Mark Zuckerberg e Alexandr Wang: relação entre investidor e investido complicou o futuro da Scale AI (Reprodução)
Repórter
Publicado em 10 de dezembro de 2025 às 15h54.
Última atualização em 10 de dezembro de 2025 às 16h14.
Quando Mark Zuckerberg decidiu investir US$ 14 bilhões na Scale AI, o movimento foi interpretado no Vale do Silício como mais um lance de ambição do CEO da Meta na disputa global por modelos de inteligência artificial.
A Scale era, até então, a empresa que ajudava gigantes como Google, OpenAI e Anthropic a testar vulnerabilidades e ajustar respostas de seus sistemas.
Era percebida como neutra, técnica, e indispensável num mercado frenético. A entrada da Meta, porém, alterou imediatamente a percepção de independência da companhia. E, à medida que os meses avançaram, a operação começou a parecer menos uma expansão industrial planejada e mais um caminho tortuoso, cheio de efeitos imprevistos, inclusive dentro da própria Scale.
O primeiro sinal de instabilidade surgiu de forma quase simbólica. Um dos contratados da Scale, acostumado a procurar falhas em modelos generativos, perguntou ao ChatGPT o que aconteceria com a empresa depois do acordo com a Meta.
A resposta circulou pelos grupos internos como um presságio incômodo: a Scale “deixaria de existir como entidade independente em 24 meses”. Não era análise técnica, tampouco previsão fundamentada.
Mas resumia a inquietação crescente entre trabalhadores que já percebiam mudanças na rotina: menos projetos, menos pagamentos, mais incerteza.

A força produtiva da Scale sempre foi seu enorme contingente de rotuladores e avaliadores de dados, espalhados em todo o mundo. Depois do aporte da Meta, essa engrenagem começou a desacelerar.
Os relatos incluíam cortes silenciosos em pagamentos, longos processos de onboarding não remunerado, tarefas que rendiam centavos e discussões internas que foram minguando. A plataforma Outlier, carro-chefe da Scale e que concentrava mais de 100 mil trabalhadores, perdeu tração.
Para muitos, a Scale parecia ter abandonado o modelo que a tornara indispensável: volume, precisão e velocidade combinados. A crítica mais dura veio de uma ex-consultora que deixou a empresa em 2025: “Spam e dados de baixa qualidade viraram custo aceito do negócio.”
As suspeitas de que Zuckerberg buscava mais o fundador Alexandr Wang do que o negócio como um todo começaram a circular no mercado secundário de ações. A avaliação da Scale, que havia saltado para US$ 29 bilhões com o investimento, despencou em negociações privadas para faixas entre US$ 15 bilhões e US$ 9 bilhões, e em algumas plataformas apareceu até abaixo de US$ 8 bilhões.
Investidores descreviam a operação como uma aquisição indireta de talento. O corte de 14% do quadro de funcionários em seguida reforçou essa leitura: o centro de gravidade parecia ter mudado de lugar.
Na tentativa de reagir, a Scale passou a redirecionar esforços para setores mais estáveis, como defesa e robótica. Os novos contratos com o governo americano e as iniciativas para estruturar laboratórios dedicados a treinar robôs sugeriam uma busca por fontes de receita menos voláteis, assumindo que parte do mercado corporativo, especialmente clientes que exigiam neutralidade, já havia partido.
Ao mesmo tempo, rivais emergiam com velocidade impressionante. Startups como a Surge AI e a Mercor roubaram não apenas trabalhadores, mas contratos inteiros, incluindo projetos ligados à própria Meta.
A perda de clientes estratégicos, somada a disputas judiciais e a falhas de segurança que expuseram planilhas com dados de Google, Meta e xAI em links públicos, debilitou ainda mais a percepção de robustez operacional da Scale.
Nesse cenário, o plano de Zuckerberg continua envolto em ambiguidade. A Meta ganhou acesso a uma infraestrutura crítica para treinar suas próprias IAs e, sobretudo, a proximidade de Wang, considerado um dos talentos mais excepcionais da nova geração.
Mas a operação também corroeu parte do valor da Scale e tornou mais difícil justificar sua independência. A startup que já foi símbolo de confiabilidade e volume agora enfrenta dúvidas sobre capacidade técnica, governança e foco estratégico. Para alguns investidores, isso é apenas um desvio temporário. Para outros, o início da zombificação de uma empresa que cresceu rápido demais e virou peça de um tabuleiro maior que ela própria.