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O crime ambiental e a insegurança territorial que ameaçam a Amazônia

Salvar a Amazônia é imperativo global e tem implicações diretas para o clima e a biodiversidade e enfrentar esses riscos na COP30 é urgente

No Brasil, desmatamento ilegal, insegurança fundiária e captura institucional convivem com falhas de fiscalização e órgãos subfinanciados (LeoFFreitas/Getty Images)

No Brasil, desmatamento ilegal, insegurança fundiária e captura institucional convivem com falhas de fiscalização e órgãos subfinanciados (LeoFFreitas/Getty Images)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 19 de outubro de 2025 às 14h30.

Última atualização em 19 de outubro de 2025 às 14h45.

*Yanê Amoras Lima, Katherine Aguirre, Robert Muggah, do Instituto Igarapé e Amazon Investor Coalition

Por anos, garimpo ilegal, extração de madeira, grilagem e tráfico de fauna movimentaram fortunas e aceleraram o desmatamento, a perda de biodiversidade e a contaminação por mercúrio.

Ainda assim, o tema ficou ausente das negociações da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC/UNFCCC), nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) e no Global Stocktake.

Só a partir da COP28, em Dubai, entrou timidamente na agenda, impulsionado por sociedade civil e organismos internacionais, e em 2024 passou a ser tratado na Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional (UNTOC) por meio de resolução liderada por Brasil, Peru e França.

Sem o Estado de Direito e instituições capazes de conter economias ilícitas, a transição verde é letra morta. A baixa capacidade estatal em extensas áreas amazônicas amplia a vulnerabilidade.

Frente a isso, o Instituto Igarapé e a Amazon Investor Coalition publicaram o estudo Fora do Radar, que documenta riscos para sociedade civil e empreendimentos verdes e as estratégias locais para enfrentá-los, a partir de entrevistas e uma pesquisa on-line realizada entre o fim de 2024 e o primeiro semestre de 2025.

As ameaças se sobrepõem, mas variam entre os países.

No Brasil, desmatamento ilegal, insegurança fundiária e captura institucional convivem com falhas de fiscalização e órgãos subfinanciados, cenário explorado pelo Primeiro Comando da Capital e pelo Comando Vermelho.

Na Colômbia, grupos armados e economias ilícitas impõem governança paralela, encarecem a ação pública e travam o investimento sustentável.

Em ambos os lados, o crime ambiental mina a legitimidade do Estado, afasta capital e esvazia compromissos climáticos.

No Brasil, os riscos têm raízes estruturais: fragilidade regulatória, registros de terra opacos e corrupção. Mais da metade dos participantes da pesquisa on-line relataram insegurança nas áreas onde atuam, sobretudo na sociedade civil.

Os impactos mais citados são ambientais e financeiros; o fator mais crítico é a falta de aplicação da lei.

Para mitigar, a agenda é clara: fortalecer a justiça e a fiscalização, assegurar posse da terra, empoderar a governança indígena e comunitária, reforçar marcos ambientais e blindar o financiamento com transparência.

As prioridades incluem presença estatal coordenada, inteligência contra redes criminosas, proteção de defensores e aceleração da regularização fundiária e do ordenamento territorial.

O Brasil já dispõe de instrumentos. Avança a regularização fundiária e a vigilância indígena; ONGs operam plataformas digitais de monitoramento; e o governo retomou o PPCDAm e lançou, em 2023, o Plano Amazônico de Segurança e Soberania (AMAS), apoiado por cooperação policial internacional e operações direcionadas.

A meta é reduzir o desmatamento pela metade até 2030 e reforçar a aplicação da lei.

Integrar riscos territoriais e regulatórios à agenda climática é vital. Mitigação, adaptação e financiamento só funcionam com legalidade, rastreabilidade e proteção de direitos.

As economias ilícitas ligadas à floresta e a minerais movimentam centenas de bilhões de dólares por ano, rivalizando com exportações legais.

A COP30 deve levar o tema ao centro, alinhar clima, justiça e segurança, e incluir métricas de Estado de Direito, transparência fundiária, anticorrupção e capacidade judicial nas NDCs, nos planos de adaptação e nas revisões globais.

Para além disso, o fortalecimento do Estado de Direito não deve ser visto apenas como despesa pública, mas como investimento essencial em estabilidade, confiança do mercado e criação de valor a longo prazo.

Apoiar iniciativas de segurança e justiça é fundamental para proteger ativos, reduzir a exposição e criar as condições para investimentos sustentáveis na Amazônia.

Urgência da COP30

No arco norte e nas fronteiras, o crime organizado impõe governança paralela, financia-se com ouro e madeira ilegais e expande frentes de desmatamento. Dinâmicas do interior repercutem em capitais amazônicas como violência urbana e atravessam fronteiras regionais.

Com vizinhança em quase toda a bacia, o Brasil absorve impactos diretos da mobilidade do crime ambiental.

Por isso, enfrentar esses riscos na COP30 é urgente: Belém, no coração da Amazônia, simboliza tanto os desafios quanto a oportunidade de colocar o crime ambiental no centro da diplomacia climática.

Se essa chance for perdida, a floresta continuará esvaziando a agenda climática e corroendo um território vital para a humanidade.

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