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Dólar abaixo dos R$ 5: o que pode ficar mais barato?

Valorização do real reduz custos de produtos importados e insumos e pode aliviar preços de alimentos, eletrônicos e combustíveis

Do pão ao celular: dólar mais baixo barateia diversos produtos (Designed by/Freepik)

Do pão ao celular: dólar mais baixo barateia diversos produtos (Designed by/Freepik)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 6 de outubro de 2026 às 05h00.

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O resultado do primeiro turno das eleições 2026 mexeu com o mercado de câmbio. Nesta segunda-feira, 5, o dólar fechou abaixo dos R$ 5, com queda de mais de 4% — na mínima do dia, alcançou a marca dos R$ 4,953. O que impulsionou a valorização do real foi a dianteira de Flávio Bolsonaro (PL). Com 100% das urnas apuradas, Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, ou 56,1 milhões de votos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) somou 45,16%, com 53,9 milhões, segundo o mapa de apuração da EXAME.

Para o JP Morgan, a liderança de Flávio e a forte expansão de partidos de direita no Congresso, renovaram as expectativas do mercado em relação à disciplina fiscal do país.

O PL tornou-se a maior bancada do Senado, com 30 das 81 cadeiras, segundo a análise do banco, e terá mais de 110 deputados na Câmara. Na avaliação da instituição, uma menor fragmentação e uma maior presença de partidos de direita podem facilitar a formação de coalizões e aumentar a possibilidade de aprovação de medidas de consolidação fiscal.

Para o banco, o dólar pode testar R$ 5 e chegar a R$ 4,80 nas próximas semanas. Já o Goldman Sachs trabalha com uma faixa ainda mais ampla, entre R$ 4,50 e R$ 4,80 em um cenário considerado favorável aos mercados e marcado por maior disciplina fiscal.

Neste cenário, a queda do dólar chega aos preços pelo chamado repasse cambial, o mecanismo que transmite a variação da moeda ao custo de produção e, depois, ao preço final. No Brasil, esse canal é especialmente relevante por três razões.

“A primeira é que uma parcela grande da cesta de consumo é formada por bens comercializáveis internacionalmente, cujo preço é definido em dólar. Isso inclui alimentos, combustíveis, insumos industriais e bens duráveis”, explica Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital.

A segunda, na visão do especialista, é que a economia brasileira depende de insumos importados em cadeias críticas, como fertilizantes, princípios ativos farmacêuticos, componentes eletrônicos e derivados de petróleo. “A terceira é que o câmbio atua sobre as expectativas de inflação, que são a principal variável observada pelo Banco Central na condução dos juros”, diz.

O que pode ficar mais barato com a queda do dólar?

Carlos Eduardo Oliveira Jr., conselheiro do Corecon/SP, explica que a queda do dólar tende a reduzir os custos de produtos importados e de bens produzidos no Brasil que utilizam matérias-primas ou componentes estrangeiros. Neste cenário, alimentos, fertilizantes, medicamentos, eletrônicos, roupas, combustíveis, cosméticos, passagens aéreas, entre outros, podem ficar mais baratos.

Alimentos podem sentir alívio no custo de insumos e commodities

A queda do dólar pode aliviar os custos de alimentos por diferentes canais. Um deles é pela redução dos custos de máquinas. Porém, o que mais pesa é a própria cotação internacional de alguns alimentos e os fertilizantes, que são em boa parte importados.

“O efeito é mais forte do que parece, porque boa parte da cesta alimentar brasileira tem preço formado em dólar. Com o real mais forte, o preço convertido em reais cai e o incentivo a exportar diminui, o que amplia a oferta no mercado interno”, afirma Trevisan.

Produtos como trigo, soja, milho, café, açúcar e carnes têm preços formados no mercado internacional, enquanto a produção agrícola depende de insumos importados, como fertilizantes e defensivos. No caso do trigo, o efeito pode ser mais direto, já que o Brasil importa cerca de metade do que consome, com impacto sobre pão, massas e biscoitos.

