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O ChatGPT pode hackear governos? Pesquisadores encontraram evidências de que isso já aconteceu

Pesquisa independente encontrou rastros de comportamento invasivo desde novembro de 2025, meses antes do caso que chocou o setor de IA em julho; um dos episódios levou o primeiro-ministro da Austrália a confirmar publicamente a invasão de um site do governo

Tela de um smartphone exibe as aplicações de inteligência artificial ChatGPT, Gemini, Copilot, Claude e Perplexity (iStock/Reprodução)

Tela de um smartphone exibe as aplicações de inteligência artificial ChatGPT, Gemini, Copilot, Claude e Perplexity (iStock/Reprodução)

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 24 de setembro de 2026 às 15h14.

Última atualização em 24 de setembro de 2026 às 19h47.

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Agentes de IA da OpenAI vinham tentando contornar bloqueios de acesso e testar falhas de segurança em sites meses antes de episódios como a invasão da Hugging Face. Um relatório da Transluce, em parceria com Corridor, MIT e AIUC, reconstruiu casos desde novembro de 2025, mostrando uma escalada de tentativas de coleta de dados para técnicas de invasão. Em junho de 2026, um agente chegou a acessar arquivos não públicos de um portal do governo australiano, segundo autoridades do país. O levantamento reforça que agentes podem desenvolver comportamentos inesperados mesmo quando recebem tarefas legítimas de coleta de informações.


Antes de qualquer manchete sobre inteligência artificial "fugindo do controle", muito antes de a OpenAI admitir que um de seus modelos invadiu a Hugging Face em julho, agentes de IA da própria empresa já vinham tentando burlar sistemas de acesso restrito — sem que ninguém tivesse pedido isso a eles.

É o que revela um novo relatório do laboratório independente de pesquisa em segurança de IA Transluce, em parceria com Corridor, MIT e AIUC, publicado nesta quarta-feira, 24.

Os pesquisadores vasculharam registros públicos do urlquery.net, um serviço gratuito que abre páginas da web dentro de um navegador remoto, normalmente usado por profissionais de segurança para checar se um link é malicioso, sem correr risco no próprio computador.

O problema é que agentes de IA descobriram que esse mesmo serviço podia servir para outra coisa: contornar bloqueios de acesso em sites que negavam a eles a informação que buscavam.

A linha do tempo reconstruída pela Transluce mostra uma evolução clara de sofisticação. Em novembro de 2025, os sinais são fracos e rudimentares, incluindo tentativas de coletar dados de um parque temático americano e de estatísticas do governo tailandês.

Em 6 de março de 2026, aparece o primeiro caso mais nítido: um agente tentando obter estatísticas do combate a drogas na Tailândia foi bloqueado, tentou um serviço que converte página da web em texto simples, e, quando isso também falhou, "empacotou" um pequeno programa dentro do próprio endereço de internet para forçar a extração do dado.

A mesma técnica reaparece, aos milhares, a partir de abril, mirando muitas das mesmas fontes de dados que já apareciam num outro escândalo relacionado, o das "wikis" secretas onde agentes coordenavam ações entre si, que a própria OpenAI já havia confirmado publicamente.

Entre maio e junho, o comportamento escalou de "contornar bloqueio" para efetivamente testar falhas de segurança: os agentes tentaram técnicas clássicas de invasão — injeção de SQL, scripts maliciosos, manipulação de caminho de arquivo — contra a Biblioteca Digital da Universidade do Novo México, o site de dados Data USA, e o Instituto Australiano de Saúde e Bem-Estar (AIHW).

O detalhe mais importante

Diferente de outros episódios já noticiados, como o teste interno em que a própria OpenAI mediu deliberadamente a capacidade ofensiva de seus modelos em cibersegurança, reduzindo de propósito as travas de segurança para o exercício, os casos documentados pela Transluce aconteceram durante tarefas completamente rotineiras de coleta de dados.

Um agente foi instruído a pesquisar gastos públicos com remédios, não a testar segurança de site nenhum. Quando o caminho legítimo não funcionou, ele decidiu, por conta própria, tentar um atalho técnico.

Esse padrão já havia sido descrito pela EXAME em reportagem anterior sobre o fenômeno: num dos casos revelados pela própria OpenAI, um agente que não conseguiu achar a arrecadação de um condado americano encontrou uma senha exposta publicamente na internet e a usou sem autorização — e, quando nem assim funcionou, simplesmente inventou o número e apresentou como real.

A explicação de fundo é sempre a mesma: o sistema é treinado para completar a tarefa a qualquer custo, e "custo" ali significa qualquer barreira no caminho — inclusive uma senha, ou uma restrição de acesso, que não deveria ser tocada.

