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Rali nas bolsas continua — por quanto tempo?

Valorização prolongada e tensões geopolíticas elevam alerta entre analistas sobre possível ajuste nas bolsas

Mercados: ações disparam, mas analistas já veem sinal de alerta (Mininyx Doodle/Getty Images)

Mercados: ações disparam, mas analistas já veem sinal de alerta (Mininyx Doodle/Getty Images)

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 06h07.

Última atualização em 26 de janeiro de 2026 às 06h37.

O forte desempenho das ações globais em 2025 manteve o impulso no início de 2026, mas especialistas alertam que o ciclo de alta pode estar próximo de um ajuste. O MSCI All Country World Index, que acompanha mais de 2.500 ações de países desenvolvidos e emergentes, acumula alta superior a 2% no ano e renovou sua máxima em 15 de janeiro, após valorização de 20,6% no ano anterior, segundo dados da LSEG.

O intervalo de mais de nove meses sem correções relevantes preocupa estrategistas. Timothy Moe, do Goldman Sachs, afirma que historicamente os mercados passam por quedas de 10% ou mais a cada oito a nove meses — um ciclo que não se repete desde o início do rali atual.

“Se surgir um catalisador, como um choque geopolítico, o risco de ajuste aumenta”, disse Moe à CNBC.

Valuation elevado e sinais de fim de ciclo

O alerta sobre uma possível correção tem relação direta com o nível atual dos valuations e com o comportamento recente dos investidores. Segundo Kevin Gordon, do Schwab Center for Financial Research, em entrevista à CNBC, a combinação de sentimento otimista e preços esticados pode amplificar os efeitos de qualquer evento negativo.

Entre os fatores monitorados estão mudanças inesperadas nas taxas de juros, resultados corporativos abaixo do esperado e tensões geopolíticas que afetem diretamente os lucros ou o custo de capital das empresas. A ameaça de novas tarifas comerciais, por exemplo, segue no radar após declarações recentes do presidente dos EUA, Donald Trump.

Miroslav Aradski, da BCA Research, chama atenção para o chamado efeito TACO (“Trump Always Chickens Out”) — a ideia de que o mercado ignora ameaças políticas por acreditar que serão revertidas. Para ele, essa dinâmica pode ampliar o impacto de uma eventual crise real, caso os investidores estejam excessivamente complacentes.

Tarifas, juros e inteligência artificial

Nos Estados Unidos, o S&P 500 iniciou 2026 perto de sua máxima histórica, impulsionado pela recuperação desde abril de 2025, quando evitou por pouco um mercado de baixa. A partir dali, o foco voltou para fundamentos empresariais e dados econômicos mais consistentes.

As tarifas continuam como um fator importante. A taxa média sobre importações subiu de 2% para 12%, podendo atingir 14,4% com mudanças no consumo, segundo o Yale Budget Lab. A pressão inflacionária permanece moderada, mas os efeitos sobre margens de lucro e repasses de preços seguem em observação.

Ao mesmo tempo, empresas ligadas à inteligência artificial sustentaram parte relevante do rali recente. O setor liderou a retomada em 2025, mas analistas alertam que os valuations elevados tornam essas ações mais vulneráveis a correções rápidas, caso as expectativas de crescimento não se confirmem.

E o Ibovespa?

O Ibovespa iniciou 2026 com força renovada e acumula uma sequência de altas históricas, refletindo o apetite de investidores por ativos brasileiros. Após um começo cauteloso, o índice engatou uma trajetória de valorização consistente na segunda quinzena de janeiro, superando pela primeira vez os 170 mil pontos e encerrando o dia 23 aos 178.859 pontos.

Com ganho de 11,16% no mês e 7% no ano, o rali é impulsionado por uma combinação de fatores que inclui alívio nas tensões externas, valorização das commodities e sinais de moderação da política monetária no Brasil.

A reversão de tom do presidente Donald Trump sobre tarifas comerciais relacionadas à Groenlândia reduziu pressões externas e contribuiu para o retorno do fluxo estrangeiro ao mercado local. Paralelamente, a alta no minério de ferro e no petróleo fortaleceu as ações de Vale e Petrobras, com forte peso no índice.

No cenário interno, mesmo com a expectativa de alta da Selic para 13,25%, o comunicado do Copom foi lido como mais brando, elevando a perspectiva de que o ciclo de aperto esteja perto do fim — fator que favorece ações ligadas à economia doméstica.

A leitura técnica reforça o movimento e o índice opera acima das médias móveis de longo prazo e mira novos patamares, com projeções que incluem os níveis de 179.000, 193.365 e até 200.000 pontos em cenários mais otimistas.

Risco político e dependência de megacaps

No plano doméstico, o risco de um shutdown parcial no governo dos EUA a partir de 31 de janeiro reforça o ambiente de incerteza. O mercado também acompanha o futuro da liderança do Federal Reserve (Fed): o mandato de Jerome Powell termina em maio, e o presidente Trump já sinalizou que pretende nomear um substituto mais favorável a cortes de juros.

Essa pressão política coincide com expectativas de mais dois ou três cortes de juros ainda em 2026, após reduções que levaram a taxa básica para o intervalo de 3,50% a 3,75%. Um descompasso entre discurso político e decisões técnicas pode provocar volatilidade adicional.

O consenso entre estrategistas é que, mesmo com fundamentos sólidos, o momento exige atenção redobrada à gestão de risco. A orientação é revisar o portfólio com base no horizonte de investimento e na tolerância ao risco, considerando que correções fazem parte do ciclo de alta.

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