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Trens elétricos e autônomos: a aposta da Rumo para cortar 62 mil toneladas de CO2

Com locomotivas híbridas e sistemas semiautônomos, gigante do transporte ferroviário aposta em eficiência energética para reduzir emissões em 21% até 2030

A companhia também tem captado recursos no mercado de capitais com compromissos ambientais atrelados (Rumo/Divulgação)

A companhia também tem captado recursos no mercado de capitais com compromissos ambientais atrelados (Rumo/Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 17h06.

Mais cargas em menos viagens — e com menos emissões: essa é a premissa da Rumo, gigante do transporte ferroviário. A companhia atua há 10 anos e já chega a mais de 14 mil quilômetros de ferrovias ao longo de nove estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e Tocantins. Hoje, a empresa é uma das principais responsáveis pelo transporte pesado ligado ao agronegócio, com mais de 1.400 locomotivas e 35 mil vagões.

No lado ambiental, a principal meta da Rumo é reduzir suas emissões específicas em 21%, valor que deve ser alcançado até 2030, com base nos dados de 2020. Até o momento, a queda acumulada já soma 12%, mas o histórico desde a criação da empresa, em 2015, chega próximo aos 30% de redução nas emissões.

A estratégia, de acordo com Natalia Marcassa, vice-presidente de Regulatório, Institucional e Comunicação da Rumo, passa por duas frentes principais: aumentar o volume transportado em cada viagem, reduzindo a quantidade de composições necessárias, e aprimorar a eficiência energética a partir de tecnologias de ponta.

A vantagem da ferrovia

Uma única viagem com a Rumo é equivalente a tirar 258 caminhões da rodovia. E os números mostram por que isso importa: responsável por cerca de 20% do transporte pesado no Brasil hoje, o modal ferroviário emite quase 8 vezes menos do que o rodoviário — que corresponde a quase 65% do mercado e a cerca de 90% das emissões do setor.

O impacto é significativo. O setor de transportes é responsável por cerca de 11% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, próxima da casa de 260 milhões de toneladas de CO2 ao ano, segundo dados da Coalizão para a Descarbonização dos Transportes.

Para Marcassa, a descarbonização está no DNA da Rumo por uma razão muito prática: competitividade. O combustível representa 40% da composição de custos da operação, o que significa que qualquer ganho em eficiência energética se traduz diretamente em economia e maior competitividade no mercado.

Trens maiores, muito mais tecnologia

A companhia investiu para aumentar a quantidade de material transportado em cada composição. Há alguns anos, um trem médio da Rumo tinha 80 vagões. Hoje, chega a 135 vagões — e para alcançar isso, foi necessário muito mais do que simplesmente adicionar mais cargas aos trilhos.

"Podem até achar que a ferrovia é uma indústria antiga, mas para rodar com a eficiência e volumetria que a gente anda hoje, é muita tecnologia envolvida", explica Marcassa.

"Uma coisa era a ferrovia de 150 anos atrás, que competia com uma mula. Hoje a gente compete com caminhão na autoestrada."

Cada composição da Rumo conta atualmente com mais de 130 sistemas embarcados que monitoram, em tempo real, onde há perda de eficiência energética, onde os ativos estão sendo exigidos além do necessário e como otimizar o consumo de combustível.

Muito disso é pura física aplicada à logística. O trecho entre o interior e o porto de Santos, por exemplo, é acidentado, com rampas e curvas acentuadas. Para lidar com essa geografia desafiadora, a Rumo distribui locomotivas estrategicamente no começo, no meio e no final dos trens, equilibrando as forças de acordo com o peso por eixo, o centro de gravidade e o relevo do terreno.

Essa distribuição complexa de forças é gerenciada por um sistema chamado Trip Optimizer, que opera de forma semiautônoma. "Seria humanamente impossível para um maquinista fazer isso. Com a tecnologia, conseguimos rodar até 70% da rota de maneira autônoma", diz Marcassa. "Os maiores pontos em que usamos a condução humana são na arrancada e na frenagem. No 'voo de cruzeiro', quando a direção se estabiliza, é quase 100% automático, o que economiza muito combustível."

Além disso, a empresa desenvolveu ligas de materiais mais leves para as locomotivas e vem aprimorando as tecnologias ao longo dos anos para ganhar eficiência em cada etapa da operação.

Locomotiva híbrida: o próximo passo

A Rumo acaba de acessar um financiamento de R$ 350 milhões do BNDES, via Fundo Clima, para adquirir seis locomotivas híbridas e pelo menos 160 vagões-tanque. O projeto tem como objetivo expandir a logística de cargas de biocombustíveis, com destaque para o etanol de milho, no Centro-Oeste, ampliando a capacidade de transporte em 928 mil m³ por ano — 32% a mais em relação ao volume de biocombustíveis transportado em 2024.

As locomotivas híbridas combinam motor a combustão interna (diesel) e motor elétrico alimentado por baterias, permitindo diferentes modos de operação com maior eficiência energética. O motor de combustão atua em regimes ótimos para gerar eletricidade ou fornecer tração direta, enquanto o sistema elétrico complementa a potência, reduz picos de consumo e armazena energia recuperada por frenagem regenerativa.

