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Especulação na China agita mercado global de ouro

Investidores de varejo e institucionais chineses passaram a desempenhar um papel desproporcional na condução da volatilidade, segundo especialistas ouvidos pela CNBC

China: governo impulsiona "desdolarização" para evitar coerção econômica por parte dos Estados Unidos. (Ni Lifang/VCG /Getty Images)

China: governo impulsiona "desdolarização" para evitar coerção econômica por parte dos Estados Unidos. (Ni Lifang/VCG /Getty Images)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 07h26.

As recentes oscilações acentuadas no preço do ouro têm sido associadas por analistas a um aumento da atividade especulativa na China, fenômeno que o secretário do Tesouro dos Estados Unidos (EUA), Scott Bessent, descreveu como uma atividade chinesa "indisciplinada".

O mercado de ouro chinês atingiu um estado de "desordem" que, eventualmente, obrigou as autoridades locais a endurecerem as exigências de margem, caracterizando o cenário como um "clássico esgotamento especulativo", segundo declarações de Bessent à Fox News.

Embora fatores globais, como as expectativas de taxas de juros nos EUA e tensões geopolíticas, continuem a sustentar a demanda pelo metal, investidores de varejo e institucionais chineses passaram a desempenhar um papel desproporcional na condução da volatilidade, indicam, também, analistas ouvidos pela CNBC.

Bolha? O papel da especulação e da alavancagem

A China se consolidou como o principal "motor" dos preços dos metais preciosos neste período, em um movimento impulsionado por um misto de fluxos especulativos que abrangem fundos de índice (ETFs, na sigla em inglês), barras físicas e posicionamento no mercado de futuros, acrescentaram especialistas consultados pela CNBC.

É o que informou o chefe de pesquisa e estratégia de metais da MKS Pamp, Nicky Shiels. Dados da Capital Economics indicaram, também, que as participações em ETFs chineses lastreados em ouro mais do que dobraram desde o início de 2025. Em contratos futuros de ouro, houve um crescimento expressivo nos últimos meses.

Analistas alertam, ainda, que o aumento do acesso a produtos financeiros vinculados ao ouro na China, somado a sinais de maior alavancagem financeira, tem contribuído diretamente para a instabilidade dos preços. Algo reforçado pelos volumes na Bolsa de Futuros de Xangai, com média diária de 540 toneladas.

Diante desse quadro, a Bolsa de Ouro de Xangai elevou repetidamente as exigências de margem em uma tentativa de conter a volatilidade exacerbada. O economista da Capital Economics, Hamad Hussain, reforçou à CNBC que uma volatilidade significativa pode até a possibilidade de uma bolha especulativa em formação.

Fatores estruturais e estratégicos na China

Além disso, a busca desenfreada pelo ouro na China reflete ansiedades estruturais da economia doméstica. Com o setor imobiliário em crise e as taxas de depósito bancário em níveis historicamente baixos, o metal tornou-se uma alternativa atraente para os investidores, segundo fontes ouvidas pela CNBC.

O estrategista sênior da ANZ Research, Zhaopeng Xing, pontuou que o ouro é visto como uma forma de seguro em um momento de queda nos preços dos imóveis. E, atualmente, o ouro representa cerca de 1% dos ativos das famílias chinesas, mas a expectativa é que esse percentual suba para 5% no futuro próximo.

Além do investimento privado, o Governo de Pequim adota uma postura de distanciamento para se proteger de pressões econômicas externas. O diretor-administrativo do China Market Research Group, Shaun Rein, afirmou ao canal que o governo está impulsionando a "desdolarização" para evitar coerção econômica por parte dos EUA.

Algo que fica notório com a redução de 11% nas participações chinesas em títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries, em inglês) em 2025, conforme adiantou a EXAME; enquanto o Banco Popular da China expandiu suas reservas de ouro por 15 meses consecutivos, atingindo um total reportado de aproximadamente 2.300 toneladas.

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