O milho e o farelo de soja, por exemplo, entram na ração animal, então o alívio se propaga para frango, ovos, suínos e leite, mas com defasagem de algumas semanas. “Já alimentos in natura, como hortaliças e frutas, dependem mais de clima e safra do que de câmbio e devem reagir menos”, diz Trevisan.

Os fertilizantes também colaboram para o barateamento dos alimentos. O setor está entre os mais diretamente beneficiados pela valorização do real porque o Brasil importa grande parte dos fertilizantes utilizados no campo. Com o dólar mais baixo, o custo desses produtos em reais diminui, o que pode reduzir as despesas do produtor e, posteriormente, aliviar os preços dos alimentos.

“O momento é relevante porque o plantio da safra de verão está em andamento, e parte das compras ainda pode ser fechada a um câmbio melhor. Isso reduz o custo de produção da próxima safra, melhora a rentabilidade do produtor e, com defasagem, chega ao preço dos alimentos ao longo de 2027. É o canal mais lento, mas também o mais duradouro, porque atua na base da cadeia”, destaca Trevisan.

Medicamentos têm alívio de custos, mas repasse é mais lento

Segundo Luís Dornela, CEO da Ludo Group, a indústria farmacêutica utiliza princípios ativos, reagentes, equipamentos e outros insumos importados, o que torna o setor sensível ao câmbio. A valorização do real, portanto, pode reduzir parte dos custos de produção. O efeito, porém, não chega imediatamente às farmácias porque os preços dos medicamentos são regulados.

“O dólar menor reduz parte desses custos, mas o efeito na farmácia costuma ser mais lento porque os preços de medicamentos são regulados e não acompanham o câmbio de forma imediata”, diz. Entretanto, um câmbio mais apreciado pode aliviar as margens dos laboratórios e abrir espaço para descontos abaixo do preço máximo permitido.

Eletrônicos estão entre os que podem sentir o câmbio mais rápido

Celulares, computadores, televisores e outros eletrônicos têm forte exposição ao dólar, seja pela importação dos produtos acabados, seja pelo uso de componentes como chips, telas e baterias. “Esse benefício, no entanto, tende a aparecer principalmente quando os estoques forem renovados”, ressalta Dornela.

“É um dos setores com repasse mais rápido e mais intenso. Celulares, computadores, televisores e eletrodomésticos usam chips, telas e baterias importados e precificados em dólar, que representam a maior parte do custo do produto”, afirma Trevisan.

Roupas e calçados podem ficar mais baratos com importados e insumos

A queda do dólar pode reduzir o custo de roupas e calçados importados e também de matérias-primas utilizadas pela indústria brasileira, como fibras sintéticas, tecidos, corantes e produtos químicos. A maior concorrência dos produtos estrangeiros também pode limitar reajustes dos fabricantes nacionais.

“O câmbio mais baixo reduz o custo das coleções de fim de ano e de verão. Também aumenta a concorrência dos importados, o que limita reajustes da indústria nacional e favorece promoções”, afirma Trevisan. O impacto, porém, tende a ser moderado porque uma parcela relevante do preço final do vestuário corresponde a custos que não são dolarizados, como mão de obra, aluguel e margem do varejo.

Combustíveis dependem do dólar e do preço do petróleo

A valorização do real reduz, em reais, o custo do petróleo e dos derivados negociados no mercado internacional. Isso pode abrir espaço para preços menores nas refinarias e reduzir custos para importadores. O efeito também se espalha pela economia, já que o diesel influencia o transporte de cargas.

“Mas há um contrapeso importante. Se o barril seguir subindo no exterior, parte do ganho do câmbio é absorvida pelo petróleo mais caro”, diz Trevisan. Ainda assim, segundo ele, o diesel tem efeito em cadeia sobre frete e logística e chega ao preço de praticamente tudo o que é transportado por caminhão. Oliveira Jr. também ressalta que o preço final dos combustíveis depende ainda de impostos, margens e custos de distribuição.

