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André Portilho e Roberto Sallouti, do BTG Pactual, e Michael Shaulov, da Fireblocks, na Brazil House, em Davos: executivos debateram como tokenização, stablecoins e IA estão redesenhando o futuro do dinheiro (Brazil House/Divulgação)
Editora de projetos especiais
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 19h36.
Última atualização em 30 de janeiro de 2026 às 19h36.
* De Davos, na Suiça
As stablecoins deixaram de ser um experimento do mercado cripto para entrar de vez na engrenagem do sistema financeiro global. Em painel no Fórum Econômico Mundial, em Davos, executivos do BTG Pactual e da Fireblocks defenderam que a tokenização do dinheiro já funciona como infraestrutura operacional — e que bancos que não se adaptem correm o risco de ficar fora do próximo ciclo de crescimento.
A trajetória recente do BTG Pactual ajuda a explicar por que o debate saiu do campo teórico. Até meados da década passada, o banco operava majoritariamente no atacado, com foco em grandes clientes e pouca presença no varejo. A virada começou quando mudanças regulatórias e avanços tecnológicos abriram espaço para um modelo totalmente digital.
“Até 2015 ou 2016, éramos um banco de investimento financiado no atacado. Sempre olhávamos para os concorrentes com agências físicas e sentíamos inveja — eles tinham depósitos de varejo, nós não”, afirmou Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual.
A possibilidade de abertura digital de contas e a popularização do smartphone mudaram o jogo. Sem o peso de sistemas legados, o BTG decidiu construir um banco universal digital desde o início. “Não viramos um banco digital — viramos um banco de tecnologia”, disse Sallouti. “Já estávamos na nuvem, tudo via APIs, com dados organizados. Quando a IA ficou utilizável, nós já estávamos prontos.”
O resultado foi uma expansão acelerada. Hoje, mais de 35% do funding do banco vem do varejo, com crescimento consistente de receita e lucro nos últimos cinco anos — movimento que, segundo o CEO, só foi possível pela escala que a tecnologia permitiu.
Para os painelistas, a tokenização demorou a ganhar tração por um motivo simples: faltava dinheiro nativo na blockchain. Esse gargalo começou a ser resolvido com a ascensão das stablecoins. “Não faz sentido tokenizar ativos se você não consegue comprar, vender, pagar dividendos ou executar ações corporativas de forma programável”, explicou Michael Shaulov, fundador e CEO da Fireblocks, empresa de infraestrutura de ativos digitais que atende bancos e instituições financeiras globais. “O que mudou tudo foram as stablecoins. Quando o dinheiro passou a existir on-chain, o mercado de ativos tokenizados saiu do zero e virou um gráfico em formato de taco de hóquei.”
A Fireblocks nasceu justamente para resolver outro problema crítico desse novo ecossistema: segurança. Com origem no setor de cibersegurança, Shaulov identificou cedo que o mercado sabia custodiar criptoativos, mas não transacioná-los de forma segura. “A blockchain permite mover valor como se move informação. O problema é que, sem segurança transacional, você não cria uma internet do valor”, afirmou.
Hoje, a plataforma da empresa protege trilhões de dólares em transações envolvendo stablecoins, bitcoin, depósitos tokenizados e outros ativos digitais.
Se tecnologia e demanda avançaram, a regulação segue como o principal campo de disputa. Para Sallouti, o maior risco não é a inovação, mas a assimetria regulatória. “A maior ameaça para bancos como o nosso é sermos arbitrados para fora do desenvolvimento do negócio”, disse. “Se um player não regulado pode fazer algo que nós não podemos, ele cresce, vira mercado e, quando a regulação chega, nós chegamos atrasados.”
Shaulov concorda. Nos Estados Unidos, regras pensadas para o sistema tradicional ainda travam a tokenização em escala. “Mesmo que a blockchain seja um banco de dados mais resiliente e transparente, o regulador ainda exige que tudo seja replicado em sistemas legados. Isso mata o caso de uso da tokenização nativa”, afirmou. Segundo ele, esse modelo já começa a ser questionado por reguladores.
Apesar do entusiasmo, a transição não deve ser abrupta. A mudança, dizem, será gradual e quase imperceptível para o usuário final. “Para o investidor, pouco importa se o ativo é liquidado via blockchain ou não. Ele só quer apertar um botão no aplicativo”, disse Sallouti. “Isso será muito mais back-end do que front-end.”
Na visão do BTG, ações estão entre as próximas grandes classes de ativos a serem tokenizadas, à medida que a regulação avance. Até lá, o banco se prepara. “Meu trabalho é garantir que a empresa esteja perto da árvore quando a maçã cair”, resumiu o CEO.
Olhando para os próximos cinco anos, a convergência entre inteligência artificial e blockchain apareceu como um dos pontos mais concretos do debate. “As pessoas acham que IA e blockchain juntas é papo de buzzword, mas não é”, disse Shaulov. “Os dados em blockchain são organizados, estruturados e programáveis. Isso é perfeito para agentes de IA.”
Segundo ele, já é possível usar inteligência artificial para analisar posições, pagamentos e riscos em tesourarias que operam com ativos tokenizados. “Em poucos anos, CFOs vão gerir tesourarias inteiras com agentes de IA. Isso vai virar o novo normal.”
No fim, a mensagem que ecoou em Davos foi menos sobre cripto e mais sobre infraestrutura. Stablecoins, tokenização e IA deixaram de ser apostas futuristas — e passaram a integrar o desenho do sistema financeiro que já está sendo construído. Quem esperar demais pode não chegar a tempo.