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PicPay e Rappi unem forças e esquentam disputa no delivery brasileiro

Acordo leva o delivery para dentro do aplicativo financeiro; para especialistas, o chamado PicPay Delivery reforça a estratégia de ecossistemas

Rappi dentro do PicPay: exemplo de integração cada vez mais frequente (Divulgação)

Rappi dentro do PicPay: exemplo de integração cada vez mais frequente (Divulgação)

Publicado em 17 de dezembro de 2025 às 13h30.

Última atualização em 17 de dezembro de 2025 às 16h27.

Pedir comida, fazer compras de mercado e pagar a conta sem sair do aplicativo do banco passa a ser, oficialmente, parte da disputa pelo consumidor de delivery no Brasil.

O PicPay e o Rappi anunciaram nesta quarta-feira, 17, uma parceria que leva o serviço de entregas da plataforma colombiana para dentro do aplicativo do banco digital.

Um movimento que escancara como a fronteira entre finanças, consumo e logística vem se dissolvendo no centro da chamada guerra do delivery.

A iniciativa dá origem ao PicPay Delivery, funcionalidade criada a partir de uma integração direta com a operação do Rappi.

Segundo as companhias, essa é a primeira vez no mercado brasileiro — e também na América Latina — que um banco passa a oferecer uma experiência completa de pedidos de refeições e itens de mercado dentro da própria plataforma financeira, sem redirecionamentos para aplicativos externos.

Com a integração, os clientes da fintech vão poder acessar restaurantes, produtos de mercado e todo o catálogo do Rappi Turbo, serviço de entregas ultrarrápidas com prazo de até 10 minutos. Enquanto que o processo do pagamento até o acompanhamento do pedido ocorrerá dentro do aplicativo do banco, com ofertas e descontos exclusivos para os usuários.

Ao todo, estarão disponíveis mais de 6 mil itens nas cidades atendidas, que começa uma seleção inicial de restaurantes em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.

Diferentes experiências em um mesmo aplicativo

Alexandre Moshe, vice-presidente executivo de Audiências e Ecossistema do PicPay, destaca que a parceria além de inaugurar um novo modelo de mercado, ao levar o delivery para dentro de uma plataforma financeira, reforça também a estratégia do banco de concentrar diferentes experiências de consumo em um único aplicativo.

"Esse passo reforça que o cliente pode comprar tudo que precisa sem sair do PicPay", afirma Moshe.

Para o Rappi, a integração com o PicPay amplia o alcance da plataforma no Brasil ao conectá-la a uma base de mais de 64 milhões de usuários do banco digital. Segundo a consultoria Euromonitor Internacional, a companhia detém 7% do mercado de entrega de refeições via plataforma.

"É uma iniciativa que reforça nosso compromisso com inovação, conveniência e acesso a serviços essenciais, assim como contribui para a expansão geográfica da plataforma junto ao PicPay", diz Felipe Criniti, CEO do Rappi no Brasil.

A disponibilização do PicPay delivery, porém, será gradual. O banco digital explica que o procedimento é padrão em lançamentos de novos produtos e funcionalidades. "Isso permite acompanhar a performance e garantir que tudo funcione conforme o esperado antes da liberação para a base completa", defende a empresa.

A expectativa é que, até o fim de dezembro, o serviço esteja disponível para toda a base de clientes.

Integração entre bancos e plataformas tem crescido

O anúncio ocorre em um momento de transformação do mercado brasileiro de food service e delivery. De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o setor movimentou R$ 455 bilhões em 2024, crescimento de 9,4% em relação ao ano anterior, com expectativa de avanço em 2025 puxado pelo delivery.

Dados do Instituto Foodservice Brasil (IFB) também indicam que o segmento de delivery atravessa um ponto de virada. Após a retração pós-pandemia, o tráfego caiu 3% em 2024, enquanto o crescimento do mercado foi sustentado quase exclusivamente pelo aumento do ticket médio, que avançou 4% e levou o gasto total ao recorde de R$ 221 bilhões.

Parceria cada vez mais frequente

Em um contexto de margens pressionadas, inflação de alimentos e competição crescente, parcerias entre bancos e plataformas de entrega têm se tornado cada vez mais frequentes. Em novembro, por exemplo, iFood e Nubank anunciaram uma iniciativa conjunta para oferecer descontos exclusivos a clientes que pagam pedidos com cartão Nubank ou NuPay dentro do app do iFood.

A ação, baseada em cupons e campanhas promocionais, estimava crescimento de 35% no tráfego do aplicativo e aumento de 25% na base de usuários do Ifood.

A diferença com o anúncio do Rappi e PicPay agora, segundo especialistas, está no grau de integração.

