(Reprodução/Reprodução)
Redação Exame
Publicado em 2 de maio de 2026 às 11h00.
Nos últimos dois anos, as stablecoins deixaram de ser um nicho para se tornarem infraestrutura. A capitalização de mercado já ultrapassou US$ 260 bilhões, e os volumes de transações internacionais continuam acelerando. Ainda assim, o setor segue fazendo a pergunta errada.
A conversa permanece focada no ativo em si, como as stablecoins funcionam, como são lastreadas, como são negociadas. Para instituições financeiras, porém, isso não é o mais importante. O que realmente importa é se as stablecoins podem operar como uma solução financeira completa, de ponta a ponta. Porque, na prática, uma stablecoin não é um produto. É toda uma cadeia de valor.
No Brasil, essa lacuna é particularmente evidente. As stablecoins ainda são amplamente associadas a usuários nativos de cripto, traders e early adopters. Mas eles representam apenas uma fração do potencial.
Fluxos globais de câmbio e remessas movimentam trilhões de dólares todos os anos, e a grande maioria ainda é liquidada em moeda fiduciária.
A razão é simples: empresas não operam em tokens. Elas operam em ambientes regulados.
Elas precisam integrar clientes, cumprir regulamentações locais, conectar-se a sistemas bancários, gerenciar liquidez e garantir que os recursos cheguem em moeda local ao destino final. Sem essa jornada completa, velocidade por si só não basta.
As stablecoins prometem pagamentos mais rápidos, baratos e transparentes. Mas, sem a infraestrutura ao redor, essa promessa permanece incompleta.
Após anos trabalhando com instituições financeiras na América Latina, uma coisa ficou clara: a barreira para adoção não é tecnológica. É operacional e regulatória.
Quando conversamos com bancos, a primeira pergunta não é sobre blockchain. É muito mais básica: como isso se encaixa no meu ambiente regulatório e operacional?
É aqui que muitas iniciativas falham.
Emitir um token é apenas uma parte da equação. As instituições precisam de custódia, processos de KYC, conformidade cambial, integração com sistemas legados, relatórios e suporte operacional contínuo. Sem isso, a stablecoin se torna um ativo isolado, eficiente na teoria, mas difícil de usar em escala.
Os projetos que realmente ganham tração são aqueles que tratam stablecoins não como produtos isolados, mas como infraestrutura financeira regulada.
O Brasil está entrando em uma nova fase. O Banco Central introduziu um marco regulatório abrangente para provedores de serviços de ativos virtuais (VASPs), cobrindo governança, segregação de ativos, cibersegurança e conformidade cambial.
Mais importante: transações envolvendo stablecoins lastreadas em moeda fiduciária passam agora a ser tratadas como operações de câmbio.
Para as instituições, isso traz algo que o mercado aguardava há muito tempo: clareza.
Regras claras geram confiança. E confiança impulsiona a adoção.
Por isso, a conformidade não deve ser vista como uma limitação, mas como uma vantagem competitiva. É ela que permite que as stablecoins deixem o campo da experimentação e avancem para o uso real em escala.
O Brasil já demonstrou como é uma infraestrutura de pagamentos de classe mundial.
Sistemas como o Pix estabeleceram um padrão global em termos de velocidade, eficiência e experiência do usuário, mostrando como sistemas complexos podem se tornar invisíveis para o usuário final.
O próximo desafio, no entanto, é diferente. Não se trata de replicar o Pix com stablecoins, mas de aplicar os mesmos princípios - simplicidade, eficiência e confiabilidade - aos pagamentos internacionais.
O futuro das stablecoins na América Latina não será definido por quem cria o melhor token, mas por quem entrega a melhor experiência de ponta a ponta.
Instituições financeiras não buscam um único ativo ou uma única rede. Elas caminham para um mundo multiativo e multirrede, onde a interoperabilidade é essencial.
O papel dos provedores de infraestrutura é simplificar essa complexidade, conectando o sistema financeiro tradicional aos ativos digitais, garantindo conformidade e viabilizando a movimentação fluida de valor entre fronteiras.
As stablecoins são uma parte importante dessa evolução. Mas seu impacto real não virá da tecnologia em si, e sim da capacidade de torná-la invisível.
*Silvio Pegado é Managing Director para América Latina na Ripple, empresa global de infraestrutura financeira baseada em blockchain. Baseado em São Paulo, lidera a estratégia de pagamentos, custódia e stablecoins da empresa na região.
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