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Oliver Jay: executivo é vice-presidente de estratégia e operações internacionais da OpenAI (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 04h58.
Última atualização em 18 de agosto de 2026 às 12h03.
O Brasil virou um dos três maiores mercados do mundo para a OpenAI, dona do ChatGPT. São cerca de 215 milhões de mensagens enviadas por dia no país — praticamente uma mensagem para cada brasileiro, todos os dias, incluindo bebês e quem nunca abriu o aplicativo. É uma taxa de uso superior à da maioria dos países onde a empresa opera.
O volume não é o único indicador. Em geração de imagens por IA, o Brasil é o primeiro do mundo em uso por habitante. Em número de desenvolvedores que constroem produtos sobre a API da empresa — a porta de entrada que permite a terceiros usar os modelos da OpenAI dentro de seus próprios aplicativos —, é o segundo maior. E está entre os líderes globais no uso de voz e ditado, o que sugere que a adoção passou do texto digitado para a conversa em português.
É esse retrato que levou a companhia a reinaugurar seu escritório no país, com uma leva de parcerias anunciada nesta terça-feira, 17. Em entrevista à EXAME, Oliver Jay, vice-presidente de estratégia e operações internacionais da OpenAI e responsável pela expansão da empresa fora dos Estados Unidos, resume a lógica: "A pergunta real é 'por que não o Brasil?'".
Os acordos miram três frentes. Em educação, a OpenAI vai dar acesso ao ChatGPT a todos os alunos, professores e funcionários do ITA, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, escola de engenharia mantida pela Força Aérea e uma das mais concorridas do país. Em pesquisa, firma parcerias com o IMPA, instituto de matemática de referência internacional, e com o Hospital das Clínicas da USP, maior complexo hospitalar público da América Latina.
A terceira frente é a de formação em massa. Com o Sebrae, a empresa vai tocar um programa nacional de letramento em IA voltado a pequenos negócios. E com a Enter, legaltech brasileira que se tornou o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina, pretende treinar cerca de 1,4 milhão de advogados no uso da ferramenta — praticamente toda a advocacia do país.
No mercado corporativo, a empresa afirma que o número de usuários de seu produto voltado a companhias cresce cinco vezes ao ano no Brasil, puxado por nomes como Nubank, Itaú e Localiza.
Na conversa a seguir, Jay fala ainda sobre o principal gargalo da operação brasileira, sobre a estratégia de a OpenAI produzir os próprios chips e sobre a possibilidade de a empresa construir um data center no país.
EXAME: Por que o Brasil? Por que agora?
Para nós, o Brasil é um mercado muito interessante, por várias razões. Começo pela escala: o Brasil rapidamente se tornou um dos três maiores mercados da OpenAI em número de usuários ativos.
E a intensidade de uso também chama a atenção — são cerca de 215 milhões de mensagens enviadas no ChatGPT por dia no país. Isso equivale a uma mensagem por pessoa por dia — uma taxa de uso maior do que vemos em outros países.
Mas além da escala, o que nos chama a atenção é como os brasileiros usam a IA. Não é só pergunta e resposta — é mais avançado. Em geração de imagens, por exemplo, o Brasil é, per capita, o número um do mundo.
O país também está entre os líderes em uso do modo de voz e ditado. Isso mostra que os brasileiros estão trazendo sua língua, sua cultura e sua criatividade para o uso da IA.
Também vemos forte tração no ecossistema de desenvolvedores: em número de desenvolvedores construindo sobre nossa API, o Brasil é o segundo maior do mundo. Isso significa que existe toda uma geração de empresas sendo construída em cima dos nossos modelos.
E tem o setor corporativo, que talvez seja o segmento que mais cresce — algo como cinco vezes ano a ano em usuários do nosso produto enterprise. Empresas como Nubank, Itaú e Localiza estão reinventando fluxos de trabalho internos e construindo novos produtos com IA.
O amor na era dos tokens: por que tanta gente se apaixona, namora e até casa com IAsEntão, "por que o Brasil, por que agora?" — a pergunta real é "por que não o Brasil?". Vemos a IA sendo adotada de forma criativa e intensa em todo o ecossistema.
EXAME: Qual é o principal desafio no mercado brasileiro?
É simplesmente acompanhar o ritmo de crescimento.
Vemos uma "velocidade de escape" na forma como os brasileiros estão adotando IA, e não conseguimos contratar rápido o suficiente para apoiar essa adoção.
EXAME: O que muda agora, com essa nova operação?
Vocês vão ver a gente formando cada vez mais parcerias conforme aprofundamos nossas raízes no país.
Em educação, por exemplo, estamos anunciando uma parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para dar acesso ao ChatGPT, no nosso produto educacional, a todo funcionário, estudante e professor.
Como somos, no fundo, um laboratório de pesquisa, também apoiamos organizações que desenham e testam políticas práticas de IA, temos parcerias com o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e com o Hospital das Clínicas da USP.
EXAME: E como pretender incentivar e potencializar o uso do ChatGPT entre os brasileiros?
Através do letramento em IA. Apesar de a adoção já ser grande, vemos uma lacuna crescente entre o número de pessoas que realmente extraem todo o valor possível da ferramenta.
Ele criou um fórum no Reddit para sabotar o negócio bilionário da IA no GoogleNão acreditamos que a IA deva ficar nas mãos de poucas pessoas e empresas. Por isso temos parceria com o Sebrae, para um programa nacional de letramento em IA voltado a pequenas e médias empresas, e com a Enter — uma das principais empresas de IA jurídica do Brasil — para treinar cerca de 1,4 milhão de advogados brasileiros.
EXAME: Vocês pretendem ter um data center aqui no Brasil?
Infraestrutura é um tema central para nós, e isso é extremamente valioso. Estamos abertos a conversas sobre construir data centers no Brasil.
Não temos nada a anunciar, mas é algo em que estamos pensando.
EXAME: Daqui a um ano, o que indicaria o sucesso da operação da OpenAI no Brasil?
Vai depender de indivíduos, pequenas empresas, grandes empresas e do governo estarem extraindo utilidade real da IA.
Os modelos já são extremamente competentes, e vão ficar ainda mais nos próximos anos — o desafio é fechar essa "lacuna de capacidade" entre o que a IA pode oferecer e quanto desse benefício realmente chega às pessoas.
Brasil adota IA no ritmo que os EUA tinham há dois anos, diz ReglabNossa missão é desenvolver AGI que beneficie a humanidade, e esse é hoje o maior desafio para que ela se concretize.
Daqui a um ano, eu adoraria ver exemplos de ganho de utilidade generalizado, pessoas realmente extraindo valor da IA.