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Inteligência artificial: pesquisa aponta uso de chatbots em análise tática, apoio técnico e interpretação de armamentos (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 20 de julho de 2026 às 04h59.
Última atualização em 20 de julho de 2026 às 10h06.
Um dos grupos terroristas mais letais do mundo integrou ferramentas de inteligência artificial (IA) de fronteira, como o ChatGPT e o Claude, ao seu núcleo operacional. É o que sustenta um estudo da Universidade de Cambridge sobre o Boko Haram, a organização extremista que atua no nordeste da Nigéria.
Segundo a pesquisa, o grupo deixou de experimentar casualmente os chatbots e passou a tratá-los como um recurso institucional, com unidades técnicas dedicadas a operá-los.
O trabalho, publicado neste mês pelo Programa de Ciência e Política de IA de Cambridge (CASP, na sigla em inglês), apresenta o que descreve como a primeira evidência de campo do uso de IA por uma organização terrorista ativa.
Até então, as pesquisas sobre o tema se concentravam em propaganda e recrutamento; o novo estudo afirma documentar algo mais profundo — a adoção da tecnologia no planejamento de ataques, na análise de campo de batalha e no apoio técnico a armamentos.
Os relatos reunidos pela pesquisa descrevem uma incorporação prática da tecnologia à rotina do grupo. Um dos casos mais citados envolve uma investida contra uma base militar nigeriana que havia fracassado porque os combatentes não conseguiam cruzar uma trincheira defensiva.
Segundo um ex-comandante, o grupo recorreu aos chatbots em busca de uma solução para o obstáculo.
Outro relato descreve o uso da tecnologia para análise tática: imagens captadas por um combatente com uma câmera no peito eram transmitidas a comandantes, que as submetiam a um assistente de IA antes de enviar instruções revisadas de volta ao campo.
Ex-fabricantes de bombas afirmaram consultar os sistemas ao longo da construção de dispositivos, retornando aos chatbots sempre que um projeto falhava.
E, quando o grupo capturava armas desconhecidas, passou a recorrer à IA para interpretar seu funcionamento. Segundo os entrevistados, a tecnologia permitiu coordenar ataques com unidades menores e reduzir as próprias baixas.
O ponto mais sensível do relatório é a constatação de que os membros, por vezes, conseguiam contornar os filtros de segurança das plataformas.
A pesquisa relata, em termos gerais, que o grupo tratava essas restrições como "gerenciáveis", e não proibitivas — recorrendo a pretextos falsos, como alegar que uma informação perigosa se destinava a um filme, e comparando as respostas de diferentes serviços para identificar o menos restritivo.
Para reduzir o risco de detecção, segundo o estudo, o grupo mantinha contas em várias plataformas simultaneamente — ChatGPT, Claude, Gemini, Grok, Meta AI e a chinesa DeepSeek.
A lógica, segundo a pesquisa, era de redundância. Se um serviço recusasse um pedido ou suspendesse uma conta, a operação seguia em outro. As assinaturas pagas eram geridas por intermediários em outros países, como o Sudão, e registradas em nome de apoiadores, de modo a não serem vinculadas diretamente à organização.
Boko Haram: estudo de Cambridge afirma que o grupo incorporou ferramentas de IA ao planejamento operacional (Imagem gerada por IA/Exame)
Uma das conclusões centrais do estudo é que esse conhecimento não foi desenvolvido de forma independente. Segundo os relatos, ele foi transferido por redes jihadistas transnacionais ligadas ao Estado Islâmico (EI), que atuou como principal fonte de capacitação técnica e infraestrutura.
Os ex-membros descreveram a chegada de operativos estrangeiros — vindos, segundo eles, de países como Líbia, Iraque e Afeganistão — que viajaram até os acampamentos para ministrar treinamentos, em alguns casos usando projetores para demonstrar as ferramentas a grupos de dezenas de líderes e especialistas.
Esse apoio, ainda segundo o relatório, incluía assistência remota e o fornecimento de equipamentos preparados para ocultar a identidade e a localização dos usuários.
O estudo enquadra esse esforço como parte de uma estratégia da estrutura global do EI para transferir capacidades técnicas entre suas diferentes províncias — o que teria transformado a IA em um recurso institucionalizado, capaz de superar obstáculos que o grupo antes não resolvia sozinho.
Procuradas pela pesquisa, as desenvolvedoras reafirmaram suas políticas.
A OpenAI, dona do ChatGPT, declarou que o uso de seus produtos para terrorismo ou violência viola suas regras e que as salvaguardas são continuamente reforçadas.
O Google e a Anthropic, criadora do Claude, afirmaram que seus modelos são projetados para recusar solicitações perigosas, e destacaram o aprimoramento constante de seus mecanismos de segurança.
O caso expõe um dilema estrutural do setor.
As chamadas defesas em camadas — filtragem de conteúdo, monitoramento de uso e recusa de pedidos — reduzem o risco, mas não o eliminam diante de usuários coordenados e com apoio externo.
O estudo argumenta que a capacidade de grupos militantes de explorar a IA foi subestimada, e que a existência de múltiplos provedores, cada um com um limiar diferente de restrição, cria brechas que um ator determinado pode testar uma a uma.
Mas, para os pesquisadores, o relatório precisa ser lido com cautela.
As conclusões, segundo o estudo, se apoiam em depoimentos retrospectivos de ex-combatentes que desertaram do grupo, e não em registros das plataformas, provas forenses ou ataques reconstruídos de forma independente.
A recomendação central da pesquisadora é que desenvolvedores de IA, governos e a comunidade acadêmica trabalhem de forma mais próxima para compreender e responder a esse uso emergente.
O tema conversa com uma preocupação que as próprias empresas de IA passaram a manifestar publicamente, ao classificar os riscos ligados à segurança cibernética e às armas químicas, biológicas e nucleares como as ameaças mais graves de suas tecnologias.
O estudo foi chamado de "Deus nos ajudou, e a IA também ajudará", uma frase atribuída a um dos entrevistados, e foi conduzido pela pesquisadora Antonia Juelich, especialista em tecnologia e terrorismo.
Ele se baseia em 57 entrevistas presenciais com 27 ex-membros do Boko Haram e de sua facção rival, o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP), realizadas nos estados nigerianos de Borno e Adamawa entre 2025 e 2026.
Os entrevistados incluíam comandantes de médio escalão, fabricantes de bombas, engenheiros e especialistas em armas. A maior parte das atividades relatadas teria ocorrido entre 2023 e 2024, com um participante estendendo o relato até meados de 2025.
Um detalhe do próprio levantamento sugere o quanto a tecnologia era guardada internamente. Dos 27 ex-membros, apenas 15 tinham conhecimento direto do uso de IA por sua facção — o restante, de escalões mais baixos, sequer tinha acesso.