Inteligência Artificial

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Ele criou a primeira IA conversacional nos anos 60 — e passou o resto da vida tentando destruí-la

Criador do ELIZA, um dos primeiros programas capazes de simular conversas humanas, Joseph Weizenbaum se tornou um dos maiores críticos da relação entre inteligência artificial, tecnologia e comportamento humano

Criador do ELIZA, Joseph Weizenbaum passou de pioneiro da IA conversacional a um dos maiores críticos da relação entre humanos e máquinas. (Getty Images)

Criador do ELIZA, Joseph Weizenbaum passou de pioneiro da IA conversacional a um dos maiores críticos da relação entre humanos e máquinas. (Getty Images)

Publicado em 3 de junho de 2026 às 06h12.

Muito antes de ChatGPT, Gemini ou Claude entrarem na rotina de milhões de pessoas, um cientista da computação já havia desenvolvido um sistema capaz de conversar com humanos — e se assustado com a forma como eles reagiram à máquina.

Nos anos 1960, o pesquisador alemão-americano Joseph Weizenbaum criou o ELIZA, programa considerado um dos primeiros exemplos de inteligência artificial conversacional. Décadas depois, porém, ele passaria a alertar sobre os riscos de permitir que computadores ocupassem espaços tradicionalmente humanos, especialmente em áreas ligadas à tomada de decisão, relações pessoais e saúde mental.

A IA que imitava um terapeuta

Desenvolvido em 1966 no MIT, o ELIZA foi criado inicialmente como um experimento simples de processamento de linguagem. O sistema utilizava padrões de texto para reformular frases digitadas pelos usuários, simulando uma conversa.

O modo mais famoso do programa imitava um psicoterapeuta rogeriano — abordagem baseada em devolver perguntas ao paciente. Se alguém escrevesse “estou triste”, por exemplo, o sistema poderia responder: “Por que você está triste?”.

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Tecnicamente, o funcionamento era relativamente simples. O programa não compreendia emoções, contexto ou intenção. Ainda assim, a reação das pessoas surpreendeu Weizenbaum.

O momento que mudou tudo

Segundo relatos do próprio pesquisador, usuários passaram a desenvolver vínculos emocionais com o sistema poucos minutos após começar a conversa. Algumas pessoas pediam privacidade para interagir com a máquina. Outras relatavam sentimentos pessoais ao programa, mesmo sabendo que estavam diante de um computador.

O episódio que mais marcou Weizenbaum aconteceu quando sua própria secretária pediu que ele saísse da sala para que pudesse continuar conversando com o ELIZA sozinha.

Para o pesquisador, aquilo revelou algo inquietante: humanos estavam dispostos a atribuir compreensão emocional a um sistema que apenas reorganizava frases.

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De pioneiro a crítico da inteligência artificial

O impacto do ELIZA fez Weizenbaum mudar radicalmente sua visão sobre tecnologia. Em vez de celebrar o potencial da inteligência artificial, ele passou a questionar os limites éticos da relação entre humanos e computadores.

Em O Poder dos Computadores e a Razão Humana, publicado em 1976, o cientista argumenta que certas decisões não deveriam ser delegadas às máquinas, independentemente do avanço tecnológico. Para ele, havia uma diferença importante entre aquilo que computadores podem fazer e aquilo que deveriam fazer.

Weizenbaum criticava especialmente a ideia de substituir julgamento humano por automação em áreas sensíveis. Também demonstrava preocupação com a tendência das pessoas de enxergar computadores como entidades capazes de compreender emoções ou exercer empatia genuína.

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Décadas depois, os alertas do criador do ELIZA voltaram ao centro do debate tecnológico. Com o crescimento das IAs generativas, usuários passaram a utilizar ferramentas conversacionais para desabafar, buscar aconselhamento emocional e até substituir interações humanas em parte da rotina.

O paradoxo se tornou inevitável: um dos homens responsáveis por abrir caminho para a IA conversacional terminou a vida tentando alertar o mundo sobre os riscos de confiar emocionalmente nela.

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