Fastly (FSLY) era tratada como ação “morta” em fóruns como o Reddit. (Pavlo Gonchar/SOPA Images/LightRocket /Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 06h00.
Há seis meses, a Fastly (FSLY) era tratada como ação “morta” em fóruns como o Reddit. A empresa de infraestrutura de internet — responsável por acelerar e proteger sites e aplicativos — acumulava queda de até 89% desde o pico, entregava crescimento fraco e registrava prejuízos recorrentes. Nesta semana, o roteiro mudou.
As ações da companhia dispararam mais de 100% em poucos dias, após a divulgação de resultados acima das expectativas e uma nova narrativa ligada à segurança de modelos de inteligência artificial.
A virada começou com o balanço do quarto trimestre de 2025. A empresa reportou receita de US$ 172,6 milhões, alta de 23% na comparação anual, e lucro líquido de US$ 20,1 milhões — revertendo perdas anteriores. A projeção para 2026 indica receita entre US$ 700 milhões e US$ 720 milhões, acima do que previa Wall Street.
O número reforçou a percepção de que a Fastly pode capturar parte do crescimento da chamada agentic AI — sistemas de inteligência artificial capazes de executar tarefas de forma autônoma — baseados em grandes modelos de linguagem (LLMs), como os que dão origem a chatbots e assistentes virtuais.
O ponto central da mudança de humor do mercado foi a área de segurança de borda — o chamado edge, que significa processar dados mais perto do usuário final, e não em servidores distantes. Produtos como o Edge WAF (um firewall que protege aplicações contra invasões) e as ferramentas de mitigação de ataques DDoS (ataques que sobrecarregam sites com tráfego falso até derrubá-los) passaram a ser vistos como infraestrutura crítica para proteger aplicações baseadas em IA.
Em 48 horas, a empresa saiu do rótulo de “trash stock” para ser tratada como fornecedora estratégica na defesa de modelos de linguagem contra ataques, raspagem automatizada de dados (scraping) e vazamentos em aplicações de IA generativa.
A lógica é técnica: ao processar o tráfego de dados na borda da rede, em milissegundos, a Fastly consegue separar bots legítimos — como mecanismos de busca — de agentes maliciosos, reduzindo riscos de exploração de APIs (portas de conexão entre sistemas) e exposição de dados sensíveis. Com o avanço dos LLMs, esse tipo de proteção passou a ser tratado como requisito básico.
Analistas da William Blair elevaram recomendações e classificaram a empresa como uma aposta subestimada no ciclo de IA. A divisão de segurança cresceu 32%. O consenso do mercado ainda é “hold” (recomendação de manter a ação em carteira), com preço-alvo médio em torno de US$ 10,64 — abaixo das cotações recentes após o rali. O RSI acima de 80 — indicador que mede o ritmo das altas e baixas do papel — indica ação em zona de sobrecompra.
Até pouco tempo, o cenário era oposto. A Fastly enfrentava: receitas abaixo das expectativas (como US$ 158 milhões em trimestres anteriores, com prejuízo de US$ 29 milhões), dívida conversível de US$ 125 milhões (títulos que podem virar ações no futuro), margens pressionadas, forte dependência de grandes clientes, como a ByteDance, impactada por tensões entre EUA e China, e concorrência agressiva da Cloudflare, que tem rede maior e oferece parte dos serviços gratuitamente.
Além disso, quedas de até 30% após resultados trimestrais e vendas de ações por executivos reforçavam a percepção de fragilidade. Um apagão relevante em 2021 também ainda pesava na memória do mercado.
A Fastly não mudou de setor. Mudou de narrativa — de CDN (empresa que distribui e acelera conteúdo na internet) pressionada por competição para fornecedora de segurança essencial na era da IA.
Resta saber se o novo papel será estrutural ou apenas mais um capítulo da volatilidade típica das empresas expostas ao ciclo de tecnologia. O histórico recente mostra que, no mercado, a linha entre “quase falência” e “ativo estratégico” pode ser mais curta do que parece.