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Capacidade cognitiva: segundo estudos, IA pode atrapalhar — mas nem tanto (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 19 de julho de 2026 às 06h59.
A pergunta soa provocativa, mas virou objeto de investigação científica séria. Afinal de contas, usar inteligência artificial (IA) para pensar por você pode, com o tempo, enfraquecer a sua própria capacidade de pensar? Uma série de estudos publicados entre o ano passado e este ano sugere que sim, mas depende.
O que a ciência encontrou não é que a IA "deixa burro", mas algo mais sutil. Segundo as pesquisas, tecnologias como o ChatGPT, o Claude e o Perplexity tornam o esforço mental opcional, e é justamente esse esforço que constrói e mantém a habilidade cognitiva.
O tema ganhou tração com dois estudos que hoje ancoram o debate, um de laboratório e outro de campo, além de uma série de revisões acadêmicas. Juntos, eles desenham um retrato preocupante, mas bem mais complexo.
Um dos trabalhos mais famosos é o "Your Brain on ChatGPT", do MIT Media Lab, divulgado em junho de 2025.
Pesquisadores liderados por Nataliya Kosmyna acompanharam 54 adultos de universidades da região de Boston enquanto escreviam redações ao longo de quatro meses, monitorando a atividade cerebral com eletroencefalografia (EEG).
Os participantes foram divididos em três grupos. Na pesquisa, um usava o ChatGPT, outro o buscador do Google e o terceiro, apenas o próprio cérebro, sem ferramentas.
Segundo a pesquisa, o grupo do ChatGPT apresentou o menor engajamento cerebral, com a conexão neural mais fraca, enquanto o grupo "só cérebro" mostrou as redes mais fortes e distribuídas.
O estudo aponta ainda que a atividade cognitiva diminuía na proporção do uso da ferramenta externa.
Dois achados chamaram mais atenção. Ao longo dos meses, o grupo da IA passou a usar cada vez menos o ChatGPT como apoio e cada vez mais para copiar e colar o texto pronto.
E, quando esses participantes tiveram de escrever sem a ferramenta, o efeito persistiu e o cérebro seguiu com atividade reduzida, como se tivesse dificuldade de retomar o volante. Os autores chamaram esse fenômeno de "dívida cognitiva".
Se o MIT olhou para o cérebro em laboratório, a Microsoft e a Universidade Carnegie Mellon olharam para o trabalho.
Em pesquisa publicada em fevereiro de 2025, os cientistas ouviram 319 profissionais do conhecimento — pessoas cujo trabalho lida com dados e informação — sobre 936 usos reais de IA generativa no dia a dia.
A maioria relatou gastar menos esforço mental nas tarefas ao usar a IA. Na atividade de compreensão, 79% disseram empregar "muito menos" ou "menos" esforço; na síntese de informações, 76%; e na de conhecimento, 72%.
O ponto central, porém, foi outro. Segundo o estudo, quanto maior a confiança do profissional na IA, menos ele pensava criticamente sobre o resultado. E quanto maior a confiança na própria capacidade, mais ele questionava a resposta da máquina.
Por trás dos dois estudos está um conceito antigo da psicologia: a descarga cognitiva, o ato de transferir uma tarefa mental para uma ferramenta externa. A humanidade faz isso há séculos, com cadernos, calculadoras e buscadores.
O que muda com a IA generativa, apontam os pesquisadores, é o alvo. Agora a descarga atinge o próprio raciocínio, não só o armazenamento ou a busca de informação.
Uma revisão de 2025 publicada na revista Societies, da editora MDPI, reuniu esses trabalhos e encontrou uma correlação negativa consistente entre o uso intenso de IA e o pensamento crítico medido, com o efeito mais forte entre os usuários mais jovens, que aprenderam as tarefas já com a IA desde o início.
O raciocínio dos autores é que a IA torna opcionais as partes trabalhosas de pensar, e são elas que constroem a habilidade.
Os próprios cientistas alertam contra a leitura sensacionalista. O estudo do MIT, por exemplo, teve uma amostra pequena, 54 pessoas, e apenas 18 na sessão final, não passou por revisão por pares no momento da divulgação, e tratou de uma tarefa específica, a escrita de redações.
Os autores pediram cautela justamente para evitar que o trabalho fosse reduzido à frase de que "a IA apodrece o cérebro".
Há nuances que complicam o quadro. No mesmo estudo do MIT, os participantes que primeiro treinaram o cérebro sem ferramentas e só depois passaram a usar o ChatGPT tiveram desempenho melhor — sinal de que a ordem importa, e que a IA pode ser um bom apoio quando a habilidade já está formada.
E a pesquisa da Microsoft não conclui que a IA reduz a inteligência, mas que ela desloca o tipo de trabalho mental: de gerar informação para verificar a informação, de resolver problemas para integrar respostas ao contexto.
A conclusão dos pesquisadores não é que a inteligência artificial deva ser abandonada, mas que seu uso precisa preservar a participação ativa do cérebro. A tecnologia pode acelerar tarefas e ampliar a produtividade, desde que funcione como apoio ao raciocínio — e não como substituta dele.
Na prática, isso exige questionar respostas, conferir informações e evitar a delegação automática de decisões. Também significa reservar momentos de reflexão sem assistência tecnológica, sobretudo durante a formação de crianças e adolescentes, quando habilidades como interpretação, memória e pensamento crítico ainda estão sendo desenvolvidas.
Os estudos, portanto, não permitem responder à pergunta do título apenas com “sim” ou “não”. A IA não reduz, por si só, a capacidade intelectual de quem a utiliza. O risco aparece quando o usuário transfere à ferramenta, de maneira recorrente, o esforço de analisar, comparar e formular conclusões.
Quanto mais o pensamento é terceirizado sem revisão ou retomada de controle, maior pode ser o custo cognitivo ao longo do tempo. O ponto central não está apenas na tecnologia, mas na forma como ela passa a ocupar o lugar do raciocínio humano.