Segundo Ingrid Devisate, vice-presidente executiva do IFB (Instituto Foodservice Brasil), a parceria entre PicPay e Rappi reflete um movimento estrutural das grandes plataformas digitais, que buscam deixar de ser apenas intermediárias de pedidos para se tornarem ecossistemas completos de consumo e transação financeira.

"O delivery, isoladamente, é um negócio de margens apertadas, alta competição e elevado custo de aquisição de clientes. Diante desse cenário, as plataformas passaram a buscar novas formas de capturar valor ao longo da jornada do usuário. É aí que entram os serviços financeiros", afirma Devisate.

"Pagamentos, carteiras digitais, crédito, cashback e soluções financeiras integradas aumentam o tempo de uso do aplicativo, elevam a frequência de transações e ampliam o chamado lifetime value do cliente", acrescenta a especialista, chamando atenção para o valor financeiro total que um cliente leva para uma empresa durante o seu relacionamento com a marca.

A integração, ainda segundo Devisate, propicia dados mais completos sobre comportamento de consumo, o que abre espaço para ofertas mais inteligentes e decisões estratégicas baseadas em transações reais.

"Em vez de desenvolver toda a infraestrutura financeira internamente, o Rappi opta por se conectar a um ecossistema financeiro já consolidado. Não se trata apenas de ‘virar banco’, mas de controlar melhor a jornada financeira do consumo e fortalecer a relação com usuários e parceiros", diz Devisate.

Busca por principalidade

Na avaliação de Edson Santos, especialista em meios de pagamento e ex-presidente da Global Payments no Brasil e ex-CFO da Redecard (atual Rede), a integração entre instituições financeiras com as plataformas de delivery desloca a disputa para antes do checkout e aumenta as chances de o banco se tornar o meio de pagamento padrão do consumidor.

"Em vez de competir apenas pela aceitação técnica do meio de pagamento, o banco passa a disputar principalidade, ou seja, ser o método naturalmente escolhido naquele contexto recorrente de gasto. Estar presente nesse momento reduz custo de aquisição, acelera formação de hábito e aumenta a chance de se tornar o pagamento padrão daquele consumidor", afirma Santos.

Com isso, o principal ganho do ponto de vista do banco não é a transação isolada, mas a consolidação de hábito e de share of wallet, quando um banco passa a concentrar despesas recorrentes, aquelas que o cliente faz toda semana ou todo mês.

"Ele cria previsibilidade, profundidade de relacionamento e relevância diária. Isso melhora engajamento, reduz churn e aumenta a eficácia de qualquer oferta adicional. Além disso, gastos recorrentes ajudam o banco a entender melhor o perfil financeiro do cliente, distinguindo consumo essencial de consumo eventual, o que fortalece tanto a gestão de risco quanto a personalização da experiência", completa.

O especialista observa, contudo, que há uma diferença relevante entre modelos baseados apenas em cupons e descontos e aqueles que levam o delivery para dentro do aplicativo financeiro.

Enquanto o primeiro funciona como uma tática de curto prazo para estimular uso, o segundo revela uma ambição maior de disputar a origem da decisão de compra, aumentar tempo de tela e criar hábitos.

O impacto real, porém, dependerá do grau de integração e da capacidade de transformar a iniciativa em uma experiência recorrente, e não apenas promocional. "Se a iniciativa se limitar a campanhas promocionais, aceitação de pagamento ou cashback, ela é relevante como tática de curto prazo, mas não muda estruturalmente a relação com o cliente", diz Santos.

"Se, por outro lado, houver uma integração contínua que leve parte da jornada de compra para dentro do app financeiro — com experiência fluida, benefícios claros e recorrência — isso sinaliza uma tentativa mais ambiciosa de aumentar retenção e principalidade".

Mais um capítulo da guerra do delivery

Esses movimentos ganham ainda mais relevância em meio à guerra do delivery, que se intensificou neste ano com a chegada, agora no início de dezembro, da Keeta, marca internacional da chinesa Meituan, ao mercado brasileiro.

A empresa promete investir R$ 5,6 bilhões em cinco anos no país e passa a disputar espaço com iFood, Rappi e 99Food, da chinesa Didi, em um setor que deve movimentar US$ 21 bilhões em 2025, segundo a Statista.

Em resposta, os principais players anunciaram aportes bilionários e vêm ampliando estratégias de diferenciação, seja por preço, logística, tecnologia ou parcerias estratégicas.

O líder no segmento, o iFood, investirá R$ 17 bilhões até março de 2026, enquanto a Rappi fará um aporte de R$ 1,4 bilhão até 2028. Já a 99Food, que retornou neste ano ao mercado brasileiro, investirá R$ 1 bilhão no país.

Acompanhe tudo sobre:PicPayRappiDeliveryApps

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