FIDCs: só em 2026, esses fundos captaram R$ 30,64 bilhões (Divulgação/Shutterstock)
Repórter de finanças
Publicado em 6 de agosto de 2026 às 07h01.
O crédito privado não vive um bom momento. Mas, um segmento dentro dele vai na contramão: os Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs). Só em 2026, esses fundos captaram R$ 30,64 bilhões, somando um patrimônio líquido que inclusive supera o de ações, em R$ 770,31 bilhões. Uma das coisas que brilha os olhos dos investidores são os spreads — a taxa oferecida para além do CDI. Mas, agora com a queda da Selic, para manter a atratividade, será que esses retornos deverão se tornar mais altos e, com eles, os riscos devem aumentar?
Nesta quarta-feira, 5, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic para 14% ano ano, assim como o esperado pelo mercado.
Para especialistas ouvidos pela EXAME, o corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) não é significativo para impactar a classe. “Nesse cenário, os FIDCs tendem a continuar atraindo investidores, principalmente aqueles que buscam diversificação e exposição ao crédito privado”, diz Fernando Moreira, diretor de Gestão de Fundos da Intra Asset.
Os spreads poderiam subir para compensar o risco-retorno de se investir nos FIDCs. Segundo Rodrigo Mendonça, diretor gestor de Renda Fixa Abertos da Valor, isso acontece porque a demanda pode cair.
Se a Selic continuar recuando por um período prolongado, alguns investidores podem perder interesse em ativos de crédito privado porque a remuneração nominal ficará menor. Para continuar atraindo recursos, alguns emissores ou fundos poderiam ter de oferecer um prêmio maior sobre o CDI.
“Entretanto, quando olhamos sob a perspectiva dos spreads em si, uma queda de juros mais prolongada traz uma redução relevante na alavancagem das estruturas e no risco de crédito como um todo, o que em tese deveria contribuir para a compressão dos spreads”, diz Mendonça.
O segundo mecanismo que poderiam levar a alta dos spreads é que nem todos os FIDCs são iguais. Fundos com carteiras mais concentradas, originadores pouco testados ou garantias mais frágeis podem precisar pagar um spread maior para convencer o investidor a assumir esse risco.
“Já um FIDC com ativos de qualidade, histórico consistente, diversificação e mecanismos adequados de proteção pode continuar atraente mesmo sem ampliar significativamente o spread”, explica Edgar Araujo, CEO da Azumi Investimentos.Apesar de haver fatores que podem levar à elevação dos spreads, não necessariamente eles tendem a aumentar com a redução da Selic. O que deve acontecer, dito em consenso pelos especialistas, é uma busca por seletividade.
"Mais do que exigir um spread maior, o investidor tende a ficar mais seletivo. Em um mercado mais maduro, qualidade da carteira, transparência, histórico de performance e capacidade do gestor passam a pesar tanto quanto a remuneração", afirma Moreira.
Araujo compartilha da mesma visão. Segundo ele, enquanto os juros permanecem elevados, boa parte da renda fixa oferece retornos nominais altos, o que acaba mascarando diferenças entre os fundos. Em um cenário de redução da Selic, porém, o investidor tende a olhar com mais atenção para a composição das carteiras, índices de inadimplência, garantias, histórico dos originadores e estrutura dos fundos. Isso deve favorecer veículos mais transparentes e bem estruturados.
“Acredito que a queda da Selic pode tornar o mercado mais seletivo”, pontua. Para ele, fundos que dependem apenas de uma taxa elevada para atrair recursos podem perder espaço. Já aqueles que apresentam boa qualidade de carteira, previsibilidade, transparência, governança e uma relação equilibrada entre risco e retorno tendem a continuar relevantes.
“Em última instância, o futuro dos FIDCs não depende apenas da direção da Selic, mas da capacidade do mercado de estruturar, administrar e acompanhar o crédito com disciplina”, destaca Araujo.
Caso alguns gestores precisem oferecer retornos maiores para atrair investidores, isso não significa, necessariamente, que terão de assumir riscos maiores. Segundo Moreira, uma remuneração adicional pode surgir de "operações mais complexas, estruturas customizadas, empresas com menor acesso ao crédito bancário ou ativos menos líquidos".
Ainda assim, ele ressalta que "buscar maior retorno costuma significar assumir algum nível adicional de risco", mas que esse movimento "não deve ocorrer pela simples elevação do yield, mas por meio de uma análise criteriosa da relação entre risco e retorno". Na avaliação do executivo, "gestores com processos consolidados tendem a preservar seus critérios de crédito mesmo em ambientes competitivos".
Araujo faz avaliação semelhante. Para ele, "não é possível elevar indefinidamente o retorno prometido sem alterar alguma característica da operação".
Embora reconheça que "pode surgir pressão para buscar ativos de maior yield", ele afirma que "gestores responsáveis não devem aumentar o risco apenas para preservar uma taxa nominal". “A decisão deve considerar a capacidade de pagamento dos devedores, as garantias, a concentração, a subordinação e a possibilidade de recuperação dos créditos", afirma.
Mendonça pondera que um eventual aumento dos spreads não significa, necessariamente, que os FIDCs passarão a assumir mais risco.
"Um dos fatores que contribui para essa leitura é que um possível aumento nos spreads dos FIDCs também deve ser acompanhado pelo aumento dos spreads das operações dos fundos como um todo". O executivo ressalta, porém, que é importante que o investidor faça "uma análise específica do regulamento dessas estruturas de forma que a política de investimentos do FIDC esteja aderente a diferentes cenários macro".
Na visão dos especialistas, um ambiente mais seletivo tende a favorecer fundos com maior diversificação, governança e estruturas de proteção mais robustas.
Moreira afirma que "os fundos mais vulneráveis tendem a ser aqueles com menor diversificação, elevada concentração em poucos cedentes ou sacados, baixa qualidade de garantias ou estruturas de monitoramento menos robustas".
Segundo ele, "independentemente do segmento de atuação, a vulnerabilidade está muito mais relacionada à qualidade dos ativos, da estrutura e da gestão do risco do que ao fato de ser um FIDC específico".Araujo acrescenta que "os fundos mais vulneráveis tendem a ser aqueles com elevada concentração em poucos devedores ou originadores, baixa diversificação, garantias de difícil execução, pouca subordinação ou histórico limitado das carteiras", afirma.
O executivo pondera, no entanto, que "um fundo pode atuar em um segmento considerado mais arriscado e ainda assim apresentar uma estrutura robusta, enquanto outro, inserido em um mercado tradicional, pode carregar riscos relevantes por falhas de originação, monitoramento ou governança".
Para Mendonça, alguns fundos podem até sair fortalecidos. "Acredito que os FIDCs multicedentes multisacados podem se beneficiar nesse cenário, dado a alta pulverização de seus portfólios, subordinação robusta e critérios de elegibilidade rígidos".