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Inteligência Artificial

A reconstrução de Zuckerberg: como a Meta voltou a sonhar em liderar a inteligência artificial

Depois do fiasco do Llama 4, Zuckerberg reconstruiu sua equipe. Um ano depois, vira aposta para tomar a frente do setor — mais uma vez

Por André Lopes

Publicado em 10/07/2026, às 16:44.

Última atualização em 10/07/2026, às 16:47.

A revanche da Meta

um ano, a Meta vivia seu pior momento em inteligência artificial. O lançamento capenga do Llama 4 expôs o atraso da empresa justamente quando OpenAI e Anthropic se consolidavam como as referências do setor.

A resposta de Zuckerberg foi radical: zerar o time e recomeçar do zero, com um cheque de US$ 14,3 bilhões para tirar Alexandr Wang da Scale AI e pacotes de remuneração de oito dígitos para atrair pesquisadores de ponta. Batizou o projeto de Meta Superintelligence Labs (MSL).

Um ano depois, a consultoria americana SemiAnalysis, referência em análise de semicondutores e infraestrutura de IA, publicou um raio-x dessa reconstrução e a conclusão é provocadora: entre todas as gigantes de tecnologia, a Meta seria hoje a única com chance real de alcançar OpenAI e Anthropic, hoje um páreo de dois cavalos.

O relatório é taxativo até sobre o Google: apesar do bom momento do Gemini 3 e da aquisição da ferramenta de programação Windsurf, a gigante das buscas teria perdido fôlego e corre risco de ficar fora do trio de cabeça do setor.

Para a SemiAnalysis, construir um modelo de ponta depende de três recursos: dados, talento e poder computacional. A tese da consultoria é que a Meta está no caminho para se tornar referência mundial nos três ao mesmo tempo — algo que, segundo a análise, nenhuma outra hyperscaler estaria conseguindo.

Mark Zuckerberg

Mark Zuckerberg

Dados ao ar

O ponto de partida da tese é uma ideia simples: dado de qualidade não é um recurso finito, é um recurso que se cria, desde que haja demanda e dinheiro suficientes. Isso já deu origem a uma indústria inteira.

Empresas como Mercor, Surge e Handshake, que contratam especialistas para gerar tarefas de treinamento de IA, já faturam mais de US$ 1 bilhão por ano cada, e uma nova geração de rivais, com pouco mais de um ano de vida, já opera na casa dos US$ 100 milhões em receita anual.

O que essas empresas vendem, na prática, são tarefas para o chamado aprendizado por reforço — a técnica que hoje mais melhora a capacidade das IAs, ensinando o modelo a completar um trabalho inteiro (corrigir um bug, fechar uma venda, montar um relatório) em vez de apenas prever a próxima palavra.

O desafio é calibrar a dificuldade certa: fácil demais, o modelo não aprende nada; difícil demais, nunca acerta e não há o que reforçar. Um bom exemplo do problema, citado pela SemiAnalysis, é o GDPval, benchmark da própria OpenAI: numa das tarefas, para pedir que a IA monte um roteiro de viagem, os pesquisadores tiveram de escrever instruções de mais de mil palavras, o tipo de detalhamento artificial que nenhum humano jamais daria a um assistente na vida real.

É aqui que entra a jogada mais controversa da Meta: a decisão de monitorar telas, teclados e cliques do mouse dos próprios funcionários para transformar o trabalho de escritório do dia a dia em material de treino.

Diferentemente de uma tarefa criada em laboratório, a gravação de alguém realmente fazendo seu trabalho carrega dificuldade e contexto reais, e ainda serve de base para os "verificadores", os critérios que definem se a resposta da IA foi boa ou ruim.

Como grande parte do trabalho de escritório é subjetivo, esses verificadores costumam ser rubricas de avaliação; juntando milhares de gravações de pessoas diferentes fazendo a mesma tarefa, a empresa consegue montar rubricas muito mais completas do que pedindo para um especialista criá-las do zero.

A iniciativa gerou desconforto interno, e a Meta recuou parcialmente, passou a reforçar a proteção de privacidade e deu aos funcionários a opção de pausar o rastreamento por 30 minutos.

Mas manteve o programa em pé e foi além: no fim de maio, redirecionou cerca de 3.000 engenheiros, incluindo 70% dos recém-contratados, para se dedicar em tempo integral à criação de tarefas e ambientes de aprendizado por reforço.

Para efeito de comparação, a plataforma Mercor registrou 2,5 milhões de horas de especialistas só no segundo trimestre de 2026, o equivalente a 4.800 pessoas trabalhando 40 horas semanais.

Segundo a SemiAnalysis, a Meta já opera numa escala parecida internamente, com um adicional que nenhuma concorrente tem: outros 70 mil funcionários que poderiam ser redirecionados para a mesma função, caso o experimento comprove seu valor.

