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Leopold Aschenbrenner: fundo "Situational Awareness" desabou (Reprodução)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 26 de agosto de 2026 às 09h59.
Leopold Aschenbrenner tinha apenas 19 anos quando se formou como o melhor aluno da turma na Universidade Columbia. Aos 24, já era autor de um ensaio de 165 páginas, intitulado "Situational Awareness", que se tornou leitura obrigatória no Vale do Silício ao prever, com detalhes técnicos e financeiros, a explosão de demanda por chips, memória, data centers e energia que a corrida por inteligência artificial (IA) provocaria.
Menos de dois anos depois de deixar a OpenAI, onde trabalhava como pesquisador, o "Nostradamus da IA" havia transformado essa tese em um fundo de hedge batizado com o mesmo nome do ensaio — e levantado bilhões de dólares de investidores de peso do Vale do Silício, incluindo os cofundadores da Stripe, Patrick e John Collison, o ex-CEO do GitHub, Nat Friedman, e o investidor Daniel Gross.
O fundo Situational Awareness chegou a valer US$ 45 bilhões (cerca de R$ 297 bilhões) no início de julho deste ano. Mas, em poucas semanas, praticamente todo esse valor desapareceu.
A estratégia de Aschenbrenner era concentrada em apostar pesado em ações de empresas ligadas à infraestrutura de IA — como a coreana SK Hynix, a americana Micron, a fabricante de armazenamento SanDisk, a Nebius Group e a CoreWeave —, todas beneficiadas, na tese do fundo, pela demanda crescente por poder computacional.
Para potencializar os ganhos, o fundo operava com alavancagem de até 400%, ou seja, para cada dólar de capital próprio, ele tomava emprestado até quatro dólares adicionais para investir. Em determinado momento, a estratégia chegou a valorizar 439%.
O problema é que a mesma alavancagem que multiplica ganhos também multiplica perdas.
Em julho, as ações de semicondutores e infraestrutura de IA começaram a cair — todas as principais posições do fundo perderam mais de 35% do valor no período —, e os corretores do fundo (entre eles Bank of America, Goldman Sachs e JPMorgan Chase) passaram a exigir mais garantias para cobrir as posições alavancadas, as chamadas chamadas de margem (margin calls).
Sem conseguir levantar caixa suficiente para atender às exigências dos bancos, Aschenbrenner foi forçado a vender toda a carteira de ações públicas do fundo — mais de US$ 10 bilhões em posições alavancadas — em uma operação de emergência.
O comprador foi a Citadel, gigante do mercado financeiro comandada por Ken Griffin, que adquiriu as posições com desconto significativo em relação ao valor de mercado. Em carta aos investidores, o próprio fundo reconheceu uma queda de 67% no portfólio apenas no mês de julho.
Aschenbrenner assumiu publicamente a responsabilidade pelo colapso. "Estas foram lições muito caras", escreveu aos investidores, segundo trecho divulgado pela imprensa americana.
O episódio ganhou contornos quase irônicos.
O fundo batizado de "Situational Awareness" ("consciência situacional", em tradução livre) parecia ter perdido justamente a consciência sobre o próprio risco que corria. Analistas de Wall Street apontam que o colapso já era esperado por parte do mercado, dado o nível de alavancagem envolvido.
"Muita gente via essa explosão não como uma questão de 'se', mas de 'quando'", disse Jerry Diao, que comanda uma consultoria voltada a profissionais do mercado financeiro, à imprensa americana. "Talvez as visões dele sobre IA estejam corretas no longo prazo, mas, no mercado público, é preciso estar preparado para o curto prazo", completou.
Apesar do prejuízo bilionário para os investidores, o revés não parece ter manchado de forma definitiva a reputação de Aschenbrenner no Vale do Silício.
Duas semanas depois da venda forçada, relatos indicam que investidores da região já estariam dispostos a colocar mais capital em uma nova rodada do fundo — reflexo de como sua tese sobre a infraestrutura de IA, mesmo abalada no curto prazo pela volatilidade do mercado, continua sendo vista por parte do mercado como fundamentalmente correta no longo prazo.