas empresas: o gap de confiança entre executivos e trabalhadores no uso da inteligência artificial dentro das organizações.
Segundo a executiva, 61% dos líderes confiam na IA para decisões operacionais, enquanto apenas 9% dos funcionários demonstram a mesma confiança, uma diferença de sete vezes entre os dois grupos. Carter também afirmou que 77% dos executivos apontam a adoção da tecnologia como principal desafio corporativo atualmente.
Durante a apresentação, ela destacou que agentes de IA já ocupam funções formais em organogramas empresariais e que cerca de 720 milhões desses agentes estão hoje em operação globalmente.
Para a especialista, o avanço dessas ferramentas nas empresas depende menos da tecnologia em si e mais da capacidade das organizações de preparar pessoas e processos. “Pessoas, processo e plataforma, nessa ordem. 70% do sucesso da IA depende de pessoas e processo”, afirmou.
Ao defender que a discussão sobre o tema precisa ir além da esfera puramente tecnológica, Carter citou o caso da Mayo Clinic como exemplo de implementação associada à expansão da força de trabalho. Segundo ela, o hospital contratou mais de 12 mil pessoas ao mesmo tempo em que implementava tecnologia em 22 áreas diferentes da operação. O projeto levou a instituição a ser reconhecida pela revista Newsweek como o hospital inteligente número um do mundo.
Sandy Carter discutiu os desafios da adoção da inteligência artificial nas empresas e alertou para o gap de confiança entre executivos e trabalhadores no uso da tecnologia (Divulgação)
O webinar reuniu 2.039 inscritos de diferentes regiões do país e ultrapassou 1.500 visualizações únicas. A ideia foi discutir como o RH brasileiro deve responder à aceleração da inteligência artificial sem perder qualidade nas relações humanas dentro das empresas.
A discussão foi baseada nos aprendizados trazidos do SXSW 2026 por Vitor Igdal, presidente da ABRH Bahia, que estava representando a ABRH Brasil. Segundo ele, a velocidade de evolução da IA já superou a lógica tradicional da Lei de Moore e hoje avança em ciclos de aproximadamente 45 dias.
“Quanto mais a tecnologia acelera, mais estratégico se torna tudo aquilo que a organização não pode automatizar sem perder a qualidade humana, a inteligência coletiva e a capacidade de decisão”, afirmou.
Igdal apresentou as chamadas “sete pressões do futuro”, conjunto de fatores que, segundo ele, devem alterar o papel do RH nas organizações. Entre os pontos destacados estão a escassez de atenção qualificada, a valorização das people skills, a necessidade de fortalecer conexões humanas e a governança da IA.
“Hoje, 95% dos projetos de implementação de IA no mundo estão falhando, e os 5% que funcionam são liderados pelo RH”, disse.
O debate também trouxe sinais de mudança na própria estrutura de liderança das empresas. A CEO da Nossa Praia, Dilma Campos, afirmou que o RH tende a assumir um papel mais central nas decisões estratégicas das companhias.
Segundo ela, o conceito tradicional de CEO passa por transformação e caminha para um modelo de “Curator Executive Officer”, focado em curadoria de talentos e integração entre humanos e agentes de IA.
Dilma apresentou ainda uma pesquisa com 1.585 respondentes mostrando que 82% dos brasileiros já se sentiram sozinhos mesmo conectados digitalmente, enquanto 71% acreditam que o país não está preparado para educar jovens em um cenário de inteligência artificial.
A aplicação prática da IA dentro das empresas apareceu no painel mediado por Isadora Gabriel, da Flash. O Magalu revelou ter liberado acesso às ferramentas de IA do Google para seus 35 mil funcionários e consolidado mais de 200 iniciativas em produção após um ano do projeto.
“Existe uma janela de oportunidade para o RH capitanear essa liderança, mas toda janela se fecha em algum momento”, afirmou Caio Nalini, diretor de gestão de pessoas da companhia.
Na Atena Saúde, a estratégia foi priorizar cultura antes da escala tecnológica. “A transformação que está vindo não é digital, é humana”, disse Rodrigo Ladeira, CHRO da empresa.
Outro ponto recorrente ao longo do encontro foi o risco de dependência excessiva da IA. Os participantes alertaram para o avanço da chamada “atrofia cognitiva”, ligada à terceirização de decisões e pensamento crítico para sistemas automatizados. “Precisamos ser intencionais no uso da IA para não terceirizar completamente o pensar e o decidir”, afirmou Igdal.
Segundo estudos apresentados no webinar, equipes com altos níveis de confiança interna conseguem produzir até 106% mais e têm 56% menos chances de enfrentar burnout.
Ao longo do webinar, o debate convergiu para uma mesma leitura: o RH deve assumir papel mais estratégico no avanço da inteligência artificial dentro das empresas. “O RH deixa de ser apenas suporte e passa a atuar como arquiteto e engenheiro do futuro do trabalho”, concluiu Igdal.