Automóveis e autopeças podem ter custos menores

A indústria automobilística utiliza componentes eletrônicos, aço, peças e outros insumos importados ou com preços vinculados ao mercado internacional. Um dólar mais baixo pode reduzir esses custos e também baratear veículos e peças importados. “A queda do dólar pode reduzir custos da indústria e dos veículos importados, além de facilitar promoções e descontos”, afirma Dornela.

Viagens internacionais são beneficiadas quase imediatamente

Diferentemente dos produtos que dependem de estoques e cadeias de produção, as viagens internacionais têm um efeito mais direto sobre o consumidor. Com o real valorizado, hospedagem, alimentação, aluguel de carros, compras e outros gastos no exterior passam a exigir menos reais.

“Viagens internacionais ficam mais baratas de imediato, com hospedagem, compras no exterior e gastos no cartão de crédito em moeda estrangeira”, afirma Trevisan.

Passagens aéreas também podem sentir o efeito

As companhias aéreas têm custos ligados ao dólar, como combustível de aviação, leasing de aeronaves, peças e manutenção. A valorização do real pode aliviar essas despesas e, em determinadas condições, abrir espaço para tarifas menores.

O efeito sobre a passagem, porém, não é automático. “Um dólar menor ajuda a reduzir esses custos, embora a tarifa final também dependa muito da demanda e da oferta de voos”, afirma Dornela.

Máquinas e equipamentos importados podem baratear investimentos

Empresas que precisam importar máquinas, equipamentos industriais, agrícolas, médicos e tecnológicos podem gastar menos em reais com essas compras. O efeito não aparece diretamente no bolso do consumidor, mas pode reduzir o custo de expansão e modernização das empresas.

Segundo Dornela, “empresas que compram máquinas industriais, equipamentos médicos, agrícolas e tecnológicos importados podem investir pagando menos em reais”. A redução dos custos de investimento pode, no médio prazo, melhorar a produtividade.

Cosméticos, perfumes e outros importados têm repasse mais direto

Produtos acabados importados, como vinhos, azeites, cosméticos, perfumes e brinquedos, tendem a sentir mais diretamente a valorização do real. O mesmo vale para produtos nacionais que dependem de fragrâncias, ativos, embalagens e outros componentes importados, explica Dornela.

Repasses são parciais

O efeito da queda do dólar sobre os preços, porém, não é imediato nem proporcional à variação da moeda. Isso ocorre porque existe uma defasagem entre o momento em que o câmbio muda e aquele em que a redução de custos chega ao consumidor. Uma empresa que importou produtos ou insumos quando o dólar estava mais alto, por exemplo, ainda precisa vender esse estoque antes de comprar novos itens a um câmbio mais favorável.

Além disso, mesmo quando o custo de importação diminui, a empresa não necessariamente repassa toda a economia ao consumidor. Parte dessa redução pode ser usada para recompor margens de lucro que haviam sido comprimidas anteriormente. O impacto final também depende de quanto do custo daquele produto está ligado ao dólar e do grau de concorrência do mercado.

Por isso, uma queda de cerca de 4% do dólar em um único pregão não significa que os preços dos produtos importados ou a inflação cairão na mesma proporção imediatamente. Primeiro, o novo câmbio precisa se mostrar persistente; depois, a redução de custos é incorporada às novas compras, à produção e, eventualmente, aos preços finais. É esse intervalo entre a mudança do câmbio e seu efeito sobre os preços que caracteriza o chamado repasse cambial defasado.

“A ordem típica de transmissão começa pelos preços no atacado e pelas commodities, que reagem em dias. Em seguida vêm os bens duráveis e os combustíveis, em semanas. Por último chegam os alimentos processados e os serviços com componente dolarizado, em meses. Por isso os índices gerais de preços, como o IGP-M, reagem antes e com mais intensidade do que o IPCA”, explica Trevisan.

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