Redatora
Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 19h05.
Previsões feitas há mais de 70 anos sobre a inteligência artificial (IA) se tornaram parte do cotidiano com a popularização de chatbots, assistentes virtuais e sistemas automatizados. Debates sobre apego emocional às máquinas, substituição do trabalho humano e limites éticos da tecnologia já apareciam nos anos 1950 e 1960.
Hoje, ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude reacendem discussões antigas, agora impulsionadas por investimentos bilionários e uso em larga escala por governos e empresas.
Desde os anos 1950, pesquisadores discutem se máquinas poderiam simular conversas humanas, aprender tarefas complexas e influenciar emoções. Muitos desses cenários, vistos como futuristas à época, tornaram-se realidade décadas depois.
Em entrevista à BBC News Brasil, o pesquisador Bernardo Gonçalves, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), afirmou que os dilemas centrais da IA permanecem os mesmos. Segundo ele, o que mudou foi o volume de recursos financeiros e o espaço que essas tecnologias passaram a ocupar junto a governos e empresas.
Em 1966, o cientista Joseph Weizenbaum, do MIT, criou o Eliza, considerado o primeiro chatbot a ganhar notoriedade mundial. O programa simulava conversas ao reformular frases digitadas pelo usuário, criando a ilusão de compreensão.
Apesar de simples, o Eliza despertou apego emocional em usuários. O próprio Weizenbaum relatou surpresa ao ver pessoas tratando o software como um interlocutor real, inclusive pedindo privacidade para conversar com a máquina.
O avanço dessas reações levou Weizenbaum a adotar uma postura crítica. Em seu livro Computer Power and Human Reason (1976), o cientista alertou que certos atos de julgamento e pensamento não deveriam ser delegados às máquinas.
O posicionamento antecipou debates atuais sobre o uso de inteligência artificial em áreas sensíveis, como terapia, educação e decisões clínicas.
Em 1950, o matemático britânico Alan Turing publicou o artigo Computing Machinery and Intelligence, no qual formulou a pergunta: máquinas podem pensar?
No texto, Turing antecipou críticas religiosas, filosóficas e morais. Ele também abordou a resistência ao uso de termos como “pensamento” e “memória” para descrever processos computacionais.
Ao jornal britânico, Bernardo Gonçalves destacou que essa controvérsia sobre linguagem e metáforas humanas continua atual e influencia a forma como a sociedade percebe as capacidades da IA.
Enquanto Turing explorava possibilidades teóricas, outros cientistas defendiam uma abordagem mais pragmática. Douglas Hartree, matemático britânico, publicou em 1946 um artigo alertando contra o uso excessivo de metáforas humanas ao descrever computadores.
O matemático argumentava que esse tipo de linguagem poderia criar a ilusão de que máquinas replicam a mente humana, desviando o foco de seu verdadeiro papel: ampliar a capacidade de cálculo e apoiar decisões humanas.
Na avaliação de Gonçalves, tecnologias de automação sempre provocaram impactos sociais concretos. Ele lembrou que, nas décadas de 1940 e 1950, o termo “computador” se referia a pessoas — em especial mulheres — responsáveis por cálculos complexos.
Segundo o pesquisador, a automação extinguiu essa profissão e ilustra como a tecnologia desloca poder, altera estruturas de trabalho e redefine relações econômicas.
Nos anos 1970, o campo da inteligência artificial enfrentou um período conhecido como “inverno da IA”, após críticas sobre expectativas exageradas e resultados limitados.
De acordo com o pesquisador, o mesmo ciclo se repete hoje. De um lado, discursos que anunciam superinteligências iminentes. De outro, a visão de que os sistemas atuais são limitados.
Para ele, a realidade está entre esses extremos. A IA avança de forma consistente, mas não corresponde integralmente às narrativas mais alarmistas ou triunfalistas.