Transição verde: a Sigma Lithium tem um plano para acabar com a seca no Jequitinhonha

Investidores da Sigma Lithium renunciam a meio bilhão de dólares em retorno para desenvolver a comunidade
Ana Cabral-Gardner (ao centro) e os representantes das cidades do Vale do Jequitinhonha na COP27, em Sharm el-Sheikh, no Egito (Leandro Fonseca/Exame)
Ana Cabral-Gardner (ao centro) e os representantes das cidades do Vale do Jequitinhonha na COP27, em Sharm el-Sheikh, no Egito (Leandro Fonseca/Exame)
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Fernanda Bastos

Publicado em 23/11/2022 às 06:01.

Última atualização em 23/11/2022 às 10:34.

A Sigma Lithium é uma das empresas que participou da COP27, em Sharm el-Sheikh, no Egito. Em conversa com o time de ESG da EXAME, Ana Cabral-Gardner, CEO da companhia, detalhou o projeto social de coleta de água por meio de cisternas no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que nasceu a partir de reflexões geradas por conta da última edição da Conferência das Partes em Glasgow, onde a companhia saiu inspirada pela discussão de adaptação climática e agricultura sustentável familiar.

O projeto é focado em adaptação climática. A região sofre muito por conta das secas, e as mudanças climáticas podem piorar o cenário. Neste ponto, entra também a questão da justiça climática, pois, os que mais sofrem com as consequências do aquecimento global são as pessoas desassistidas em países pobres. O desafio, no caso do Jequitinhonha, está sendo minimizado ao criar uma solução simples, barata e rápida com capacidade de escalonamento.

Um dos pontos da intervenção é usar cisternas para coletar água da chuva que fica no próprio solo. A ideia é aproveitar os três meses do ano nos quais as chuvas são intensas, conhecidas como monções brasileiras, para reter um abastecimento pluvial para os outros nove meses do ano. Isso permite ao agricultor manter a sua produção, de forma que as vacas, cabras e demais criações não sejam impactadas pela falta de água. Tudo isso utilizando uma tecnologia apelidada de “barraginhas”, que são pequenas barragens instaladas no caminho da água, que escorre devido ao solo seco.

“É uma solução para agora. E só em uma Conferência das Partes para a gente consegue fazer isso acontecer rápido. Para nós é gratificante. Um ano depois de pensar no projeto, durante a COP26, em Glasgow, a gente já tem um resultado de uma iniciativa deste tamanho, dessa magnitude”, comenta Ana Cabral-Gardner, CEO da Sigma Lithium, sobre a importância de eventos como a COP.

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Mineração sustentável

A Sigma Lithium desenvolveu uma tecnologia de processamento carbono zero para o minério de lítio. “Nós produzimos um insumo tecnológico extremamente especializado e com especificações de engenharia do fabricante de baterias no hemisfério norte”, explica a CEO. O minério puro, na cotação internacional, custa por volta de 100 dólares a tonelada. Quando processado em insumo, o preço aumenta para 8 mil dólares. “Nós pagamos o royalty da mineração não no minério, mas no insumo, ou seja, o nosso royalty, o que na nossa visão é o imposto da comunidade e fica 75% no município, é pago em cima 8 mil dólares”, diz Cabral-Gardner. “Esse é o cerne da sustentabilidade social de uma empresa: colocar o seu discurso por trás da sua renúncia econômica.”

Sediada no Canadá, a Sigma Lithium escolheu instalar sua planta de processamento no Brasil por conta da possibilidade de gerar mais impacto social. “Eu sou avaliada pelo meu investidor a partir do S do ESG. Então, faz todo sentido estar no Brasil”, diz a CEO. Essa decisão, no entanto, tem um impacto financeiro de 500 milhões de dólares a mais em impostos, o que representa uma renúncia de retorno por parte do acionista.

“Essa é uma decisão voluntária e o valor, na nossa visão, é insignificante perto do que vamos gerar de retorno no longo prazo”, diz Cabral-Gardner. “O Jequitinhonha, hoje, é conhecido fora do Brasil como vale do lítio. E não mais como vale da miséria. Olha que bacana, todos os investidores globais já veem o Vale do Jequitinhonha como vale do lítio. Isso é um patrimônio nacional.”

Chip de investir na prosperidade para todos

O projeto da Sigma foi desenvolvido a partir de fundos internacionais que buscam investimentos sustentáveis e de impacto. São fundos de pensões e endowment de países como Suécia, Noruega, Estados Unidos, Arábia Saudita, Emirados Árabes, entre outros. “Temos funding no mundo inteiro de pessoas que têm esse chip de investir na prosperidade para todos. Investir na produção sustentável, em que empresa vira uma grande competidora global verde e a região é elevada da circunstância de penúria na qual se encontrava durante 30 anos. Não é minério, é muito mais que isso. O Brasil é imbatível nesse tipo de projeto”, afirma Cabral-Gardner.

A CEO comenta que o Brasil tem como ser um líder deste mercado de insumos de transição energética sustentável. Com produções como o lítio, níquel, cobalto, manganês e o cobre, o Brasil saí na frente na produção veicular. "Se trouxer um processamento para o Brasil e as empresas que fizerem a agregação tecnológica e a certificação tecnológica de maneira clean tech, seremos os grandes campeões globais da transição energética veicular”, comenta sobre as possibilidades para o país sul-americano.

“Então isso é como pensamos: você integra o discurso na renúncia de retornos que, na nossa visão, é insignificante se comparado com o que ganhamos no longo prazo. O que é oportunidade para o Brasil? É o Brasil ser o grande campeão global de entregar insumos de transição energética verde, porque você tem essa matriz energética limpa, que não contamina o meu produto com carbono. E trouxemos a tecnologia clean tech verde sustentável para dentro do país, ou seja, o meu escopo um é verde. Meu escopo dois é verde. E onde eu entrego, eu entrego um insumo zero carbono”, conclui Cabral-Gardner.

 

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