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Doom spending: por que a geração Z está gastando mesmo sem dinheiro

Estresse econômico, hiperconectividade e crédito fácil impulsionam comportamento de consumo impulsivo entre jovens dessa geração, em meio a desemprego elevado, informalidade e dificuldade de acesso à moradia

'Gastos catastróficos': compras feitas sob estresse financeiro (Jeff Greenberg/Universal Images Group/Getty Images)

'Gastos catastróficos': compras feitas sob estresse financeiro (Jeff Greenberg/Universal Images Group/Getty Images)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 17 de maio de 2026 às 11h00.

Comprar roupas de marca, viajar ou adquirir itens supérfluos mesmo com o orçamento apertado tem nome: doom spending — ou "gastos catastróficos", em tradução livre. O comportamento, marcado por compras impulsivas feitas como resposta ao estresse financeiro e à percepção negativa sobre o futuro, tem ganhado força entre jovens da Geração Z.

Segundo a Psychology Today, citada pela CNBC, o termo descreve compras feitas como mecanismo de alívio emocional diante de ansiedade econômica. Em entrevista ao veículo, Ylva Baeckström, professora de finanças da King's Business School, afirmou que a hiperconectividade intensifica esse comportamento: jovens expostos continuamente a notícias negativas tendem a transformar ansiedade em consumo. "Isso os faz sentir como se estivessem vivendo o Armagedom", disse.

Levantamento da CNDL e SPC Brasil, divulgado na última semana, mostrou que 56% dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos cedem aos impulsos de compra, 47% perdem a noção do quanto podem gastar com lazer e 37% já tiveram o nome negativado.

Pressão econômica sobre os jovens

Esse pessimismo encontra respaldo na realidade: a Geração Z enfrenta dificuldades maiores para acessar emprego formal, renda e moradia. No Brasil, a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos está em torno de 14,9%, mais que o dobro da média nacional, segundo dados do governo federal citados pela CNDL. Cerca de 38% dos jovens ocupados trabalham na informalidade.

O acesso à moradia também se tornou mais difícil. Dados da PNAD Contínua 2024/2025, do IBGE, e da Brain Inteligência mostram crescimento de 137% no número de adultos entre 25 e 34 anos vivendo com os pais na última década — grupo conhecido como "Geração Canguru". Embora 61% dos jovens brasileiros tenham o desejo de comprar um imóvel, morar com a família virou uma estratégia de sobrevivência diante do alto custo de vida.

Nos Estados Unidos, apenas 32% dos jovens de 27 anos eram proprietários de imóveis em 2024, percentual inferior ao de gerações anteriores, de acordo com reportagem da Fast Company.

É nesse contexto que a professora Baeckström situa o fenômeno: "A geração que está crescendo agora é a primeira que será mais pobre do que seus pais por muito tempo. Existe aquela sensação de que talvez você nunca consiga alcançar o que eles alcançaram", disse à CNBC

O diagnóstico tem efeito global: 42,8% dos adultos no mundo acreditam estar em situação financeira pior do que a de seus pais, segundo pesquisa da CNBC com 4.342 pessoas em diversos países.

Citado pelo veículo, o levantamento da Intuit Credit Karma, realizado em novembro de 2023 com mais de 1.000 norte-americanos, mostrou que 96% estão preocupados com a economia atual e mais de um quarto (27%) já pratica doom spending para lidar com o estresse.

Entre a Geração Z, esse percentual sobe para 37%, de acordo com atualização da mesma pesquisa em 2024. Além disso, 70% dos jovens dessa geração se declaram cronicamente online, e 53% afirmam que receber más notícias nas redes sociais os leva a gastar por estresse.

BNPL impulsiona consumo parcelado

O avanço do modelo Buy Now, Pay Later (BNPL), que permite comprar agora e pagar depois em parcelas, frequentemente sem juros aparentes, também contribui para o aumento do consumo entre jovens. O mecanismo elimina o principal freio psicológico: ver o valor total da compra. Cada parcela parece pequena — o conjunto, não.

Dados da Empower, citados pela revista The Currency, mostram que o gasto mensal via BNPL subiu 21% entre junho de 2024 e junho de 2025, passando de US$ 201 para US$ 243 por usuário. Em 2024, 44% da Geração Z norte-americana utilizou serviços do tipo, o equivalente a cerca de 30 milhões de pessoas.

Já segundo o relatório Buy Now, Pay Later Trends Report 2025, da Motley Fool Money, 39% dos usuários da Gen. Z já atrasaram pagamentos, sendo também o grupo menos propenso a planejar essas parcelas no orçamento com antecedência.

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