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Cerca de 30% das emissões globais de gases estufa estão associados ao comércio internacional, especialmente devido à logística (anucha sirivisansuwan/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 11 de março de 2026 às 18h30.
Última atualização em 12 de março de 2026 às 11h56.
Ao mesmo tempo que pode destravar uma nova onda de investimentos verdes no Brasil, o recém-assinado acordo entre Mercosul e União Europeia também traz um paradoxo climático: a expansão do comércio entre os blocos pode elevar emissões de gases de efeito estufa.
Isso acontece porque o aumento do fluxo de mercadorias tende a ampliar o transporte internacional e a produção de bens exportados, atividades responsáveis por uma parcela significativa da pegada de carbono global.
Hoje, cerca de 30% dos gases poluentes emitidos na atmosfera estão associados ao comércio internacional, principalmente à logística.
“A expansão comercial pode aumentar emissões logísticas e de produção, o que pode neutralizar parte dos ganhos climáticos”, destaca Carolina Pavese, diretora da Impacta Consultoria Estratégica e uma das advisors do tratado internacional que iniciou formalmente as negociações ainda na década de 90.
A executiva foi uma das presentes no evento da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEolica) sobre como a inovação pode impulsionar o crescimento das eolícas no Brasil.
Para a especialista, a mudança comercial precisa ser entendida dentro de um contexto mais amplo de transformação energética global.
“Um dos efeitos é a aproximar dois mercados complementares: uma Europa que demanda recursos para descarbonizar e um Brasil com potencial enorme para ser fornecedor da transição energética", diz.
Assinado em janeiro de 2026, o acordo prevê o livre comércio e parceria estratégica entre os blocos: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai de um lado e os 27 países da União Europeia do outro, eliminando tarifas sobre cerca de 91% dos bens comercializados.
Segundo Carolina, o acordo está mais próximo de sair do papel do que em qualquer momento das últimas duas décadas: ratificado por Uruguai e Argentina, enquanto no Brasil o texto foi aprovado pelo Senado e aguarda apenas a publicação no Diário Oficial da União.
Com três dos quatro países do Mercosul concluindo o processo, a expectativa é que o novo capítulo comercial possa entrar em vigor em breve, de forma provisória.
Na prática, o tratado deve facilitar exportações agrícolas e industriais, reduzir barreiras comerciais e integrar cadeias produtivas.
Estimativas indicam que a liberalização comercial pode eliminar cerca de R$ 22 bilhões de tarifas entre os dois blocos.
Além disso, especialistas são unânimes: é preciso analisar as novas regras no contexto geopolítico global,caracterizado por tensões geopolíticas e conflitos no Oriente Médio, que expõem a forte dependência global de combustíveis fósseis.
A União Europeia busca reduzir sua dependência de cadeias industriais dominadas pela China e garantir acesso a insumos estratégicos para a transição energética, como minerais críticos, tecnologias limpas e energia renovável.
++ Leia mais: Como a guerra no Oriente Médio pode impulsionar energias renováveis
Nesse cenário, o Brasil ganha relevância como parceiro estratégico e sai na frente na corrida pela transição energética.
Hoje, a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Mercosul, enquanto o bloco sul-americano representa cerca de 2% do comércio total europeu.
Apesar dessa assimetria, a balança comercial entre as regiões apresenta uma característica incomum: ela é relativamente equilibrada e chegou a registrar superávit para o Mercosul.
A estrutura do comércio, porém, reflete diferenças importantes entre as economias. O Mercosul exporta principalmente commodities, como combustíveis minerais, produtos agrícolas e minerais metálicos.
Já a União Europeia vende ao bloco sul-americano bens manufaturados e tecnologia, como máquinas, equipamentos industriais, produtos farmacêuticos e veículos.
A expectativa é que o acordo amplie o comércio entre os blocos em cerca de 2,3%. Projeções indicam que, até 2040, as exportações podem crescer 2,7% no Mercosul, 2,3% no Brasil, 3,48% na Argentina e 2,57% no Uruguai.
Por outro lado, a especialista aponta que há uma tendência de aumentar a pressão por padrões ambientais mais rigorosos e sustentáveis nas cadeias produtivas, já que o bloco europeu tem incorporado critérios de clima cada vez mais rígidos em seus acordos comerciais.
Nos últimos anos, a União Europeia passou a incorporar critérios climáticos cada vez mais rígidos em suas políticas comerciais. Entre eles estão o CBAM (mecanismo de ajuste de carbono na fronteira) e o regulamento europeu antidesmatamento, que exige rastreabilidade de commodities.
“Para a Europa, a descarbonização já é uma condição para fluxos de produtos internacionais”, afirma Carolina.
Na prática, isso significa que empresas que exportam para o bloco europeu precisarão comprovar padrões ambientais mais rigorosos para acessar o mercado.
Mais relevante do que o impacto direto no comércio pode ser o aumento dos investimentos.
A União Europeia já é hoje o maior investidor estrangeiro no Brasil, considerando o conjunto de seus países. Entre os principais destinos desses recursos estão serviços financeiros, petróleo e gás, comércio, infraestrutura energética e indústria química.
Nos últimos anos, alguns setores ligados à transição energética registraram crescimento acelerado de investimentos europeus no país, como educação, pesquisa e desenvolvimento científico e mineração de minerais críticos.
Segundo Carolina, a tendência europeia é ampliar presença no país em setores estratégicos da nova economia verde.
“Há uma mobilização muito grande de empresas interessadas em investir mais no Brasil em setores como energia, aço verde e tecnologias de descarbonização”, garante a executiva.
O impacto do acordo não deve se limitar à geração de energia renovável. A expectativa é que ele estimule cadeias industriais ligadas à transição climática, como biocombustíveis, hidrogênio verde, minerais críticos e produtos industriais de baixo carbono.
Apesar do potencial econômico e climático do acordo, especialistas apontam que os efeitos concretos dependerão da implementação das regras ambientais e das políticas industriais adotadas pelos países envolvidos.
Se bem executado, o tratado pode transformar o comércio internacional em um instrumento para acelerar a descarbonização. Caso contrário, corre o risco de ampliar emissões em cadeias produtivas ainda intensivas em carbono.
“É preciso antecipar riscos, mas também se preparar para as enormes oportunidades para o Brasil", conclui Carolina.