Jogadores do Manchester City celebram a conquista da Premier League em maio de 2018, temporada que esteve no centro das investigações financeiras. (Giuseppe Maffia/NurPhoto via Getty Images)
Redator na Exame
Publicado em 5 de outubro de 2026 às 15h28.
RESUMO | Uma reportagem detalhada do The Athletic revela os bastidores do veredito histórico que considerou o Manchester City culpado pela maioria das acusações da Premier League, incluindo mais de 830 milhões de libras em financiamento ilícito oculto, reabrindo a maior batalha jurídica da história do esporte.
Tudo começou com um e-mail aparentemente inofensivo, enviado em uma manhã de quarta-feira de janeiro de 2017. Poucos dias antes, o Manchester City havia goleado o West Ham por 5 a 0 na terceira fase da Copa da Inglaterra, em uma partida que marcou a primeira temporada de Pep Guardiola no comando da equipe. Ícones da ascensão dos Citizens ao topo do futebol inglês, como Yaya Touré, David Silva e Sergio Agüero, deixaram suas marcas na goleada. No entanto, a mensagem digital recebida por um alto dirigente do clube anunciaria o início de uma era completamente nova e turbulenta na história da instituição.
Segundo o The Athletic, a mensagem indicava a chegada de um relatório de conformidade financeira supostamente enviado por um funcionário da UEFA. Ao clicar no link de download, o dirigente deu início a uma brecha catastrófica. O remetente real não era o órgão regulador europeu, mas sim o hacker e ativista português Rui Pinto, que realizou uma bem-sucedida tentativa de phishing. Os servidores do clube foram invadidos, permitindo que Pinto extraísse milhares de e-mails e documentos confidenciais dos sistemas internos.
Esse vazamento mostrava se o Manchester City havia tentado de forma deliberada e sistemática burlar as regras de fair play financeiro da UEFA e, posteriormente, da Premier League. Em 2020, o comitê adjudicatório da UEFA inicialmente baniu o City das competições europeias por dois anos, mas a punição foi revertida após recurso no Tribunal Arbitral do Esporte (CAS).
Agora, quase uma década após o primeiro clique no e-mail de Pinto, um painel independente da Premier League concluiu o julgamento e considerou o City culpado em quase todas as acusações formalizadas.
De acordo com oThe Athletic, o painel independente concluiu que o Manchester City disfarçou mais de 830 milhões de libras (cerca de 1,1 bilhão de dólares) em financiamentos ilícitos, criou acordos de direitos de imagem de fachada com terceiros e escondeu o montante real de contratos de funcionários.
Enquanto a investigação da UEFA esbarrou em limitações de prazos de prescrição, a Premier League tinha jurisdição e prerrogativas para exigir a entrega de documentos sob o processo de revelação de provas (disclosure). Fontes ouvidas pelo The Athletic relataram que a primeira metade de 2021 foi marcada por um embate feroz. A liga exigiu o escaneamento de milhões de documentos, enquanto o clube tentou restringir ao máximo o escopo da busca, alegando irrelevância ou confidencialidade comercial.
Inicialmente, o City utilizou plataformas restritas de servidores que impediam a cópia de textos e monitoravam o acesso dos investigadores da Premier League, o que atrasou o avanço das apurações. Contudo, vazamentos adicionais publicados pelo jornal alemão Der Spiegel em abril de 2022 revelaram que documentos obtidos por Rui Pinto não haviam sido entregues nos relatórios de conformidade exigidos. Em sua decisão final, o painel independente destacou que o clube realizou esforços concertados para frustrar a investigação, sendo responsabilizado por várias acusações de falta de cooperação.
A gravidade das conclusões do painel independente reside não apenas na escala e na duração das irregularidades ao longo de nove anos, mas também no impacto direto sobre temporadas competitivas cruciais. De acordo com o The Athletic, os investigadores argumentam que o Manchester City violou os limites de sustentabilidade financeira em quase 100 milhões de libras apenas na temporada 2017-18 — justamente o ano que marcou a consolidação do primeiro título da era Pep Guardiola na Premier League.
Para efeito de comparação, punições recentes aplicadas a clubes como o Everton por desvios consideravelmente menores resultaram em pesadas deduções de pontos e custosas batalhas judiciais de reparação. A magnitude das infrações atribuídas ao City abre margem para sanções severas, cuja definição será debatida em uma nova audiência marcada para ocorrer o mais breve possível.
A apuração detalhou o veredito de um painel independente da Premier League que considerou o clube culpado de ocultar mais de 830 milhões de libras em financiamento ilícito e burlar regras financeiras.
O escândalo começou em janeiro de 2017 a partir de um ataque cibernético de phishing executado pelo hacker português Rui Pinto, cujos dados foram divulgados pelo jornal alemão Der Spiegel.
A criação de contratos de imagem fictícios, a ocultação do verdadeiro valor de contratos de funcionários e o uso de patrocínios de fachada para mascarar injeções de capital da propriedade do clube.
Após apresentar um recurso formal contra o veredito, o Manchester City enfrentará uma nova audiência específica para a definição das sanções aplicáveis pela Premier League.