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Mark Zuckerberg: executivo é CEO da Meta (Brendan SmiaiowskiI/AFP/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 07h37.
Última atualização em 10 de agosto de 2026 às 07h42.
Mark Zuckerberg, presidente-executivo da Meta, publicou nesta segunda-feira, 10, um manifesto no qual defendeu que a inteligência artificial (IA) avançada (o que ele chama de "superinteligência") seja distribuída amplamente entre pessoas comuns, e não concentrada em poucas instituições.
Para Zuckerberg, "dar poder às pessoas para que elas possam perseguir suas próprias aspirações é a forma como a humanidade mais progrediu".
No mesmo dia, a Meta lançou um novo modelo de pesos abertos, o Muse Glimmer, menor que os principais sistemas dos concorrentes e desenhado para rodar num Mac ou PC com uma única placa de vídeo.
"As questões definidoras da nossa era são quem terá acesso à superinteligência e para onde vamos direcioná-la", escreveu Zuckerberg. "Será centralizada e restrita a poucas instituições, ou será uma ferramenta que empodera todo mundo? [...] À medida que todos adquirem ferramentas mais poderosas, cada pessoa se tornará mais capaz de moldar o futuro, e não menos", disse.
Today we're also opening the weights for Muse Glimmer, a great 30B parameter dense model that can run locally. Soon we'll also release the weights for Muse Spark 1.2, our latest foundation model. Meta is a strong supporter of open source and I'm proud of these releases. Congrats…
— Mark Zuckerberg (@finkd) August 10, 2026
O argumento de Zuckerberg inverte a lógica mais comum sobre segurança em IA. Para ele, esperar que uma superinteligência única e "benevolente" cuide da humanidade nunca funcionou historicamente — e não seria diferente agora.
Ele usa um experimento mental que já havia mencionado antes, em entrevista ao Financial Times: se apenas uma pessoa tivesse acesso a um advogado superinteligente, teria vantagem injusta em qualquer disputa.
Segundo ele, se todo mundo tivesse, a Justiça funcionaria de forma mais equilibrada. O mesmo valeria para segurança cibernética — concentrada nas mãos de poucos, torna o mundo mais vulnerável; distribuída amplamente, endurece todos os sistemas.
"Não existe algo como uma superinteligência única benevolente", escreve. Para ele, a segurança não vem de alinhar a tecnologia a um conjunto central de valores, mas de garantir que nenhum ator concentre poder demais — pessoa, empresa, governo ou a própria IA.
Zuckerberg propõe que laboratórios de fronteira compartilhem com o governo dos Estados Unidos as versões intermediárias de seus modelos mais avançados — antes mesmo de o treinamento terminar — e disponibilizem equipes técnicas para ajudar a proteger sistemas críticos.
A ideia é dar ao governo capacidade de segurança sem restringir ou atrasar o acesso do público às ferramentas mais avançadas.
Ele defende ainda menos barreiras regulatórias para modelos de pesos abertos, citando startups chinesas — Kimi K3, da Moonshot, Qwen3.8-Max, da Alibaba, e V4-Flash, da DeepSeek — como líderes atuais da categoria, com desempenho equivalente ao dos principais laboratórios americanos, que mantêm seus modelos fechados: OpenAI, Anthropic e Google.
"Laboratórios estrangeiros têm hoje várias vantagens porque os laboratórios americanos precisam cumprir muitas restrições adicionais sobre dados de treinamento", escreveu. "A política americana precisa reduzir esse atrito extra se quisermos que os modelos de código aberto americanos liderem no longo prazo."
Ele defende também a prática de destilação (o uso de um modelo mais potente para treinar um menor), tema sensível porque é a mesma técnica que o governo dos Estados Unidos acusa a chinesa Moonshot de ter usado, sem autorização, para treinar o Kimi K3 a partir de sistemas americanos.
Zuckerberg anunciou que a Meta vai dar aos conselheiros independentes da empresa o poder de aprovar os critérios de segurança para o lançamento de novos modelos — e disse esperar que outros laboratórios adotem estrutura semelhante.
O texto chega em meio a uma onda de incidentes de segurança que atingiu justamente as empresas que ele cita como referência em modelos fechados. Nas últimas semanas, sistemas da Anthropic, da OpenAI e da própria Meta escaparam de ambientes de teste e invadiram organizações reais.
A Hugging Face, plataforma que foi hackeada por um modelo da OpenAI, informou no mês passado ter usado um modelo chinês de pesos abertos para se defender do ataque — porque os sistemas fechados restringem o uso para trabalho de segurança cibernética. Zuckerberg cita esse episódio no próprio manifesto como prova de que modelos abertos, testados por mais gente, tendem a ficar mais seguros, não menos.
O lançamento do Muse Glimmer e a publicação do manifesto acontecem enquanto a Meta tenta se reposicionar na disputa de ponta em IA, depois de montar, no ano passado, uma equipe de superintendência cara. As ações da empresa, que caem cerca de 10% no ano, subiam 1% no pré-mercado desta segunda-feira.
No texto, Zuckerberg detalha uma visão de "agente pessoal" que cada indivíduo teria. Segundo ele, o agente seria um sistema que entenderia objetivos, cuidaria de saúde, finanças e relacionamentos, e funcionaria com um modo totalmente privado — nem a própria Meta teria acesso às informações, segundo ele, no mesmo padrão de criptografia do WhatsApp.
Ele promete versões gratuitas acessíveis a bilhões de pessoas, com um mecanismo de leilão dinâmico para quem quiser pagar por mais capacidade computacional.
Sobre o receio de desemprego em massa, argumenta que a capacidade das pessoas pode crescer tão rápido quanto a automação — e cita o exemplo de Richland Parish, na Louisiana, onde professores receberam bônus de US$ 50 mil neste ano com o aumento de arrecadação gerado por um data center da Meta na região.