Inteligência Artificial

Patrocinado por:

logo-totvs-preto

China, código aberto e big techs: 5 pontos do manifesto de Zuckerberg sobre superinteligência

Em texto divulgado nesta segunda-feira, 10, o presidente-executivo da Meta defende poder distribuído, propõe parceria com o governo americano e mira a China

Mark Zuckerberg: CEO da Meta publicou manifesto nesta segunda-feira, 10 (Jeff Sainlar; Social Producer and Editor, Meta/Wikimedia Commons)

Mark Zuckerberg: CEO da Meta publicou manifesto nesta segunda-feira, 10 (Jeff Sainlar; Social Producer and Editor, Meta/Wikimedia Commons)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 10 de agosto de 2026 às 08h03.

Tudo sobremark-zuckerberg
Saiba mais

Para Mark Zuckerberg, o maior risco da inteligência artificial (IA) avançada não é a tecnologia em si — mas sim quem vai controlá-la.

Em manifesto publicado nesta segunda-feira, 10, o presidente-executivo da Meta defende que a superinteligência seja distribuída amplamente entre pessoas comuns, em vez de concentrada em poucos laboratórios, governos ou empresas.

O texto, batizado de O Futuro é Para Todos, é a formulação mais completa que ele já fez sobre segurança em IA.

A publicação não veio sozinha. No mesmo dia, a Meta lançou o Muse Glimmer, modelo de IA de pesos abertos com 30 bilhões de parâmetros — pequeno o bastante para rodar num Mac ou PC comum, com uma única placa de vídeo, sem depender de servidor externo.

Soa como a aplicação prática da ideia central do manifesto. Em vez de manter a tecnologia trancada em data centers de grandes empresas, a Meta a coloca na máquina de qualquer pessoa. Zuckerberg confirma no texto que a companhia "vai retomar o lançamento de alguns modelos de código aberto em breve".

O momento também não é neutro. Nas últimas semanas, sistemas da Anthropic, OpenAI e da própria Meta escaparam de ambientes de teste e invadiram organizações reais — uma sequência de incidentes que atingiu justamente as empresas que mantêm modelos fechados, o modelo que Zuckerberg critica no manifesto.

1. 'Não existe superinteligência única benevolente'

Zuckerberg inverte o argumento mais comum sobre segurança em IA. Para ele, esperar que um poder absoluto cuide dos interesses de toda a humanidade nunca funcionou historicamente, e não seria diferente com IA.

"Humanidade não é uma monocultura", escreve. "Não existe solução tecnológica que consiga se alinhar com os interesses e valores opostos de todo mundo ao mesmo tempo. Qualquer superinteligência única teria que priorizar alguns valores em detrimento de outros — e, nesse processo, seria incapaz de ser benevolente com todos."

A saída proposta é distribuir a tecnologia amplamente, para que pessoas, empresas e governos se equilibrem uns aos outros — a mesma lógica de pesos e contrapesos que sustenta democracias.

2. O advogado que só um tem

Para explicar a tese, Zuckerberg recorre a um exemplo que já havia dado em entrevista ao Financial Times.

"Imagine que só uma pessoa tivesse um advogado superinteligente. Ela teria uma vantagem injusta no tribunal — mesmo estando errada no mérito. Isso levaria a uma sociedade pior. Mas agora imagine que todo mundo tem um advogado superinteligente. Nesse caso, a justiça seria feita de forma muito mais justa e eficiente do que hoje."

A reconstrução de Zuckerberg: como a Meta voltou a sonhar em liderar a inteligência artificial

O mesmo valeria para segurança cibernética, segundo ele. "Se só uma pessoa tivesse uma superinteligência de segurança cibernética, ela provavelmente conseguiria invadir quase qualquer sistema técnico, e o mundo seria muito menos seguro do que é hoje. Mas se todo mundo tiver acesso a essa capacidade, todos os nossos sistemas técnicos ficarão mais seguros do que estão agora."

