Pregão viva-voz da Bovespa: o mercado financeiro tomou a avenida (Reprodução | Museu da Bolsa do Brasil)
Repórter de Invest
Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 11h36.
Quem olha para a correria e a seriedade do mercado financeiro hoje nem imagina que o terno e a gravata, no passado, poderiam dar lugar ao abadá e ao tamborim no Carnaval. Tudo começou em 1994, mais precisamente no dia 29 de dezembro, quando o pregão da até então Bovespa foi invadido por uma batucada.
A história desse encontro entre traders e o Carnaval começou no último dia de negociações daquele ano, quando cerca de 30 operadores decidiram encerrar o expediente de um jeito diferente, com samba.
Ali surgiu o bloco "Valores do Samba", idealizado por Cláudio José Paes Alves, conhecido como Claudinho Carioca. Ex-operador da Bolsa do Rio (BVRJ), ele trouxe na bagagem a tradição do Carnaval carioca quando se mudou para São Paulo (SP) em agosto de 1994.
Paes Alves conta que a adaptação à capital paulista não foi fácil no começo, mas o mercado acabou sendo sua segunda família. Ele relembra que, no Rio, o último pregão do ano já era em clima de festa, em que havia até eleição de "rainha do pregão". O operador quis replicar o espírito carnavalesco em SP.
"Foi muito bom. Foi uma época uma grande experiência de vida, porque nunca tinha passado pela minha cabeça uma situação dessa", disse o realizador, em registros do MUB3, o Museu da Bolsa do Brasil.
A ideia de criar um bloco oficial foi aceita e patrocinada pela Bovespa. E, para tirar o bloco do papel, eles buscaram, também, o apoio da prefeitura e começaram a ensaiar em uma oficina mecânica no Tatuapé, onde quem não sabia tocar aprendia com mestres de bateria famosos como Pilon e Marquinhos.
A estreia oficial nas ruas aconteceu em 1995, mas o ápice veio em 1996, quando o "Valores do Samba" desfilou no evento "Folia na Faria", patrocinado pela prefeitura na Avenida Faria Lima. Naquela época, o bloco já arrastava mais de 1,5 mil pessoas, unindo funcionários da Bolsa, seus familiares e outros foliões.
O samba-enredo, escrito pelo próprio Paes Alves, fazia uma homenagem à história das bolsas. Ele revela que se inspirou em um samba antigo de São Gonçalo para compor a versão do bloco, com versos que diziam que "a vida eu ganho no grito", uma clara referência à gritaria necessária para fechar negócios na época, no pregão viva-voz.
O "Valores do Samba" acabou em 1999, pois os participantes começaram a sentir dificuldades em conciliar os ensaios com as demandas do mercado de capitais. Dali a alguns anos, o pregão viva-voz deixaria de existir para dar lugar a operações 100% computadorizadas.
O grito dos operadores silenciou, no mercado financeiro e também no carnaval.