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Repensando a confiabilidade da transmissão elétrica frente ao clima extremo

Diante da intensificação dos eventos climáticos extremos, o setor elétrico brasileiro se vê diante de um dilema estratégico para fortalecer a sua resiliência

O fail-safe busca eliminar falhas por meio da construção de sistemas altamente robustos, enquanto o safe-fail admite a ocorrência de falhas e busca a preparação para mitigar seus efeitos. (Envato)

O fail-safe busca eliminar falhas por meio da construção de sistemas altamente robustos, enquanto o safe-fail admite a ocorrência de falhas e busca a preparação para mitigar seus efeitos. (Envato)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 26 de outubro de 2025 às 14h00.

*De Bruno Isolani, diretor-executivo de Operações da ISA ENERGIA BRASIL

Diante da intensificação dos eventos climáticos extremos, o setor elétrico brasileiro se vê diante de um dilema estratégico. Mais do que garantir a continuidade do fornecimento de energia, é necessário refletir sobre como garantir essa continuidade diante de riscos que se tornam cada vez mais imprevisíveis. 

A busca por resiliência energética – a capacidade de resistir, adaptar-se e recuperar-se de eventos adversos – exige uma mudança de paradigma.

Isso implica revisar a forma como planejamos, operamos e renovamos os ativos do sistema, adotando uma abordagem holística e multidisciplinar. Essa revisão, no entanto, não deve se basear em antagonismos, mas sim em abordagens complementares. 

Os conceitos defail-safe e safe-fail, utilizados principalmente em engenharia, segurança e design de sistemas para lidar com falhas de maneira segura, são frequentemente apresentados como opostos.

O fail-safe busca eliminar falhas por meio da construção de sistemas altamente robustos, enquanto o safe-fail admite a ocorrência de falhas e busca a preparação para mitigar seus efeitos.

Não se trata apenas de evitar falhas: é necessário redefinir o conceito de continuidade, reconhecendo a inevitabilidade de eventos disruptivos e a necessidade de preparar o sistema para responder de forma rápida, eficiente e coordenada.

Portanto, no contexto da resiliência do sistema elétrico, essas duas abordagens não precisam competir – elas se completam. 

A construção de redes robustas, fundamentada na engenharia preventiva, deve continuar sendo a principal estratégia. Evitar falhas é sempre o ideal. No entanto, os desafios operacionais, econômicos e climáticos impõem limites. Em sistemas de transmissão que abrangem milhares de quilômetros de linhas, alcançar uma resiliência absoluta nem sempre é viável – seja do ponto de vista técnico ou financeiro.

Nesses casos, a abordagem do safe-fail surge como uma alternativa pragmática e eficaz: garantir que, diante de uma falha, os impactos sejam mínimos e a resposta, ágil. 

É importante considerar que a infraestrutura de transmissão brasileira foi projetada com base nos padrões climáticos das décadas de 1970 e 1980. Com eventos recentes registrando ventos acima de 150 km/h, torna-se evidente o descompasso entre as condições atuais e os critérios técnicos do passado.

Modernizar toda a rede para torná-la absolutamente resistente a esses eventos exigiria investimentos massivos e imediatos – o que, além de pouco viável, poderia resultar em aumentos tarifários incompatíveis com o interesse da sociedade. 

Portanto, é preciso propor uma nova lógica de decisão orientada ao menor custo global, baseada em inteligência operacional, inovação e adaptação regulatória.

Aspectos que repousam em reflexões importantes: qual é a solução de menor custo global para enfrentar eventos extremos?

É possível adotar soluções não convencionais que reduzam a quantidade de estruturas afetadas em casos críticos? E se, em vez de reconstruir seis torres idênticas, investíssemos em soluções que evitassem a queda de quatro delas? Já consideramos o ganho operacional de reduzir de seis para duas torres colapsadas em um evento extremo como um critério de eficiência regulatória? 

Essas perguntas não nos afastam da robustez – ao contrário, nos aproximam de um modelo mais inteligente, ágil e estratégico de enfrentamento ao risco.

A análise nos permite explorar caminhos diferentes e desenvolver soluções não convencionais – como uso de estruturas compactas, segmentação modular, novos arranjos topológicos e tecnologias preditivas – que podem reduzir o número de estruturas críticas expostas, sem comprometer a confiabilidade do sistema e sem exigir medidas mais estruturantes de reconstrução.  

Além da engenharia física, há uma camada igualmente crítica a ser explorada: a inteligência operacional.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, é essencial acelerar o avanço no sensoriamento da rede, preenchendo lacunas de dados que ainda são insuficientes para o desenvolvimento de alertas climáticos preventivos e integrados aos centros de operação.

Essa evolução é fundamental para que planos de contingência eficazes possam ser acionados de forma tempestiva e equipes sejam posicionadas estrategicamente antes da ocorrência dos eventos. 

A ISA Energia avança nessa agenda ao combinar ações estruturais de adaptação com medidas operacionais de resposta rápida e eficaz.

A empresa também lidera estudos regulatórios, em parceria com a FGV e com discussões com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), para desenvolver novas metodologias de análise custo-benefício aplicadas a investimentos em resiliência em redes de transmissão.

O objetivo é claro: avaliar alternativas com base no menor custo global, considerando não apenas o investimento físico, mas também os custos sociais, ambientais e operacionais associados a falhas. 

O futuro será cada vez mais incerto – e talvez, por isso mesmo, devamos evitar certezas e posições absolutas.

Em vez de buscar respostas definitivas, o setor elétrico precisa cultivar uma postura crítica e permanente de questionamento: Qual é o risco aceitável? Qual é o custo de evitá-lo? Quando vale mais responder rápido do que resistir sempre? 

Trata-se de uma jornada que exige planejamento de longo prazo, integração entre engenharia e sustentabilidade, capacidade de adaptação e colaboração entre agentes públicos e privados. 

Essa é a reflexão que se impõe. E ela está apenas começando.  

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