Håkon Haugli, CEO da Innovation Norway: Noruega traz uma abordagem altamente digitalizada da agricultura, enquanto o Brasil oferece escala, grandes volumes de produção e propriedades rurais de grande porte. (Innovation Norway/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 15 de março de 2026 às 08h00.
Última atualização em 16 de março de 2026 às 11h59.
O Brasil se tornou um dos principais destinos de investimentos e cooperação tecnológica da Noruega, especialmente em áreas como agronegócio, energia e soluções para a transição verde. Só em 2024 foram US$ 14 bilhões, o que colocou o país como o terceiro principal destino de investimentos noruegueses, atrás apenas da União Europeia e dos Estados Unidos.
Para Håkon Haugli, CEO da Innovation Norway — agência do governo norueguês responsável por promover inovação e investimentos no exterior —, o Brasil oferece algo raro: escala para aplicar tecnologias desenvolvidas em mercados menores e acelerar soluções para desafios globais, como segurança alimentar e energia.
Em entrevista exclusiva à EXAME, Haugli afirma que o caos internacional, como a guerra no Oriente Médio, reforça a importância de ampliar a produção de insumos estratégicos, como fertilizantes, e de fortalecer cadeias de suprimento mais resilientes.
Nesse contexto, ele vê espaço para maior cooperação entre empresas norueguesas e o agronegócio brasileiro, combinando tecnologia, investimentos e soluções de agricultura digital.
A Innovation Norway tem dois escritórios aqui no Brasil. O quer a Noruega com o país?
A Innovation Norway tem várias funções. Somos uma organização de promoção comercial, com equipes em São Paulo e no Rio que trabalham para fortalecer o comércio entre Noruega e Brasil. Também atuamos como agência de promoção de investimentos, atraindo projetos para a Noruega, e como agência de inovação, financiando iniciativas tecnológicas. Para isso, oferecemos empréstimos, subsídios e garantias, muitas vezes em parceria com bancos privados, para apoiar o desenvolvimento de novas soluções.
E como é que o agro está inserido nisso?
Somos um banco industrial, agrícola e também distrital de financiamento. Essas funções caminham juntas e, ao longo da nossa história, passaram por 26 fusões entre diferentes instituições. Nossa origem remonta a 1851, quando a Noruega ainda estava em união com a Suécia. Embora o país tivesse constituição e parlamento próprios, muitos bancos eram suecos e não atendiam plenamente às necessidades das empresas norueguesas, especialmente nos setores de agricultura e mineração, que precisavam de capital de risco. Foi nesse contexto que o banco foi criado: para oferecer financiamento onde o mercado não chegava e apoiar atividades estratégicas para a economia. Essa lógica permanece até hoje, com a missão de reduzir riscos e preencher lacunas de financiamento no mercado.
Quais oportunidades a Noruega vê no agronegócio brasileiro, especialmente na agricultura?
Vejo oportunidades enormes. Apenas 3% do território da Noruega é cultivável, enquanto os outros 97% são montanhas, geleiras ou áreas impróprias para cultivo. Por isso, ao longo de gerações, os agricultores noruegueses precisaram ser extremamente inovadores para lidar com desafios como a topografia, a distância dos mercados e o clima. Isso levou a um esforço contínuo de adoção de novas tecnologias, desde avanços em genética animal até a digitalização das operações agrícolas. Costumo brincar que cada vaca está conectada à internet, porque a quantidade de equipamentos digitais nas fazendas é tão grande que praticamente todas as atividades são monitoradas por tecnologia.
Que tipo de tecnologias? Pode ser mais específico?
Hoje existem diversas ferramentas digitais que aumentam a produtividade agrícola, o que cria uma base sólida para cooperação entre Noruega e Brasil em agricultura digital. Um exemplo é a Yara, empresa norueguesa e uma das maiores fornecedoras globais de fertilizantes. Há uma demanda crescente por ferramentas de agricultura de precisão, capazes de otimizar a produção, reduzir o uso de fertilizantes e tornar o uso do solo mais sustentável — uma área em que a Noruega está bastante avançada. Enquanto a Noruega traz uma agricultura altamente digitalizada, o Brasil oferece escala e grandes volumes de produção, o que permite aplicar essas tecnologias em larga escala e reduzir custos. Também há oportunidades em outras frentes, como soluções de fertilizantes ligadas à produção de energia e biocombustíveis.
Você citou os fertilizantes. Os últimos dias têm deixado o agro brasileiro cauteloso em razão da guerra no Irã — e no Oriente Médio, que concentra 35% da produção global de fertilizantes. Essa alta no preço do gás pode comprometer investimentos em produção de fertilizantes no Brasil?
Quando os preços do petróleo e do gás sobem, cadeias de valor de empresas como a Yara são diretamente afetadas, já que o gás natural é um insumo essencial para a produção de fertilizantes. Isso também destaca a dependência do Brasil de fertilizantes importados. Por isso, investimentos de empresas norueguesas na produção local de fertilizantes são importantes para reduzir essa dependência. No entanto, mesmo com investimentos no país, essas empresas ainda dependem de uma cadeia de suprimentos eficiente, especialmente no acesso ao gás natural, que continua sendo essencial para manter a produção funcionando de forma estável.
Guerras como a do Irã podem voltar a desorganizar as cadeias globais de alimentos e energia?
