C&A: varejista liderou perdas do Ibovespa nesta segunda-feira (5) (Divulgação)
Repórter
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 18h07.
As ações da C&A (CEAB3) despencaram ao longo da tarde do pregão desta segunda-feira, 5, e encerraram o dia como a maior queda do Ibovespa. Perto do fechamento, os papéis da varejista recuavam quase 16%, destoando do principal índice da Bolsa brasileira, que avançava 0,88%, aos 161.957 pontos.
O movimento chama a atenção sobretudo por contrastar com o desempenho recente da companhia. Em 2025, a C&A acumulou uma valorização de 53,58%, figurando entre os destaques positivos do varejo no ano passado.
Já neste início de 2026, o cenário virou. Até o segundo pregão do ano, as ações da empresa já acumulavam queda de quase 18%.
Segundo analistas, a forte desvalorização desta segunda-feira não está ligada a nenhum fato relevante ou mudança operacional divulgada pela companhia, mas reflete uma combinação de fatores macroeconômicos, técnicos e de ajuste de posições comuns no início do ano.
Para Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, o desempenho da C&A precisa ser analisado dentro do contexto mais amplo do setor.
"A queda do varejo é mais fácil de entender porque temos um cenário de juros que devem continuar altos por mais tempo. Isso acaba atrapalhando o setor como um todo", afirma. Ele ressalta que a curva de juros futuros já não indica com clareza um corte da Selic neste início de ano, o que reduz o apetite por ações mais sensíveis ao consumo e ao crédito.
No caso específico da C&A, Teles diz não enxergar um gatilho claro que justifique uma queda tão intensa em um único pregão. "Não houve fato relevante nem mudança operacional drástica. O que parece é uma realização muito forte de lucro, com algum investidor desmontando posição, algo que foge a qualquer evento divulgado pela companhia", afirmou.
A leitura é compartilhada por Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos. Para ele, o timing do movimento reforça a tese de ajustes de carteira na virada do ano.
"Pela data e pelo histórico do papel, parece que fundos que tiveram um resultado muito bom em 2025 estão se desfazendo da posição agora. Entendem que o papel já entregou o lucro esperado e migram para outros ativos ou simplesmente colocam parte do ganho no bolso", disse Cruz.
Na avaliação do BB Investimentos, o desempenho negativo das ações do varejo vem se desenhando desde dezembro. Segundo a casa, em relatório divulgado nesta segunda, as empresas cíclicas, como as varejistas, foram impactadas tanto pela abertura da curva de juros quanto por uma desaceleração da atividade econômica mais intensa do que a esperada pelo mercado.
Para os próximos meses, o BB Investimentos projeta um cenário de sinais mistos para o setor. De um lado, pesam a desaceleração da atividade econômica, consequência da manutenção dos juros em patamares elevados, com a Selic a 15% ao ano, além dos altos níveis de endividamento e inadimplência das famílias.
De outro, os dados de emprego e renda seguem mostrando uma resiliência acima das expectativas, o que ajuda a evitar um cenário mais negativo para o consumo.
A instituição ressalta que o mercado segue à espera do início do ciclo de corte de juros e que somente após esse movimento um otimismo mais consistente com ações de companhias cíclicas deve se consolidar.
Outras ações do varejo também operaram em queda no pregão. A Vivara (VIVA3), que esteve entre os dez papéis que mais se valorizaram em 2025, figurou entre as baixas do dia. Lojas Renner (LREN3) recuava mais de 3%, enquanto a Azzas (AZZA3) caía 1,69%, refletindo o mesmo ambiente de cautela com o setor.
No mercado de juros, os contratos futuros tiveram oscilações leves, mas permaneceram em níveis elevados. A taxa do DI com vencimento em janeiro de 2027 passou de 13,71% no ajuste anterior para 13,705%. O DI de janeiro de 2028 recuava para 13,005%, enquanto o de janeiro de 2029 caía de 13,055% para 13,025%. Já o contrato de janeiro de 2031 permanecia praticamente estável, em 13,335%.