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Os sistemas agroflorestais (SAFs) integram espécies florestais e agrícolas, aumentando a resiliência da produção diante das mudanças climáticas (Apuí Agroflorestal/Divulgação)
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Publicado em 5 de julho de 2026 às 16h00.
*Texto de Carla Fischer. Edição de Alice Martins
Os sistemas agroflorestais (SAFs) já demonstraram capacidade para aumentar a produtividade, diversificar a renda dos agricultores e tornar a produção mais resiliente às mudanças climáticas.
Apesar disso, sua expansão na Amazônia ainda esbarra em um conjunto de obstáculos que vai do acesso ao crédito à falta de assistência técnica, passando pela necessidade de políticas públicas específicas e maior articulação entre pesquisa, mercado e financiamento.
Esse foi o consenso entre pesquisadores, representantes do setor produtivo e agricultores durante o painel "Sistemas Agroflorestais (SAFs) como Ferramenta de Resiliência Climática: desafios, tecnologias e caminhos para escala na Amazônia", realizado no terceiro dia da II Semana do Clima da Amazônia, 02 de julho.
Os SAFs são sistemas produtivos que combinam a plantação de árvores com espécies agrícolas, com o objetivo de restaurar a floresta ao mesmo tempo em que cultiva alimento que chega à mesa dos brasileiros.
Na visão do pesquisador Jonas Steinfeld, Diretor Científico e Co-fundador no Centro de Estudos e Inovação Agroflorestal (CEIA), as evidências científicas sobre os benefícios dos SAFs já são amplas. Agora, o desafio é produzir conhecimento mais aplicado, voltado às necessidades dos agricultores.
Segundo ele, estudos sobre biodiversidade e captura de carbono já demonstram a eficiência dos sistemas agroflorestais, mas ainda faltam pesquisas econômicas e de manejo que possam orientar produtores, bancos e formuladores de políticas públicas.

"Agora é a hora de produzir estudos mais aplicados, principalmente sobre diversificação econômica, manejo e produtividade. Precisamos gerar dados que ajudem os bancos a entender melhor esses sistemas”.
Steinfeld também destacou que o Brasil já possui experiência suficiente para ampliar esse modelo.
“Os ingredientes já existem. Temos muitos casos bem-sucedidos. Agora precisamos replicar essas experiências, adaptando-as às características de cada território”, conclui.
Para Carolina Domênico, bióloga e gerente da Natura, além das evidências dos benefícios, já existe um interesse dos produtores pelo modelo. O desafio é transformar essa demanda em projetos viáveis.
Segundo ela, agricultores de diferentes portes procuram alternativas baseadas em sistemas agroflorestais, mas encontram barreiras estruturais.
"Hoje vemos produtores interessados em implantar SAFs, desde pequenas áreas de um ou dois hectares até propriedades com dezenas de hectares. O que trava essa expansão ainda são questões como regularização ambiental, regularização fundiária e acesso ao crédito", afirmou.
A dificuldade de financiamento também foi destacada por Victor Almeida, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma).
Na avaliação dele, o sistema financeiro ainda não está preparado para compreender a lógica produtiva dos SAFs.
Segundo Almeida, enquanto culturas tradicionais contam com linhas de crédito consolidadas, os sistemas agroflorestais ainda não possuem parâmetros claros para análise pelos bancos.
"O grande desafio é ensinar o sistema financeiro o que é um SAF. Não existe um projeto padrão. Sem esse entendimento, o banco não consegue fazer a análise e liberar crédito. E sem crédito você não consegue escalar”, disse.
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Apesar do interesse apontado por Domênico, Almeida diz que ainda há desconhecimento sobre a diversidade produtiva dos SAFs, o que acaba dificultando o financiamento.
"O agricultor tem várias fontes de renda, o que inclusive reduz o risco de crédito. O problema é que os bancos ainda não conseguem avaliar essas diferentes receitas porque não estão acostumados com esse modelo”.
Outro gargalo apontado durante o debate é que toda a estrutura do agronegócio foi construída para atender ao monocultivo.
Para Osvaldo Stella, diretor de Sustentabilidade da Rizoma Agroflorestal (Chief Sustainability Officer - CSO), o sistema agroflorestal não representa uma tecnologia nova, mas o resgate de formas ancestrais de produção adaptadas à floresta.
"O crédito, o mercado e toda a estrutura existente foram desenvolvidos para financiar o monocultivo. Agora precisamos readequar esse sistema para uma tecnologia baseada na produção diversificada, capaz de gerar renda e serviços ambientais na mesma área”, acrescenta.
Stella defendeu ainda que políticas públicas serão fundamentais para acelerar essa transição.
"Investir em pesquisa, desenvolvimento, troca de informações e adaptação dos sistemas agroflorestais às realidades de cada território é o caminho para tornar esses sistemas cada vez mais produtivos, resilientes e competitivos”.
Se os especialistas apontaram os obstáculos, o agricultor familiar Ernesto Suzuki, diretor da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA), levou ao painel um exemplo concreto de que os sistemas agroflorestais podem funcionar em larga escala.
Ele relembrou que o modelo surgiu como resposta à crise enfrentada pela monocultura da pimenta-do-reino e foi construído a partir da união entre os conhecimentos trazidos por imigrantes japoneses e os saberes tradicionais dos povos amazônicos.
Hoje, segundo Suzuki, existem mais de 200 combinações de sistemas agroflorestais desenvolvidas na região.
O produtor destacou que a principal vantagem é a diversificação da produção, que garante renda ao agricultor durante todo o ano e reduz os impactos de eventos climáticos extremos.
"Mesmo durante a seca de 2023, observamos que áreas em sistema agroflorestal mantiveram melhores condições de umidade e produtividade. A matéria orgânica do solo retém água, protege as plantas e garante renda ao agricultor com diferentes culturas ao longo do ano”, explicou.
Apesar dos resultados positivos, Suzuki considera que o maior entrave continua sendo a ausência de investimentos públicos suficientes para ampliar a adoção do modelo.
"O maior gargalo é a falta de investimento dos órgãos públicos. As ferramentas e as informações já existem, o que falta é colocar isso em prática. Quando o agricultor conhece o sistema funcionando, ele acredita e já passa a replicá-lo”, finaliza o agricultor.
Ao final do debate, os participantes convergiram em um ponto: o conhecimento técnico sobre os SAFs já está consolidado, os casos de sucesso demonstram sua viabilidade e o potencial da Amazônia é reconhecido internacionalmente.
O desafio, agora, é transformar essas experiências em políticas públicas, ampliar o acesso ao crédito, fortalecer a assistência técnica e criar condições para que os sistemas agroflorestais deixem de ser iniciativas pontuais e passem a ocupar um espaço cada vez maior na produção amazônica.
Leia a matéria no site da Amazônia Vox.