Ainda é cedo para avaliar totalmente os impactos desse conflito, mas crises recentes mostram como cadeias globais podem ser afetadas. A guerra na Ucrânia, por exemplo, desorganizou o abastecimento de alimentos, especialmente para países que dependiam de grãos ucranianos. Para a Noruega, que atua tanto na produção de alimentos quanto em soluções de agricultura digital, isso representa mais uma responsabilidade de ajudar a oferecer soluções. No setor de energia ocorre algo semelhante. A alta do petróleo e do gás provoca disrupções no mercado e aumenta o interesse por alternativas como biocombustíveis, eletricidade, hidrogênio e amônia. A Noruega tem experiência nesse campo, com mais de 100 anos de hidrelétricas, além de atuação em petróleo, gás, solar e eólica. Também podemos contribuir com tecnologia para integrar e estabilizar sistemas de energia, como redes elétricas avançadas, soluções digitais e inteligência artificial. Em momentos de crise, cresce a demanda por soluções em energia e alimentos, áreas nas quais a Noruega pode colaborar.
Por que o Brasil é um caminho para os investimentos da Noruega?
Vim para o Brasil porque os países da EFTA, incluindo a Noruega, assinaram em 2025 um acordo de livre comércio com o Mercosul. Em tempos de incerteza, as parcerias tornam-se ainda mais importantes — e o Brasil é um parceiro muito próximo da Noruega. Do lado brasileiro, percebo uma admiração pela Noruega em temas como estado de bem-estar social, sustentabilidade e igualdade de gênero, o que nos deixa muito orgulhosos. Do ponto de vista empresarial, os noruegueses têm grande interesse pelo Brasil. É um país cheio de oportunidades — culturalmente vibrante, mas também um mercado enorme, com potencial de escala, algo muito importante para empresas de um país pequeno como a Noruega. Um relatório recente do Consulado-Geral no Rio mostra bem isso: sete das dez maiores empresas norueguesas já estão presentes no Brasil, e algumas delas são até maiores aqui do que no próprio país de origem. Mas, como qualquer relação, ele também precisa de manutenção, o que significa continuar fortalecendo o diálogo e entendendo as necessidades de cada lado.
Mas o que o Brasil tem de diferente nesse sentido?
Brasil e Noruega compartilham ambições importantes, especialmente no que diz respeito à transição verde e à sustentabilidade — temas que, em algumas partes do mundo, vêm sendo cada vez mais questionados. Também há um interesse comum em defender um comércio internacional baseado em regras, o que ajuda a explicar o acordo firmado entre os países. Esse princípio, assim como a estabilidade global, também enfrenta desafios atualmente. Além disso, valores como o estado de direito, a democracia e os direitos humanos são fundamentos que Brasil e Noruega compartilham. Embora a relação entre os dois países já seja bastante positiva e tenha se desenvolvido ao longo dos anos, ainda existe muito potencial a ser explorado.
Qual é o tamanho dos investimentos da Noruega no Brasil e em quais setores eles se concentram?
Os números de 2025 ainda não foram fechados, mas o dado mais recente indica que os investimentos noruegueses no Brasil somaram 14 bilhões de dólares em 2024. Além do agronegócio, o espectro é bastante amplo. O primeiro é o setor marítimo, que inclui desde navios e infraestrutura até portos, soluções logísticas e embarcações de apoio. Os portos, naturalmente, são fundamentais para viabilizar as atividades no mar e também abaixo da superfície. O segundo grande setor é o de energia, que está fortemente conectado ao marítimo. Isso envolve petróleo e gás e eólica offshore. Muitas dessas atividades se cruzam: uma mesma embarcação pode servir tanto a operações marítimas gerais quanto a projetos do setor energético. Portanto, marítimo e energia são hoje os principais focos de investimento, embora a atuação não se limite a essas áreas.
Mais cedo você citou as mudanças climáticas. Como os investimentos da Noruega podem ajudar o Brasil nesse sentido?
Acredito que possamos contribuir principalmente de duas maneiras. A primeira é que a Noruega, pelo seu tamanho, pode funcionar como um laboratório para novas soluções. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os carros elétricos. Utilizamos políticas públicas e incentivos para acelerar essa transição e, hoje, mais de 90% dos carros novos vendidos no país são elétricos ou híbridos. Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras áreas, como o transporte marítimo elétrico, além de iniciativas ligadas a biocombustíveis e economia circular. Não significa que a Noruega tenha todas as respostas, mas existe afinidade e interesse em construir soluções conjuntas. A discussão central hoje é como levar as soluções sustentáveis para escala global. Já sabemos que as mudanças climáticas estão acontecendo; portanto, não basta apenas pesquisar ou desenvolver tecnologias. É preciso implementá-las em larga escala, e para isso são necessários capital, clientes e competência.
Em um mundo mais caótico, como parcerias comerciais confiáveis se tornam ainda mais estratégicas?
Em primeiro lugar, o mundo — ou pelo menos a nossa parte dele — enfrenta conflitos e guerras, o que acaba desviando a atenção de desafios de longo prazo, como a grave crise das mudanças climáticas. Esse cenário pode levar a Noruega, a Europa e outros países a fortalecer relações com novos parceiros. Tanto o governo norueguês quanto o brasileiro têm buscado firmar novos acordos de livre comércio, justamente para preservar um sistema de comércio internacional baseado em regras, mesmo em um contexto de maior tensão global. Portanto, embora existam riscos quando o mundo passa por momentos difíceis, as parcerias tornam-se ainda mais importantes — e é nesses momentos que os amigos tendem a se aproximar ainda mais.