Finanças: após quitas as dívidas, o primeiro passo é criar uma reserva de emergência
Repórter de finanças
Publicado em 2 de janeiro de 2026 às 11h18.
Organizar as contas e sair do vermelho é uma meta que aparece frequentemente na agenda de ano novo. Mas a tarefa não é fácil. É preciso disciplina, cuidados especiais, controle de gastos e muitas revisões financeiras.
O primeiro passo é enfrentar a realidade. Não adianta pensar em planos mirabolantes para colocar as contas em dia sem haver sequer um controle dos ganhos e gastos.
“É ter clareza total sobre o próprio cenário financeiro. Isso começa pela definição dos objetivos para 2026: metas de investimento, metas de renda e, se houver dívidas, o mapeamento completo delas”, explica Amanda Zborowski, coordenadora de expansão da Mhydas Planejamento Financeiro.
Para entender melhor como organizar a vida financeira em 2026, especialistas consultados pela EXAME Invest dão 10 dicas sobre para onde olhar, o que renegociar, como controlar os gastos e o que fazer para começar a investir.
Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos, comenta que, para começar 2026 bem, olhe para os vazamentos invisíveis, para onde o dinheiro está indo.
“Anote todos os seus gastos e reveja se realmente precisa de todas as assinaturas de streaming ou clubes de assinaturas. Entenda o que dá para repensar, aquele valor pequeno, somado, pode virar uma viagem no fim do ano que vem.”
A renegociação também é muito importante nesse momento. Contratos antigos, internet, seguro do carro, plano de celular, tudo o que for possível, a dica é: ligue e peça desconto, veja onde você tem mais controle para agir.
“Em um mundo onde comprar é um clique, o impulso é nosso inimigo. Viu algo que quer comprar fora do essencial, espere 24 horas, na maioria das vezes, a vontade passa e você economiza”, diz Patzlaff.
De acordo com o especialista, ter o hábito de anotar os seus gastos, dá clareza para enxergar o quanto a pessoa está gastando com aplicativos de comida, por exemplo, sendo que poderia estar direcionando para realizar um desejo.
Organização é a palavra-chave. Não significa que precisa ser um aplicativo ou uma planilha super avançada. Papel e lápis já ajudam nesse momento.
O famoso “básico bem feito” é o que guia o controle financeiro, desde que permita registrar entradas e saídas, categorizar despesas e acompanhar a evolução do patrimônio, qualquer método está valendo.
“Um orçamento bem estruturado traz previsibilidade e ajuda a direcionar corretamente o dinheiro para cada objetivo do ano”, comenta Zborowski.
Patzlaff concorda. Para ele, a melhor ferramenta é aquela que a pessoa realmente usa – não adianta baixar o app mais complexo se terá preguiça de abrir. Segundo o especialista, os próprios bancos evoluíram muito este ano, com função de organizador de gastos, eles categorizam tudo automaticamente.
Ao separar por categorias, é possível, segundo Eliane Tanabe, planejadora financeira CFP pela Planejar, estimar a renda para cada área da vida, por exemplo, alimentação, transporte, moradia ou lazer.
Existe um ideal de gastos? Para Patzlaff, dividir a renda líquida e distribuir em 50% para as contas essenciais, 30% para os desejos/estilo de vida e 20% para investir, pode ser um bom caminho. “Mas não esqueça de adaptar para sua realidade”, alerta.
Ele continua: “Não adianta prometer guardar 20% se você mal consegue pagar as contas, comece com valores que caibam no seu orçamento, o hábito de guardar é mais importante que o valor no início”, diz. Segundo ele, não adianta querer “viver como um monge” só pensando no futuro e esquecer de aproveitar o presente.
Já Zborowski cita a regra do PIF: Presente, Imprevistos e Futuro. Conforme estudo realizado por especialistas de Wall Street na qual ela teve acesso, o ideal seria comprometer até 70% da renda com as despesas do presente (P), 5% da renda para imprevistos (I) e 25% em investimentos futuros (F).
Apesar de divisões diferentes, o importante é: se planeje para cuidar das contas atuais, tenha momentos de lazer, separe para imprevistos e, principalmente, invista. “Outra prática essencial é separar o dinheiro para investimentos no dia do recebimento, antes de gastar. É a lógica defendida por Robert Kiyosaki: pagar-se primeiro, mas sempre com consciência dos limites”, destaca Zborowski.
