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Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 4 de julho de 2026 às 15h07.
Última atualização em 5 de julho de 2026 às 11h42.
*SÃO FRANCISCO - Andar pela sede do Vale do Silício, na Califórnia, é entender rápido que a cidade é um grande showroom de tecnologias emergentes. São Francisco é cercada por aceleradoras, fundos de venture capital e pelas startups que atraem alguns dos jovens mais bem formados do mundo. E já tinha, antes mesmo da pandemia, uma cultura de trabalho flexível e que aceita que o escritório do profissional seja qualquer lugar,
No centro e em alguns bairros satélites, sobram mesas com gente de notebook aberto, do Starbucks à torrefação mais hipster do momento. São centenas de logos da Apple ao lado de copos cheios de matchas com calda de morango em toda a região da Bay Area.
O que mudou está nas telas. Circulando por esses espaços compartilhados de trabalho, o que se vê nos computadores não são serviços de mensageria como WhatsApp ou e-mail, tampouco planilhas do Office, mas sim aplicativos como Cursor, Antigravity e Claude Code. Todos os representantes dessa nova era de IAs agentivas, que fazem muito mais que a conversa padrão do ChatGPT e Gemini.
Enquanto linhas de código são depositadas aos montes em terminais e, em vários momentos, pedindo ao humano só uma autorização para seguir. A pessoa lê, aprova, e o agente de IA, às vezes com seus próprios subagentes, executa a tarefa.
A cena não é anedota isolada. É o retrato de uma mudança que os números do mercado deixaram de sugerir e passaram a gritar. O caso mais escancarado é o do Cursor, editor de código com IA feito pela startup Anysphere, fundada em 2022 por quatro estudantes do MIT. Sua receita recorrente anual saiu de US$ 100 milhões em janeiro de 2025 para cerca de US$ 4 bilhões em junho de 2026, passando por US$ 500 milhões, US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões pelo caminho.
É, segundo praticamente todos os relatos do setor, a escalada mais rápida da história do software corporativo, mais veloz que Slack, Zoom ou Snowflake. Em junho de 2026, a SpaceX anunciou a compra da empresa por US$ 60 bilhões, na maior aquisição de uma startup de capital de risco já registrada. O Cursor é usado por mais de 1 milhão de clientes pagantes e por cerca de dois terços das companhias da Fortune 500.
Michael Truell: CEO da Cursor
O apetite tem lastro num mercado que explodiu. As ferramentas de programação com IA geraram US$ 12,8 bilhões em receita em 2026, mais que o dobro dos US$ 5,1 bilhões de 2024. Mais da metade de todo o código no GitHub já é gerado ou assistido por inteligência artificial, e cerca de 90% dos desenvolvedores usam ao menos uma ferramenta de IA no trabalho.
O GitHub Copilot, da Microsoft, tem 4,7 milhões de assinantes pagos; o Claude Code, da Anthropic, que roda no terminal como um agente, alcançou 57% de reconhecimento entre desenvolvedores no início de 2026. Não é um nicho. É a nova forma padrão de escrever software.
Para um agente sair da resposta e ir à ação — executar um código, consultar um banco de dados, abrir um site —, ele precisa de uma ponte até esses serviços. Essa ponte ganhou um padrão: o Model Context Protocol (MCP), aberto pela Anthropic em novembro de 2024 e apelidado de "USB-C da IA", por permitir que qualquer modelo se conecte a qualquer ferramenta sem um conector sob medida para cada caso.
A adoção foi vertiginosa. Os downloads mensais do kit de desenvolvimento do MCP saltaram de cerca de 100 mil no lançamento para 97 milhões em março de 2026. Já existem mais de 10 mil servidores públicos de MCP, um censo independente indexou mais de 17 mil, conectando agentes a bancos de dados, repositórios de código, CRMs e serviços em nuvem.
Em dezembro de 2025, a Anthropic doou o protocolo à Linux Foundation, numa fundação criada com OpenAI e Block e apoiada por Google, Microsoft, AWS, Cloudflare e Bloomberg, o sinal de que empresas que competem ferozmente no modelo decidiram cooperar na infraestrutura.
Sobre a mesma lógica, surgiram protocolos para agentes conversarem com agentes (A2A) e até comprarem uns dos outros, como o padrão de comércio da Google com a Shopify e o da OpenAI com a Stripe. O cenário que parecia ficção, software negociando com software já tem norma técnica.
Essa é a base que sustenta as telas que vi nos cafés. As próprias ferramentas foram redesenhadas em torno da ideia de agente. O Antigravity, plataforma que o Google lançou em novembro de 2025 junto com o modelo Gemini 3, é explícito nisso: além da tela do editor tradicional, tem uma "tela de gerente", em que o profissional dispara, orquestra e observa vários agentes trabalhando em paralelo, de forma assíncrona, cada um com acesso ao editor, ao terminal e ao navegador.
E tal virada não parou no código. Ela reorganizou a forma como produtos digitais saem do papel. Durante anos, o fluxo foi rígido: o designer criava telas estáticas, o desenvolvedor de front-end as reconstruía em código, o de back-end cuidava do que roda por trás, e entre uma etapa e outra havia o "handoff", a entrega em que specs eram interpretadas, detalhes se perdiam e vinha o vaivém de ajustes. Esse modelo, padrão por 15 anos, começou a ruir.
Config 2026: evento anual de novidades do Figma, que ocorre em São Francisco (Figma/Reprodução)
Ferramentas como o Figma Make passaram a gerar código a partir do design, sem a tal passagem de bastão; no Config de 2026, a Figma cravou que "design contra código" é um falso debate e que código é material do design, permitindo ao designer levar a lógica real até a produção. Do outro lado, agentes como o Claude Design, da Anthropic, e o Stitch, do Google, produzem interfaces que já saem clicáveis.
O resultado prático apareceu na rotina das equipes: gerentes de produto e designers relatam prototipar direto em código, testar com dados reais antes de desenhar e explorar dezenas de variações de uma tela, 50, num caso citado pela Figma, antes de cravar uma direção. O papel do designer e do profissional de UX, que tinha um lugar fixo nessa linha de montagem, foi redesenhado: mais perto do produto final, menos preso ao desenho estático.
Essa cena, hoje concentrada em São Francisco, já dá as caras por aqui. A OLX afirma ter cortado em até 85% o tempo de gerar código a partir de telas desenhadas no Figma. O Nubank construiu todo o seu design system dentro da mesma ferramenta e testa recursos de IA para prototipagem. Ferramentas como o Antigravity chegaram ao país no mesmo dia do lançamento global, e desenvolvedores brasileiros já convivem com Cursor e Claude Code. A diferença, por ora, é de intensidade e de concentração, não de existência.
O que se enxerga nas mesas dos cafés de São Francisco, então, talvez seja só a versão adiantada de uma cena que vai se espalhar. É nesse intervalo, entre apertar enter e conferir o resultado, que boa parte do futuro do trabalho está sendo definida.
*O jornalista viajou a convite do Figma.