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Opinião: o SaaS não vai morrer, mas vai mudar de valor graças à IA

Agentes autônomos deslocam valor das interfaces para a orquestração e pressionam licenças por usuário no mercado de software

A IA agêntica desloca o valor das telas para a orquestração de sistemas e desafia o modelo tradicional de software corporativo (Gorodenkoff/Shutterstock)

A IA agêntica desloca o valor das telas para a orquestração de sistemas e desafia o modelo tradicional de software corporativo (Gorodenkoff/Shutterstock)

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Publicado em 25 de agosto de 2026 às 10h00.

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Por Rodrigo Bornholdt, CTO da Zappts.

Nas últimas décadas, a jornada de transformação digital das empresas seguiu uma cartilha simples: comprar licenças de software especializado para que as pessoas pudessem trabalhar, organizar seu trabalho, organizar os dados, padronizar operações, etc.

O orçamento de TI cresceu acompanhando o número de usuários e o modelo de Software como Serviço (SaaS) virou padrão absoluto de produtividade. Porém, essa dinâmica começou a mudar.

Recentemente, o Gartner soou um alarme: até 2030, US$ 234 bilhões em gastos com aplicações corporativas estarão expostos à chamada arbitragem agêntica.

O mercado logo entrou em pânico, batizando o movimento de SaaSocalypse, a suposta extinção do software corporativo como o conhecemos. Mas essa leitura é precipitada.

O próprio Gartner projeta que esse montante representará cerca de 20% dos gastos com software corporativo até o fim da década, ou seja, quatro quintos do mercado seguem de pé.

O que vivemos hoje é a redistribuição de valor econômico desde a popularização da nuvem.

Pela primeira vez, a pergunta central de um CEO não é “qual ferramenta devemos comprar?”, mas sim: “se a Inteligência Artificial bem projetada executa processos com confiança, por que continuamos pagando bilhões por licenças focadas em pessoas navegando em telas?”.

A migração do valor da tela para a orquestração

Durante anos, dashboards, menus e formulários dominaram o trabalho. A IA Agêntica inverte isso. A interface gráfica deixa de ser o centro.

O trabalho pesado passa para agentes autônomos que consultam sistemas, aplicam regras de negócio e concluem operações por trás dos bastidores.

O usuário, por sua vez, interage por onde já está acostumado: WhatsApp, Teams ou Slack. O software corporativo fica invisível.

Nesse cenário, a arquitetura de sistemas muda de foco: em vez de priorizar telas pesadas e fluxos rígidos, a tecnologia passa a focar na conexão direta e transparente entre plataformas. O trabalho ganha agilidade e acontece sem interrupções.

Os agentes entram em ação a partir de comandos simples, executam as regras de negócio nos bastidores dos negócios e entregam o resultado pronto, sem que o usuário precise esperar que os sistemas carreguem ou travem sua rotina.

Essa transição já acontece na prática.

No setor financeiro, por exemplo, a navegação manual em CRMs complexos vem sendo substituída por interações via chat ou células autônomas, onde agentes atualizam dados nos bastidores.

O mesmo ocorre na logística, onde a cotação de fretes passou a ser orquestrada por agentes via API, eliminando gargalos de prazo e reduzindo drasticamente o tempo de resposta.

Em ambos os cenários, a virada de chave não vem de uma interface mais bonita, mas da inteligência rodando em segundo plano.

Essa mudança divide o mercado. Ferramentas de helpdesk básico, formulários de aprovação e os chamados "softwares wrapper" (que só servem para deixar um sistema antigo mais bonito) estão perdendo relevância.

Se um agente resolve o problema na raiz, a camada intermediária vira apenas um custo inútil.

Não por acaso, o Gartner classifica o movimento como uma ameaça existencial para fornecedores que ainda se apoiam em dashboards legados e no licenciamento por usuário. Por outro lado, sistemas estruturais (como ERPs e Core Bankings) ganham ainda mais poder.

São eles que guardam as regras e o compliance. A IA Agêntica usa essa infraestrutura como fonte de verdade, transformando a aplicação em uma fundação invisível e segura.

