Foliões da escola de samba Mocidade Alegre se apresentam durante Carnaval de 2024 de São Paulo (Nelson Almeida/AFP/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 10h42.
O Carnaval pode render mais à economia brasileira do que setores tradicionais da indústria. Cada R$ 1 investido em cultura — o que inclui a festa popular — pode gerar R$ 7,59 em retorno para a sociedade, por meio de emprego e renda. No setor de automóveis e caminhões, o impacto multiplicador é de R$ 3,76.
A análise foi feita pela economista ítalo-americana Mariana Mazzuca, com base em estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial.
“Para cada real investido, o retorno para a economia como um todo é maior do que na indústria automobilística”, disse à Agência Brasil. Segundo ela, o investimento público em artes e cultura contribui mais para a economia do que grande parte da indústria manufatureira tradicional.
Apesar disso, afirmou, governos continuam priorizando setores industriais clássicos. “As evidências estão aí. Não é verdade que não temos relatórios econômicos mostrando isso", disse.
Mazzucato visitou Rio de Janeiro e Salvador para conhecer a cadeia produtiva do Carnaval e deve ir a Recife na próxima passagem pelo Brasil. Ela lidera uma pesquisa da University College London (UCL), em cooperação com a Unesco, que investiga o papel das artes no desenvolvimento econômico.
Para a economista, o Carnaval funciona como um “microcosmo” da economia criativa. Embora concentrado em poucos dias do ano, mobiliza uma cadeia que opera permanentemente, envolvendo música, figurino, produção cultural, turismo e serviços.
“Mais do que comida, bebida e hotelaria, o impacto está nas habilidades, nas redes, na coesão social e no senso de identidade”, afirmou à agência.
Ela defende que a festa seja colocada no centro de uma estratégia nacional de expansão da economia criativa, modelo baseado em capital intelectual, cultural e inovação.
A economista também associou investimento em cultura à redução da criminalidade, especialmente entre jovens em situação de vulnerabilidade. Segundo ela, há evidências comunitárias de que atividades culturais ampliam bem-estar, resiliência e pertencimento.
Ao mesmo tempo, fez um alerta: é preciso discutir quem se beneficia economicamente do Carnaval e para onde vai o dinheiro dos patrocínios. “Quem tem acesso? Está se tornando muito comercial? Os recursos estão sendo reinvestidos nas comunidades que produzem essa criatividade?”, questionou.
A visita ao Brasil faz parte de parceria com o Ministério da Cultura para desenvolver indicadores econômicos que orientem políticas públicas voltadas ao setor.
Natural da região de Pádua, na Itália, a economista comparou o Carnaval brasileiro ao de Veneza. “Aqui vocês têm um carnaval vivo, enraizado no território. Devem pensar nisso como um investimento de longo prazo”, disse à Agência Brasil.
com Agência Brasil