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Coreanos criam site de compras que nunca chegam para simular satisfação do consumo

Especialistas veem no fenômeno tanto um possível alívio para compradores compulsivos quanto um sintoma da pressão financeira sobre a Geração Z

Carrinho vazio: a "plataforma de dopamina", onde o pedido nunca chega (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Carrinho vazio: a "plataforma de dopamina", onde o pedido nunca chega (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 20 de junho de 2026 às 12h00.

A tela do celular brilha na madrugada. Quase na hora de dormir, aparece no feed aquele tênis que você tanto queria, com 30% de desconto. Por mais impulsiva que seja a compra, a vontade é imensa. Para lidar com esse tipo de desejo, que costuma vir seguido de culpa, surgiu na Coreia do Sul um antídoto inusitado: o FoodNeverComes, site que recria todo o ritual de uma compra, escolher produtos, ler avaliações, adicionar ao carrinho e acompanhar o entregador, sem que nenhuma transação ou entrega de fato aconteça.

O site simula apps de delivery sul-coreanos. O usuário navega por restaurantes, escolhe pratos, personaliza o pedido, informa endereço e forma de pagamento e acompanha, em um mapa, o ícone de um entregador fictício se movendo em tempo real até o destino. Como o próprio nome do site já avisa, a comida nunca chega. A ferramenta é um dos exemplos mais conhecidos do que vem sendo chamado de "dopamine sites" (sites de dopamina), categoria que reúne diferentes plataformas com a mesma lógica: reproduzir a sensação de uma experiência de consumo sem o consumo em si.

Da brincadeira à terapia de compras

A ideia nasceu como piada do desenvolvedor sul-coreano conhecido como Malhee. Em publicações nas redes sociais, ele contou que o site surgiu "numa daquelas noites" em que vivia abrindo e fechando aplicativos de entrega. "Comecei como uma brincadeira, mas, surpreendentemente, só satisfazer o impulso de 'pedir alguma coisa' já era estranhamente recompensador, mesmo sem nunca de fato pedir nada", disse Malhee à revista Fast Company.

Em outra publicação, ele explicou o público que imaginou para a ferramenta: "Qualquer pessoa que queira deixar de usar aplicativos de entrega, mas não consiga, que esteja de dieta, mas continue usando o app, ou que simplesmente queira experimentar algo diferente, todos são bem-vindos."

A lógica por trás do fenômeno tem respaldo na neurociência. A dopamina costuma ser liberada pelo cérebro na expectativa de uma recompensa, não necessariamente no momento em que ela é recebida. Na teoria, isso significa que o simples ato de clicar em "comprar" pode gerar uma sensação de satisfação mesmo sem produto algum do outro lado.

Reflexo de uma cultura digital sob pressão financeira

O fenômeno reflete tanto a cultura digital avançada da Coreia do Sul quanto a pressão financeira crescente sobre os jovens do país, que lidam com alta no custo de vida e salários estagnados. Kim Heon-sik, professor da Jungwon University, traçou um paralelo com o mukbang, formato em que espectadores assistem a outras pessoas comendo e sentem uma satisfação indireta. "Recentemente, tem surgido mais conteúdo que permite às pessoas vivenciar indiretamente coisas como álcool, cigarro e comida", disse ao jornal sul-coreano Korea Times. "Esses sites também refletem o desejo de experimentar uma satisfação ou atmosfera semelhante, sem participar de fato da experiência real."

Quando vídeos sobre o FoodNeverComes viralizaram, segundo a Fast Company, a recepção fora da Coreia do Sul foi mais hostil. No X, usuários classificaram a tendência como um retrato deprimente do capitalismo em estágio avançado, ou uma espécie de "faz de conta" para adultos.

Limites e críticas ao conceito

Nem todo especialista vê o fenômeno como solução. Há quem aponte que substituir uma compra real por uma compra simulada não resolve o problema de fundo, apenas troca uma forma de impulsividade por outra, sem incentivar uma reeducação financeira de fato.

O FoodNeverComes não é o único exemplo da tendência. Há registros de outras "dopamine sites" que reproduzem rituais diferentes, como pausas virtuais para fumar acompanhado de desconhecidos. O traço comum entre essas plataformas é sempre o mesmo: simular a experiência de consumir, sem consumir nada de verdade.

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