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A Economia do 'Slop'

Segundo o Instituto IDEA, 46% das pessoas acreditam em narrativas falsas se elas reforçarem suas visões de mundo

A desinformação deixou de ser uma campanha isolada para virar infraestrutura permanente (Imagem gerada por IA)

A desinformação deixou de ser uma campanha isolada para virar infraestrutura permanente (Imagem gerada por IA)

Miguel Fernandes
Miguel Fernandes

Chief Artificial Intelligence Officer da Exame

Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 18h02.

Recentemente, um vídeo de venezuelanos chorando de alegria pela captura de Nicolás Maduro atingiu milhões de visualizações. O conteúdo era 100% gerado por inteligência artificial. Apesar de visualmente imperfeito, o que o mercado agora chama de "IA Slop" (chorume de IA), ele cumpriu sua missão.

A desinformação deixou de ser uma campanha isolada para virar infraestrutura permanente. A virada de chave ocorreu em novembro de 2024, quando o volume de conteúdo gerado por IA superou a produção humana. Em maio de 2025, dados da consultoria Five Percent AI confirmaram que 52% de todo o conteúdo digital já era sintético. Com custo de produção quase zero e distribuição infinita, a precisão tornou-se irrelevante diante do alcance.

O Cenário Brasil

No Brasil, o risco é amplificado pela escala. O país encerrou 2025 com 185 milhões de usuários de internet (86,9% da população), com projeção de chegar a 90,4% em 2026, segundo o IBGE. O perigo mora na "resiliência desigual": dados do CETIC.br (TIC Domicílios) mostram que o acesso via TV e celular superou o computador. Esse público consome informação de forma rápida e emocional, com baixíssima capacidade de checar fontes antes do compartilhamento viral.

Risco Operacional e Financeiro

Se você é líder de uma grande empresa, o "IA Slop" não é apenas um problema político; é um risco de balanço. Relatórios da TIVIT e do setor financeiro projetam que perdas por fraudes com IA generativa saltem de US$ 12,3 bilhões em 2023 para US$ 40 bilhões em 2027. O caso do funcionário que transferiu US$ 25 milhões após uma videochamada com executivos falsos ilustra como identidades sintéticas já causam prejuízos reais, US$ 200 milhões apenas no primeiro trimestre de 2025.

A proliferação de ataques é agressiva: o volume de deepfakes saltou de 500 mil em 2023 para 8 milhões em 2025, um crescimento anual de 900%. Ao mesmo tempo, a confiabilidade das ferramentas de defesa ainda é baixa.

O Fim do Filtro Crítico

O "IA Slop" funciona porque ataca o viés, não a razão. Segundo o Instituto IDEA, 46% das pessoas acreditam em narrativas falsas se elas reforçarem suas visões de mundo. A pergunta deixou de ser "isso é verdade?" para ser "isso serve ao meu lado?".

Não por acaso, o Fórum Econômico Mundial (WEF) classificou a desinformação como o maior risco global de 2026. Em um ano eleitoral, "softfakes" (memes e áudios emocionais) erodem a confiança e geram volatilidade instantânea para marcas e ativos.

No tempo da IA, 24 horas é uma eternidade. A resposta lenta é, por definição, a resposta errada. Em 2026, integridade de informação e velocidade da resposta institucional serão vantagens competitivas.

Fiz um vídeo discutindo essa questão aqui no YouTube. Assista nesse link. https://www.youtube.com/watch?v=xKvQmLT-cA8

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