Computação: cinco megaestruturas ao mesmo tempo

Do lado do poder computacional, a escala chama atenção mesmo num setor acostumado a números grandiosos. Hoje existem em construção simultânea cinco complexos de data center batizados de "Titãs", cada um com mais de 1 gigawatt de capacidade: o Prometheus, em Ohio, já parcialmente operacional; o Hyperion, na Louisiana; e mais três campi sem nome público em El Paso, Iowa e Indiana.

Para efeito de comparação, o maior projeto do gênero fora da Meta é o data center de 800 megawatts que a AWS constrói em Indiana para a Amazon — a Meta, segundo a consultoria, tem dois complexos de 1 gigawatt inteiro em obras simultâneas.

Erguer estruturas desse tamanho cria um problema técnico: como fazer milhares de chips conversarem entre si sem perder velocidade. A solução da empresa foi um projeto de rede batizado de AI-Backbone, uma arquitetura que interliga múltiplos data centers próximos no caso do Prometheus, seis campi, cinco deles a menos de 6 km um do outro, somando algo como 22 petabits por segundo de banda no cluster inteiro.

O preço dessa distância é a latência: dentro de um mesmo campus, ela fica na casa de poucos microssegundos; entre campi a 100 km de distância, sobe para o equivalente a meio milissegundo, tempo suficiente para obrigar a Meta a rodar partes do treinamento de forma assíncrona. A promessa da empresa é ir além: conectar campi a até 2.000 km de distância um do outro.

Quem banca a conta é a máquina de publicidade da própria Meta. Diferentemente da OpenAI e da Anthropic, que dependem de rodadas de investimento, ou do Google, que precisa dividir capacidade com o próprio negócio de nuvem, a Meta financia a expansão com o caixa do Instagram e do Facebook, e Zuckerberg já deixou claro que está disposto a operar com fluxo de caixa livre negativo para sustentar o ritmo.

Com isso, a projeção da SemiAnalysis é que a empresa termine 2026 com mais capacidade computacional dedicada a IA do que OpenAI e Anthropic somadas, mesmo descontando a fatia reservada ao negócio original de recomendação de conteúdo e anúncios.

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Talento: o supertime bilionário

A onda de contratações que começou com Alexandr Wang não parou. Depois da leva inicial, que incluiu a compra da participação de Nat Friedman e do fundo de Daniel Gross e a chegada de pesquisadores como Shengjia Zhao e Jack Rae, a maioria vinda da OpenAI, a Meta seguiu recrutando nomes de peso: Andrew Tulloch, cofundador da startup Thinking Machines, parte da equipe fundadora dessa mesma empresa, e ex-pesquisadores da OpenAI como Jason Wei e Hyung Won Chung.

O time não é só técnico. Em janeiro, a empresa trouxe Dina Powell McCormick, figura conhecida do mercado financeiro e ex-conselheira dos governos Trump e George W. Bush, para presidir o conselho de expansão de infraestrutura computacional.

Em abril, recrutou em bloco três executivos de computação da própria OpenAI, embora um deles já tenha pedido demissão, citando choque de cultura na área de infraestrutura da Meta, sinal de que nem toda contratação bilionária garante encaixe.

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O produto ainda deixa a desejar

Nem tudo é conquista. O modelo mais recente da Meta Superintelligence Labs, o Muse Spark, ficou atrás de rivais de código aberto como DeepSeek e Kimi em boa parte dos testes de desempenho — um resultado pior, inclusive, do que o próprio Llama entregava em gerações anteriores.

Testes preliminares da versão 1.1, feitos antes do lançamento oficial, colocam o modelo em pé de igualdade com concorrentes de segundo escalão, com falhas pontuais, como ignorar instruções em vez de corrigi-las. Segundo a SemiAnalysis, o modelo sequer chega perto do nível dos modelos da Anthropic em tarefas de programação, e não deve alcançar o padrão de Anthropic ou OpenAI até o fim do ano.

A tese em favor da Meta é a de que uma equipe reconstruída do zero, mesmo que veterana, ainda precisa de tempo para amadurecer. Mas a SemiAnalysis é honesta sobre os riscos: se a Meta recuar no financiamento da infraestrutura, desmontar a área recém-criada de geração de dados ou perder seus principais pesquisadores para os rivais, a aposta desmorona.

Por ora, nenhuma outra gigante de tecnologia reuniu ao mesmo tempo o dinheiro, os dados e a disposição para tentar o que a Meta está tentando, nem mesmo o Google, que a maioria do mercado ainda enxerga como a verdadeira líder da IA, mesmo com rivais como Anthropic e OpenAI ditando o ritmo de lançamentos em IA.

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André Lopes

André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Com quase uma década dedicada à editoria de Tecnologia, também cobriu Ciências na VEJA. Na EXAME desde 2021, colaborou na coluna Visão Global, nas edições especiais Melhores e Maiores e CEO. Atualmente, coordena a iniciativa de IA da EXAME.

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