Crédito privado: fundos com maior exposição ao segmento apresentam recuperação da rentabilidade (Germano Lüders/Exame)
Repórter de finanças
Publicado em 8 de julho de 2026 às 12h00.
Depois de um 2025 marcado por resgates, os fundos de renda fixa com exposição a crédito privado voltaram a atrair investidores em 2026. Entre janeiro e maio, a categoria registrou captação líquida de R$ 14,4 bilhões, revertendo as saídas de R$ 12,6 bilhões observadas no mesmo período do ano passado, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira, 8, pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
A recuperação ocorreu apesar de um ambiente ainda considerado desafiador para as empresas e para os gestores desses fundos. Na avaliação de Pedro Rudge, diretor da Anbima, o crédito privado continuará oferecendo oportunidades, mas o investidor precisa compreender que retornos superiores ao CDI vêm acompanhados de riscos.
"O crédito privado tem risco. Para um fundo entregar uma rentabilidade acima do CDI, ele precisa assumir um risco diferente de um título público. Ele compra crédito de empresas, e faz parte do jogo que alguns emissores atravessem dificuldades e determinados ativos sofram perdas".
Segundo Rudge, o atual ciclo prolongado de juros elevados elevou o custo de financiamento das empresas, aumentando os casos de renegociação de dívidas, inadimplência e recuperações judiciais.
"Como esses fundos financiam empresas, elas passaram muito tempo captando recursos a custos elevados. Isso levou algumas companhias a renegociar dívidas e, em alguns casos, entrar em default. É uma consequência do cenário que vivemos nos últimos anos."
Embora reconheça o ambiente mais difícil, o diretor da Anbima ressalta que os fundos de crédito privado costumam ter carteiras diversificadas, o que reduz o impacto de problemas enfrentados por emissores específicos.
"Os fundos são, em sua maioria, bastante diversificados. As carteiras não costumam ficar concentradas em poucos emissores, o que ajuda a mitigar o impacto de eventos como inadimplência, recuperação judicial ou postergação de pagamentos. Isso não significa que a classe deixará de entregar uma rentabilidade interessante".
O movimento de recuperação no crédito privado foi puxado pelos fundos com até 10% e de 30% a 50% de exposição ao segmento, que receberam R$ 26,5 bilhões e R$ 30,1 bilhões, respectivamente. Já os produtos com maior concentração nesses ativos continuaram enfrentando saídas: os fundos com alocação entre 50% e 70% registraram resgates de R$ 7,4 bilhões, enquanto aqueles com mais de 70% de exposição tiveram retiradas de R$ 33,7 bilhões.
A rentabilidade de fundos de crédito privado com concetração acima de 50%, no entanto, apresentou também uma recuperação gradual, ao registrar uma média de 0,55% em maio de 2026, ante 0,03% em abril e queda de 0,39% em março.
Apesar da retomada das captações, a expectativa da associação é que o ritmo de entrada de recursos desacelere nos próximos meses.
Rudge avalia que o aumento das notícias envolvendo empresas em dificuldades financeiras acaba influenciando a percepção de risco do investidor, especialmente daquele com perfil mais conservador.
"Quando o investidor combina esse ambiente mais difícil com notícias sobre empresas enfrentando problemas financeiros e com o desempenho de alguns fundos, principalmente aquele que tem maior aversão ao risco passa a considerar outras alternativas de investimento. Uma das consequências naturais é a diminuição do ritmo de captação desses fundos".
Ainda assim, a renda fixa deve continuar liderando os fluxos da indústria em 2026. "A renda fixa deve continuar sendo o carro-chefe das captações. O cenário de incerteza, marcado por conflitos geopolíticos, eleições e outros fatores, faz com que o investidor siga priorizando ativos mais conservadores".