É a base pela qual ele justifica por que a Meta insiste em modelos abertos, mesmo com o risco de uso indevido.

3. Uma proposta ao governo americano

Zuckerberg propõe que laboratórios de fronteira compartilhem com o governo dos Estados Unidos versões intermediárias de seus modelos mais avançados — antes mesmo de o treinamento terminar — e disponibilizem equipes técnicas para ajudar a proteger sistemas críticos.

"Dessa forma, o governo terá acesso antecipado aos modelos mais poderosos e um exército de engenheiros capazes para identificar e corrigir falhas de segurança", escreve. Ele propõe ainda que os laboratórios cooperem com autoridades policiais para identificar quem tenta usar seus sistemas de forma indevida.

É a peça mais operacional do texto — sai do campo da filosofia e vira sugestão de política pública dirigida à Casa Branca.

4. A mira na China

Zuckerberg dedica boa parte do manifesto à disputa geopolítica. Ele defende menos restrição regulatória para modelos de pesos abertos americanos, citando startups chinesas — Kimi K3, da Moonshot, Qwen3.8-Max, da Alibaba, e V4-Flash, da DeepSeek — como líderes atuais da categoria, à frente de OpenAI, Anthropic e Google, que mantêm seus modelos fechados.

"Laboratórios estrangeiros têm hoje várias vantagens porque os laboratórios americanos precisam cumprir muitas restrições adicionais sobre dados de treinamento", escreve. "A política americana precisa reduzir esse atrito extra se quisermos que os modelos de código aberto americanos liderem no longo prazo."

Ele defende também a prática de destilação — treinar um modelo menor a partir de um maior —, tema sensível porque é a mesma técnica que o governo americano acusa a Moonshot de ter usado, sem autorização, para treinar o Kimi K3 a partir de sistemas dos Estados Unidos.

"Todos os modelos de IA derivam de conhecimento humano", argumenta. "É importante proteger o princípio de que você pode aprender com qualquer coisa que observa. É assim que o mundo funciona, e os Estados Unidos não conseguirão liderar se restringirmos a nós mesmos nesse ponto."

Além disso, para Zuckerberg, "países como a China estão colocando mais de 1 gigawatt de capacidade nuclear em operação a cada duas semanas" — ritmo que, segundo ele, obriga os Estados Unidos a acelerar a construção de energia e data centers para não perder a corrida.

5. A Meta se autolimita — e cutuca o resto do setor

Zuckerberg anunciou que a Meta vai dar aos conselheiros independentes da empresa o poder de aprovar os critérios de segurança para o lançamento de novos modelos, em vez de deixar a decisão só com ele.

"Não acho que seja do meu interesse, da Meta, ou do interesse do mundo, que eu ou qualquer outra pessoa seja o único tomador de decisão sobre como a superinteligência é implantada", escreve.

A crítica mais afiada do texto mira concorrentes sem nomeá-los. "Um modelo líder foi alinhado para recusar ajuda na redação de uma carta a possíveis pais de uma escola porque achou que testes padronizados eram antiéticos", afirma.

Para ele, é prova de que a maioria dos laboratórios trata o alinhamento como imposição de um conjunto centralizado de valores — os da própria empresa, não os do usuário.

Sua proposta é o oposto. "Alinhamento deveria ser sobre ajudar as pessoas a perseguir os muitos objetivos e visões diversas espalhados pela sociedade, e não um método de impor um dogma centralizado."

Acompanhe tudo sobre:mark-zuckerbergInteligência artificialMetaFacebook

Mais de Inteligência Artificial

O que é o Muse Glimmer, o modelo de IA de código aberto da Meta

Zuckerberg defende 'superinteligência para todos' com modelo de IA aberto

NotebookLM além dos estudos: como empresas estão usando a ferramenta para ganhar produtividade

Tokens, temperatura e contexto: os termos que todo profissional deveria entender sobre IA