Carreira

A empresa mede clima. O treinador mede condições de jogo

O que podemos aprender com os grandes treinadores esportivos?

Seleção da Espanha, campeã da Copa do Mundo de Futebol de 2026: boas condições de performance valem para atletas e demais profissionais (Odd Andersen / AFP)

Seleção da Espanha, campeã da Copa do Mundo de Futebol de 2026: boas condições de performance valem para atletas e demais profissionais (Odd Andersen / AFP)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 30 de julho de 2026 às 17h54.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreDicas de carreira
Saiba mais

Por Rogério Chér, sócio fundador da Winx e da Devello

Há uma pergunta que tem me acompanhado por anos. Como é possível que uma empresa apresente bons indicadores de clima e, poucos meses depois, enfrente uma queda brusca de desempenho, aumento de erros, afastamentos por saúde mental, perda de talentos e equipes claramente exaustas? Se o clima era bom, o que aconteceu?

Talvez a resposta esteja justamente na pergunta incompleta.

Passamos décadas aprendendo a medir como as pessoas se sentem e a controlar com indicadores como elas entregam seus desempenhos. Mas quase nunca perguntamos em que condições elas estão para performar. Não temos esses dados, não olhamos para isso.

Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. No esporte de alto rendimento, nenhum treinador sério toma uma decisão apenas porque o atleta acordou motivado e se declara entusiasmado.

Interessa também uma outra pergunta: ele está em condição de competir hoje?

Isso muda completamente a conversa.

Um atleta pode se declarar feliz, confiante, comprometido e, ao mesmo tempo, estar absolutamente incapaz de entregar seu melhor desempenho amanhã. Por quê?

Dormiu pouco, acumulou fadiga, o consumo de álcool e a alimentação não ajudaram, ele ainda não se recuperou do último esforço. Seu organismo simplesmente não está pronto.

O treinador sabe disso. Por isso ele mede a capacidade de competir de cada um dos seus atletas.

No mundo corporativo, fazemos o contrário. Medimos satisfação, engajamento, pertencimento e relacionamento com a liderança. Tudo isso importa, muito! Mas, isoladamente, nada disso responde à pergunta mais importante: essa pessoa tem condições reais de produzir um grande trabalho hoje? Nessa semana? Nos próximos dias?

Imagine um executivo que acabou de responder à pesquisa de clima. Ele declara sentir orgulho da empresa, acredita na estratégia, admira sua liderança e afirma expressamente que recomendaria a organização para um amigo.

Dias depois, esse mesmo profissional começa a esquecer compromissos, perde velocidade de raciocínio, aumenta sua irritabilidade, toma decisões piores e passa a trabalhar cada vez mais horas para produzir cada vez menos.

O que mudou provavelmente, não foi o clima. Foi sua condição, sua capacidade humana disponível.

A empresa continua olhando para a fotografia. Enquanto a fisiologia já mudou completamente.

Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre administrar pessoas e preparar equipes para alta performance. É nisso que nós, da Winx estamos estudando com profundidade em nossas frentes de inovação.

Clima organizacional é uma fotografia relevante. Não vale a pena abrir mão dela. Condição de jogo é, por outro lado, um filme.

Clima captura percepção. Condição revela capacidade. Clima mostra como as pessoas interpretam o ambiente. Condição mostra o quanto aquele organismo ainda consegue responder às exigências desse ambiente.

São coisas diferentes e complementares.

Tenho a impressão de que criamos uma falsa sensação de segurança quando confundimos uma variável com a outra.

É perfeitamente possível encontrar equipes engajadas e esgotadas. Trata-se do custo de se engajar.

Aliás, isso talvez seja mais comum do que imaginamos. São pessoas que continuam acreditando no propósito, vestindo a camisa, entregando tudo o que podem. Até o momento em que deixam de conseguir. Não porque perderam vontade. Mas porque perderam capacidade.

E capacidade não desaparece de uma hora para outra. Ela vai sendo drenada silenciosamente. Como acontece com qualquer atleta durante uma temporada.

Nenhum treinador espera a lesão para concluir que houve excesso de carga. Ele observa sinais muito antes. Pequenas alterações, oscilações, mudanças discretas que, isoladamente, parecem irrelevantes, mas que, quando observadas em conjunto, contam uma história.

No ambiente corporativo, ainda somos especialistas em perceber o problema quando ele já virou consequência. Quando a produtividade caiu, quando a pessoa pediu demissão, o burnout apareceu, o erro aconteceu.

É como descobrir que o motor estava superaquecendo apenas depois que fundiu.

Talvez estejamos olhando para os indicadores de modo imperfeito. Ou, pelo menos, olhando apenas para metade deles.

Performance não nasce na hora do jogo

Clima e engajamento continuarão sendo importantes. Sempre serão. A questão é que nenhuma equipe vence um campeonato apenas porque está feliz. Ela vence porque consegue transformar bem-estar em capacidade de competir repetidamente.

Essa é a diferença. O treinador não administra apenas emoções. Ele administra disponibilidade, capacidade, gerencia recuperação, controla carga, preserva energia da equipe em certos momentos, acompanha ritmo para garantir que seja sustentável, observa sinais que antecedem o desempenho.

No fundo, entende que performance não nasce na hora do jogo. Nasce muito antes: no modo como aquela equipe chega ao jogo.

Talvez esteja chegando o momento de fazermos a mesma pergunta dentro das empresas. Não apenas como as pessoas estão se sentindo. Mas, principalmente:

Em que condições elas estão para entregar aquilo que esperamos delas?

Uma organização pode ter um excelente clima. E, ainda assim, colocar diariamente em campo uma equipe sem condição de jogo.

E essa é uma partida que, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo perdida.

Precisamos mudar a forma como enxergamos esse jogo.

Acompanhe tudo sobre:Dicas de carreira

Mais de Carreira

Ela virou CEO da Uber aos 33 anos e ainda é motorista pelo aplicativo

Um ano depois da China, o que mudou na vida dos vencedores do Prêmio Na Prática

Robôs que fazem entrega e privada que conversa: o que os vencedores do Na Prática viram na China

Como eles ganharam uma viagem para a China? Conheça os vencedores do Prêmio Na Prática