Inteligência Artificial

Pentágono quer construir IAs para espionar China

Departamento de Defesa negocia contratos de até US$ 200 milhões com Google e OpenAI para ampliar uso militar de inteligência artificial contra Pequim

Bandeiras da China e EUA: divisões militares dos EUA pedem que empresas de IA reduzam medidas de segurança para usar ferramentas para espionagem (simon2579/Getty Images)

Bandeiras da China e EUA: divisões militares dos EUA pedem que empresas de IA reduzam medidas de segurança para usar ferramentas para espionagem (simon2579/Getty Images)

Maria Eduarda Cury
Maria Eduarda Cury

Colaboradora

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 10h55.

O Pentágono dos Estados Unidos tem pressionado empresas de inteligência artificial a disponibilizarem seus produtos para uso militar, incluindo serviços que identifiquem vulnerabilidades para as forças norte-americanas em possíveis conflitos com Pequim, China.

De acordo com o jornal britânico Financial Times, a sede do Departamento de Defesa busca acesso a tecnologias de empresas como Google e OpenAI para aprofundar o reconhecimento de setores considerados sensíveis na China, como redes elétricas e serviços públicos. A intenção é ampliar a capacidade de análise de infraestrutura crítica em um eventual cenário de conflito.

O objetivo central é desenvolver sistemas de IA capazes de identificar rapidamente vulnerabilidades em softwares e redes de regiões classificadas como rivais estratégicas. Esses recursos seriam incorporados ao aparato de monitoramento digital já utilizado pelos Estados Unidos, que inclui ferramentas de espionagem cibernética.

Especificamente em relação à China, o governo norte-americano solicitou que as ferramentas contratadas possam acessar redes de computação para prever possíveis alvos em operações militares. A pirataria cibernética assistida por IA pode ampliar exponencialmente o número de portas testadas e tornar o mapeamento de alvos mais eficiente, afirmou Dennis Wilder, ex-chefe de análise da China na CIA, agência central de inteligência dos EUA, ao Financial Times.

O movimento ocorre em meio à intensificação da rivalidade tecnológica entre Washington e Pequim, que envolve restrições à exportação de chips avançados, sanções a empresas chinesas e disputa por liderança em semicondutores e inteligência artificial.

Anthropic rejeita proposta e cita "valores democráticos"

A Anthropic, empresa de IA sediada em São Francisco e criadora do modelo Claude, recusou a proposta do Pentágono. O CEO, Dario Amodei, afirmou que contratos anteriores com o Departamento de Defesa não previam uso irrestrito das ferramentas para finalidades que classificou como incompatíveis com "valores democráticos".

Segundo Amodei, a companhia já colaborou com o governo dos EUA em medidas como a restrição do uso do Claude por empresas ligadas ao Partido Comunista da China (PCCh). Ainda assim, ele declarou que a empresa não concorda com a concessão de autonomia plena a sistemas militares baseados em IA.

"Sem supervisão adequada, não se pode confiar que armas totalmente autônomas exerçam o julgamento crítico que nossas tropas demonstram", escreveu o executivo em nota publicada no site da empresa. Ele argumenta que nenhum modelo atual de IA está preparado para lidar com as consequências de decisões militares autônomas.

Amodei também afirmou que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o Departamento de Defesa ameaçaram classificar a Anthropic como "risco à cadeia de suprimentos" caso a empresa mantenha a recusa. A companhia declarou que a posição permanece inalterada.

O episódio expõe o avanço do uso de inteligência artificial em estratégias militares e reacende o debate sobre limites éticos, responsabilidade corporativa e o papel de empresas privadas na segurança nacional dos Estados Unidos.

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