Onde investir o 13º? Veja o que fazer com o dinheiro ‘extra’A especialista da Mydhas também cita a busca de novas formas para aumentar a renda.
“Perguntar-se ‘como posso gerar mais valor no meu trabalho?’, ‘que projetos posso assumir?’, ‘como posso me desenvolver?’ abre portas para ganhos maiores. Mais renda significa mais capacidade de investir”, diz.
A próxima dica é: se atente nas dívidas. Uma estratégia que pode parecer comum é colocar o dinheiro num investimento e, com o rendimento, pagar as dívidas. Entretanto, há um problema: os juros. O rendimento de um bom investimento chega a 1% ao mês. Já os juros do cartão de crédito e cheque especial chegam facilmente a patamares superiores a 15% ao mês.
“É fundamental identificar quais dívidas possuem os juros mais altos e avaliar a possibilidade de renegociação. O ideal é seguir uma ordem de quitação dos juros maiores para os menores, essa estratégia reduz o impacto financeiro ao longo do tempo”, comenta Zborowski.
Patzlaff complementa: “Com as dívidas mais caras pagas, o segundo passo é focar na reserva de emergência e, claro, sempre troque dívidas mais caras por outras mais baratas, assim você estanca o sangramento dos juros altos.”
Todo mundo sempre ouve falar na tal da “reserva de emergência”. Como o próprio nome diz, ela é um dinheiro guardado para imprevistos, desde uma demissão até um carro quebrado. O ideal para ela é ter seis meses de renda a frente guardados. Mas, onde investir?
O dinheiro precisa ter liquidez, ou seja, precisa ser resgatado quando quiser, não pode ficar travado. A melhor opção para isso é o Tesouro Selic, aponta Zborowski. Além disso, ele é atrelado a Selic, a taxa básica de juros do Brasil, que está em patamares elevados, com os maiores juros reais do mundo.
“Além disso, 2026 é ano eleitoral, o que costuma trazer volatilidade para a renda variável. Por isso, começar pela renda fixa, especialmente pelo Tesouro Selic, oferece segurança e previsibilidade. Depois da reserva formada, o investidor pode avançar para objetivos de médio e longo prazo, diversificando gradualmente para renda variável e planejando uma estratégia sólida para aposentadoria”, diz a especialista.
Patzlaff também sugere CDBs de grandes bancos com liquidez diária, fundos de liquidez e até as caixinhas dos bancos são uma boa oportunidade, o dinheiro rende todo dia (mais que a poupança) e o investidor pode sacar a qualquer momento, além de render o mesmo ou um pouco mais que o CDI.
“Para o médio/longo prazo ativos atrelados ao IPCA são ótimos, já que te protege da inflação, garantindo que seu dinheiro vai crescer acima do aumento dos preços do supermercado, da gasolina e da luz. Também para o longo prazo, a renda variável (como ações e FIIs) historicamente tem potencial para render muito mais do que a renda fixa”, explica.
Não é preciso limitar tudo na sua vida, mas alguns pontos devem ser olhados com cuidado. Se pergunte: “será mesmo que eu preciso disso?” ou “consigo fazer algo mais barato no lugar?”.
“Tudo que for um gasto voluntário, aquele que você adotou porque quis, talvez seja hora de abrir mão de novo”, cita Tanabe.
Alguns exemplos são: a mensalidade de uma academia que não utiliza mais; um curso de idioma que também não está frequentando; comprar roupas mensalmente; pedir comida a todo momento; utilizar só aplicativos de transporte; ir para lugares muito caros.
“Repensar esses pequenos gastos com alternativas que você possa poupá-los, porque isso querendo ou não querendo vai minando o seu orçamento e quando você vai ver você gastou muito com esses itens. Cada um tem que olhar para a sua própria realidade e verificar como isso pode ser feito”, afirma Tanabe.
A disciplina, como citado, é importante. Mas mais do que ela, a persistência também é válida. “Se a disciplina falhar em um mês, não desista, simplesmente volte ao plano no dia seguinte, o importante é a consistência, não a perfeição”, pontua Patzlaff.
Tanabe também diz que, caso a pessoa tenha um gasto extraordinário, o importante é saber remanejar outras áreas ou outros itens de orçamentos onde possa reduzir para poder sofrer menos com o impacto desse gasto maior.