Com a tecnologia híbrida e a substituição do modal rodoviário pelo ferroviário, o projeto estima a redução de 62,3 mil toneladas de CO2 por ano. "A adoção de tração híbrida representa a alternativa tecnológica mais viável de descarbonização da matriz ferroviária no curto e médio prazo por ter menor custo de implementação e menor dependência de obras civis complexas", afirma Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, em nota.

Para Marcassa, a inovação é essencial para avançar na descarbonização, mas esbarra em um problema estrutural: financiamento. "Como tudo na vida, é dinheiro e financiamento. Desenvolvimento tecnológico depende de maturação, de tempo, e o payback não é imediato", explica. "Ter linhas próprias para isso, com permissão para errar e apetite para inovar, é muito importante."

Ela compara o processo de inovação a um "tiro de espingarda": algumas iniciativas funcionam, outras não, mas todas custam. A Rumo investe cerca de R$ 6 bilhões por ano. Como comparação da dimensão do desafio, o Fundo Clima inteiro investe cerca de R$ 11 bilhões anuais para investir em todos os projetos.

Impactos além do carbono

A operação da Rumo também gera impactos ambientais que vão além das emissões de CO2. Com malha férrea passando por cerca de 500 municípios, a empresa precisa lidar com uma série de questões territoriais em suas licenças de instalação.

Entre os principais desafios estão a gestão de ruídos — já que os trens são naturalmente barulhentos —, o impacto na fauna local, o uso racional de água com estações de tratamento, e a gestão rigorosa de resíduos gerados nas obras e na operação, que envolvem concreto e aço em grande escala.

No Mato Grosso, onde a empresa está construindo uma nova ferrovia do zero, as medidas compensatórias são robustas. O primeiro trecho conta com viadutos vegetados para que animais possam atravessar por cima da linha férrea, além de mais de 2 mil passagens subterrâneas para a fauna noturna, reduzindo tanto o risco de atropelamentos quanto o impacto na migração dos animais.

No terminal de Rondonópolis, a Rumo conseguiu atingir a marca de 99% de resíduos coprocessados, chegando ao aterro zero — um feito significativo para uma obra de grande porte. "Desafio que pra colocar de pé não é pouca coisa", diz Marcassa.

A companhia também tem captado recursos no mercado de capitais com compromissos ambientais atrelados. "Temos captado muito green bond, com metas vinculadas. Se não cumprirmos as metas, a taxa de juros sobe. Então estamos trabalhando também para acessar o mercado de capitais no Brasil e fora, sempre com essas metas atreladas", afirma.

Transportar mais, emitir menos

A aposta em sustentabilidade não é apenas uma questão ambiental, mas de competitividade e crescimento. "Temos certeza de que a melhor maneira de ter eficiência e entregar um produto melhor para o cliente é olhar para essas novas tecnologias de diminuição de emissão e consumo. No fundo, isso gera preço melhor e traz competitividade", diz Marcassa.

Os números da operação comprovam a estratégia: em 2020, a Rumo transportou 50 bilhões de TKU (toneladas por quilômetro útil). No ano passado, esse volume saltou para 84 bilhões de TKU. Ou seja, a empresa está transportando significativamente mais carga e, ao mesmo tempo, reduzindo suas emissões específicas.

Entre as próximas metas da companhia está a ampliação da Malha Paulista, ferrovia centenária que corta o estado de São Paulo. O objetivo é quase dobrar a capacidade de transporte, saindo de cerca de 40 milhões de TKU em 2020 para 70 milhões em 2032. Para isso, a Rumo está investindo em duplicação de vias, ampliação de pátios de segregação e eliminação de passagens em nível — aqueles cruzamentos onde a ferrovia intercepta ruas e avenidas.

"Como a malha é antiga, tem muitas passagens em nível. Eliminar esses conflitos urbanos traz melhoria na fluidez, diminui acidentes e reduz emissões de carbono porque o trem passa de forma mais fluida", explica a executiva.

Ferrovia como motor da descarbonização

Para Marcassa, o papel da ferrovia no Brasil vai muito além da operação individual da Rumo. "Podemos adicionar a tecnologia que for para reduzir emissões específicas dos caminhões, mas o que realmente pode fazer a diferença é tirar o transporte da rodovia e colocar na ferrovia. Ter mais quilômetros de trilhos, esse é o caminho real para o tipo de carga que a gente transporta: grãos, farelo de soja, commodities agrícolas e minério", defende.

A executiva ressalta que o agronegócio brasileiro — setor que a Rumo atende diretamente — é altamente competitivo da porteira para dentro, mas perde eficiência da porteira para fora. "São cadeias em que o Brasil faz barba, cabelo e bigode lá fora. Para chegar no porto e no destino final com competitividade, a logística precisa funcionar. E a ferrovia ainda tem pouca visibilidade na sua relevância para isso."

O combustível utilizado hoje nos trens já é uma mistura que inclui 14% de etanol ao diesel. E com o desenvolvimento da locomotiva híbrida e os contínuos investimentos em eficiência operacional, a empresa pretende continuar avançando na redução de emissões enquanto expande sua capacidade de transporte.

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