A monetização também precisa mudar

Se o valor deixou a interface e migrou para a orquestração, o modelo de cobrança também precisa mudar. O formato de licenças por assento (pay-per-seat) foi criado para medir quantas pessoas acessavam o sistema.

No entanto, o modelo já dava sinais de esgotamento. É o que revela o estudo SaaS Management Index, da Zylo.

O relatório aponta que as empresas utilizam, em média, apenas 54% das licenças pelas quais pagam.

Ou seja, se quase metade do orçamento já era jogada fora com usuários inativos, a chegada de agentes autônomos que fazem o trabalho de ponta a ponta torna a contagem de assentos uma métrica completamente obsoleta.

O futuro está nos modelos baseados em consumo, pagamento por resultados ou licenças focadas apenas em acesso de sistemas, não de pessoas.

É aqui que o executivo vai suar a camisa: O modelo tradicional de custo fixo era previsível. Agora, o Custo Global (TCO) vai depender do volume de dados e transações.

O paradoxo é que quanto mais escalável e inteligente a operação se torna, mais difícil é prever a fatura no fim do mês.

O que fazer agora?

Abandonar o legado não é a resposta. As empresas que vão liderar essa transição são aquelas que souberam preservar suas bases tecnológicas enquanto deslocam a inteligência para uma camada de orquestração. Como? Por meio de quatro pilares:

1. Revisar o portfólio de aplicações sob uma nova lógica. Mais do que identificar “camadas intermediárias”, é preciso distinguir quais aplicações concentram a lógica estrutural de negócio e quais atuam apenas como camada de interação.

Em um mercado agêntico, a primeira categoria vira a fundação indispensável da empresa, enquanto a segunda deixa de fazer sentido.

2.Preservar os sistemas de registro e desacoplar o legado. ERPs, plataformas financeiras e os sistemas que concentram os processos críticos da empresa continuarão sendo o núcleo da operação.

A vantagem competitiva está em criar uma camada de orquestração inteligente que se conecta a esses sistemas sem precisar reconstruir o que já funciona. Essa estrutura atua como uma tradutora entre a inteligência artificial e as plataformas legadas da empresa.

Para garantir total segurança, a regra de ouro é respeitar a matriz original de permissões de cada funcionário.

Assim, ao interagir por chat, o agente de IA opera como um verdadeiro representante do usuário, herdando exatamente os mesmos acessos e limites que ele teria se estivesse navegando na ferramenta tradicional.

3. Tratar a governança como requisito de negócio. Agentes autônomos precisam operar em nome do usuário, respeitando políticas de segurança e exigências regulatórias. Em um mundo agêntico, a confiança é a regra do jogo.

Na prática, isso exige uma postura de segurança contínua, associada a barreiras rígidas de controle que delimitam até onde a IA pode decidir sozinha e a registros históricos detalhados de cada ação executada.

4. Fortalecer a fundação de dados. Nenhum agente será mais inteligente do que o contexto. Dados fragmentados e inconsistentes limitam a capacidade de interpretação e, sobretudo, a decisão da IA.

Uma fundação moderna rompe esses silos ao conectar o agente diretamente aos documentos oficiais e atualizados da própria empresa.

O sistema precisa ler, cruzar e validar os dados corporativos em tempo real para garantir respostas precisas; caso contrário, em vez de automatizar processos, a inteligência artificial apenas inventa informações no escuro.

O alerta de US$ 234 bilhões do Gartner não decreta o fim do SaaS, mas aponta para onde o dinheiro está indo agora.

Durante décadas, as empresas pagaram pela aplicação e pela interface acessível a cada usuário. Hoje, o valor está na capacidade de orquestrar sistemas invisíveis de ponta a ponta.

Os investimentos em inteligência artificial não vão parar.

A diferença é que os líderes que entenderem essa mudança de eixo vão enxugar orçamentos obsoletos de TI e, finalmente, capturar o verdadeiro valor da era agêntica.

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