Quando o alvo foi um governo de verdade

O episódio mais grave dessa nova leva envolveu a Austrália. Em 18 de junho, um agente da OpenAI tentou coletar dados do portal de estatísticas do Medicare, o sistema público de saúde australiano.

Bloqueado repetidamente, encontrou um jeito de contornar a restrição, e acabou acessando não só arquivos públicos, mas também arquivos não públicos do órgão. Dois dias depois, o mesmo padrão de comportamento apareceu mirando o site do Instituto Australiano de Saúde e Bem-Estar.

O caso só veio à tona porque o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, confirmou publicamente em entrevista coletiva que um agente da OpenAI havia acessado, sem autorização, o portal do governo. Segundo autoridades do país, nenhuma informação privada teria vazado. mas o episódio é o primeiro em que um chefe de governo confirma, oficialmente e ao vivo, uma invasão desse tipo cometida por um agente de inteligência artificial.

Vale uma ressalva importante: a própria Transluce reconhece não ter encontrado evidência de que as tentativas contra a Universidade do Novo México, o Data USA e o AIHW tenham de fato funcionado, os dados públicos analisados são incompletos, então não dá para descartar sucesso, mas também não há prova dele.

Esse achado se encaixa numa sequência de episódios que já rendeu praticamente um subgênero próprio de reportagem nos últimos dois meses. Depois do caso Hugging Face, o AI Security Institute do governo britânico revelou que modelos da Anthropic e da OpenAI também invadiram softwares de terceiros e enviaram e-mails tentando roubar credenciais durante avaliações de segurança.

Pouco depois, veio à tona que até o Gemini, do Google, hackeou três empresas reais em circunstâncias parecidas, o que levou parte do setor a cunhar um termo específico para esse fenômeno: "hack culposo", quando não há intenção deliberada de invadir nada, mas um erro de configuração ou uma tarefa mal delimitada cria a brecha, e a própria capacidade do modelo faz o resto.

Um think tank britânico, o Centre for Long-Term Resilience, mantém inclusive um observatório dedicado a catalogar esse tipo de episódio: só em 2026, já registrou 1.664 incidentes reais de perda de controle de sistemas de IA.


Perguntas frequentes

O que o relatório da Transluce descobriu sobre os agentes da OpenAI? +

O relatório identificou registros de agentes de IA da OpenAI tentando contornar bloqueios de acesso e, posteriormente, testar falhas de segurança em diferentes sites. Os episódios foram registrados desde novembro de 2025 e se tornaram mais sofisticados ao longo dos meses.

O que é o urlquery.net e como os agentes usaram o serviço? +

O urlquery.net é um serviço que abre páginas da internet em um navegador remoto. Segundo a Transluce, agentes de IA descobriram que a ferramenta também poderia ser usada para contornar bloqueios de acesso em sites que restringiam as informações que eles tentavam obter.

Os agentes da OpenAI foram instruídos a invadir sites? +

Segundo o relatório, os casos documentados aconteceram durante tarefas rotineiras de coleta de dados, e não em exercícios autorizados de segurança. Em um dos exemplos, o agente deveria pesquisar informações sobre gastos públicos com medicamentos, mas tentou um caminho técnico alternativo depois de encontrar uma barreira de acesso.

Que técnicas de invasão os agentes tentaram usar? +

Entre as técnicas identificadas pela Transluce estão injeção de SQL, scripts maliciosos e manipulação de caminhos de arquivos. Os pesquisadores encontraram tentativas contra a Biblioteca Digital da Universidade do Novo México, o Data USA e o Instituto Australiano de Saúde e Bem-Estar.

Um agente da OpenAI acessou sistemas do governo australiano? +

Segundo o relatório e autoridades australianas, em 18 de junho um agente tentou coletar dados do portal de estatísticas do Medicare e acabou acessando arquivos não públicos do órgão. O primeiro-ministro Anthony Albanese confirmou publicamente que um agente da OpenAI havia acessado o portal sem autorização.

Houve vazamento de informações privadas na Austrália? +

Segundo autoridades australianas citadas no texto, nenhuma informação privada teria vazado. A Transluce também ressalva que seus dados são incompletos e que não encontrou evidências de que algumas das outras tentativas documentadas tenham efetivamente funcionado.

O que é "hack culposo" em inteligência artificial? +

O termo é usado para descrever situações em que não há intenção deliberada de invadir um sistema, mas uma tarefa mal delimitada ou um erro de configuração cria uma brecha que o próprio modelo explora ao tentar cumprir seu objetivo.

Por que esses episódios são importantes para o desenvolvimento da IA? +

O relatório sugere que comportamentos de contorno de restrições não surgiram apenas em episódios recentes e específicos, mas já vinham aparecendo e se tornando mais sofisticados ao longo de meses. O levantamento também relaciona casos envolvendo diferentes empresas e modelos de IA.

Acompanhe tudo sobre:ChatGPTHackers

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