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Dylan Field: CEO do FIgma
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 24 de junho de 2026 às 13h36.
Última atualização em 24 de junho de 2026 às 15h57.
*SAN FRANCISCO - Por anos, o 'chão de fábrica', por assim dizer, da produção de software, em especial de aplicativos, seguiu uma divisão de trabalho básica: o designer de interface desenhava as telas, os desenvolvedores de front-end as transformavam em algo navegável e os de back-end cuidavam do que roda por trás. A entrada da inteligência artificial embaralhou esse arranjo, e a fronteira entre quem desenha e quem programa ficou turva.
É nesse ponto que entra o Figma. Conhecida pela relação quase passional que cultiva com a comunidade que usa seus produtos, a empresa vê agora na IA uma forma de devolver poder ao designer e, sobretudo, de garantir que aquilo que ele desenhou sobreviva intacto até a implementação, com controle direto do código dentro do próprio Canvas, o produto central da ferramenta onde o usuário cria as interfaces. Foi com essa tese, mais do que com um produto, que seu cofundador e CEO, Dylan Field, abriu o Config 2026.
Diante de mais de 10.000 pessoas na conferência anual da empresa, em San Francisco, Field gastou seus primeiros minutos defendendo uma visão sobre o que a inteligência artificial está fazendo com a criatividade e sobre o papel das pessoas nesse processo. A fala vale menos pelo anúncio e mais pelo enquadramento, que serve a qualquer profissional ou líder tentando entender o próprio momento.
Abaixo, quatro lições possíveis a partir da vala de Field:
O ponto central de Field foi uma autocrítica honesta. Anos atrás, ele havia previsto que a IA "baixaria o piso e elevaria o teto" — ou seja, facilitaria a entrada de iniciantes e, ao mesmo tempo, levaria os melhores a patamares mais altos. No palco, reconheceu que só metade da previsão se cumpriu: a IA de fato baixou o piso, tornando a criação acessível a muito mais gente, mas ainda não elevou o teto.
A lição para quem lidera é separar as duas coisas. Ferramentas de IA democratizam o acesso, mas acesso fácil não é o mesmo que resultado excelente. O que diferencia continua dependendo de gente, de repertório, critério e ambição, não do modelo que qualquer concorrente também pode usar.
Field cravou que a velha discussão sobre quando trabalhar em design e quando trabalhar em código é mal colocada. "Código não é o oposto do design, é material para o design", afirmou, anunciando que o próprio Figma deixaria de forçar essa escolha em sua ferramenta.
A lição extrapola o software de design. Boa parte das falsas escolhas que travam equipes, humanos ou agentes, comando de IA ou manipulação manual, velocidade ou capricho, são dicotomias inventadas.
Em vez de escolher um lado, o movimento mais produtivo costuma ser tratar cada opção como um material à disposição, combinável conforme o problema.
Um fio que atravessou todo o discurso foi a ideia de que nenhuma ferramenta, o Figma inclusive, fez questão de dizer, deveria limitar a capacidade de alguém de levar a criatividade adiante e tirar uma ideia do papel.
Para quem escolhe e implanta tecnologia nas empresas, é um lembrete útil: a pergunta certa não é o que a ferramenta faz, e sim o que ela impede. Processos, plataformas e fluxos que existem para dar eficiência muitas vezes acabam estreitando o que a equipe consegue imaginar.
Quando isso acontece, o gargalo deixou de ser a falta de talento e passou a ser a própria ferramenta.
Em vez de ignorar a ansiedade do setor, resumida nos bonés de "design is dead" que circulam em meio à euforia da IA generativa, Field a encarou de frente, apostando no movimento contrário: virão, segundo ele, uma explosão de criatividade, de disposição ao risco e de expressão ousada, e ela nascerá justamente das pessoas reunidas ali.
A leitura conversa com um dado que o próprio Figma divulgou no evento: a parcela de desenvolvedores que considera o design mais importante no trabalho saltou de 44% para 65% em um ano.
À medida que escrever código e gerar telas fica trivial, o valor migra para a camada mais difícil de automatizar, saber o que vale a pena construir e por quê.
*O jornalista viajou a convite da empresa.